A Separação

10:06

O primeiro filme do Oriente Médio que eu vi na vida acho que foi Filhos do Paraíso, do diretor Majid Majidi. Por coincidência também é iraniano e lembro que na época eu já tinha essa vontade de ver filmes de vários lugares do mundo. O que me deu segurança foi o fato de ser um filme sobre crianças, de ser de lá e, é claro, a nominação ao Oscar de filme estrangeiro em 1997.

Enquanto ficamos em dúvida sobre algumas escolhas das outras categorias, a de Filme Estrangeiro merece crédito. Eles selecionam os melhores filmes do ano de verdade e ainda ficamos sofrendo com outros incríveis que não entram. Só pra lembrar, o ano passado foi de Em um Mundo Melhor e em 2010, O Segredo de Seus Olhos. Quem conhece vai concordar com qualquer prêmio que seja dado a eles. Esse é o ano de A Separação. De Filhos pra cá, tenho buscado ver esses filmes de terras distantes e não só isso, a cinematografia de lá tem uma estrutura própria, uma forma de contar histórias que me agrada. É mais próxima dos filmes realistas e documentais, do próprio neo-realismo italiano com não-atores, um pouco de cinema novo, só que mais fluido e de uma sensação firme de que o que se conta ali é de fato o que acontece na vida real. Essa marca se torna ainda mais forte se imaginarmos uma história parecida contada pelo cinema americano.


A Separação trata de um casal em que a mulher pede o divórcio porque quer sair do Irã e o marido se nega a acompanhá-la. Ela só poderia sair com a separação e queria levar a filha adolescente, para que fossem viver num país em que tivessem mais liberdade e que sua filha pudesse fazer suas próprias escolhas. O marido não pode ir porque precisa cuidar do pai com Alzheimer e não quer perder a guarda da filha. Com o problema estabelecido já na primeira seqüência, entendemos que esse filme quer nos contar mais algumas histórias.

Enquanto Filhos do Paraíso ganhou o mundo contando uma fábula terna sobre uma garotinha pobre que perde os sapatos e não pode ir à escola sem eles, A Separação traz uma história adulta sobre questões cotidianas e de mudança de comportamento - por isso se tornam universais - ao invés de reforçar marcas culturais específicas. Essa atualidade do cinema iraniano não vem apenas com esse filme, mas com o que Abbas Kiarostami e Samira Makhmalbaf, pra citar apenas dois diretores, vêm trazendo ao longo dos anos.

Quando vemos um filme iraniano imaginamos outro tempo, um alongamento da narrativa, preso em pequenos pequenos detalhes que vão transformando a história aos poucos, sempre mantendo a religião como marca forte, quando não o centro por onde a narrativa se desenvolve. Aqui, o diretor consegue – e talvez esse seja um dos primeiros filmes iranianos com essa marca – se concentrar na ideia de que as mulheres estão buscando seu espaço no mundo, são profissionais que precisam ajudar a sustentar a família e os homens têm que aprender a lidar com essa nova estrutura familiar. O arranjo ainda não funciona pra maioria, mas perceber famílias modernas num país extremamente radical e notoriamente desigual com em relação aos gêneros nos faz repensar nosso conceito sobre o país.

O filme tem uma graça que lhe é própria, há um despreparo do marido em viver sem a esposa que sempre cuidou de tudo – como as nossas brasileiras com dupla e tripla jornadas de trabalho – e de lidar com a nova diarista grávida, devota à sua religião e que por isso não pode fazer algumas atividades, como cuidar apropriadamente de um idoso. Para se ter uma ideia, ela não pode ser tocada ou tocar em outro homem que não seu marido. Há ainda a filha da diarista que nos ganha só com o olhar e as peripécias com o novo avô que ganhou inesperadamente.

As principais mulheres do filme explicitam essa idéia de mudança de comportamento. A forma com que se vestem seria o primeiro indício; enquanto a mulher que quer se divorciar é professora e usa roupas mais leves – inclusive a que lhe cobre os cabelos vermelhos – a outra usa trajes pesados, como se o fato de se cobrir mais do que a outra a tornasse mais pura e protegida contra os males do mundo e ainda trabalha escondido do marido. A relação que estabelecem com seus maridos, idem: a primeira, já que não pode tê-lo para conquistar o que almeja na vida, pede o divórcio, para que cada um viva de acordo com o que entende como correto, enquanto a outra está sempre submissa, escondendo com medo as mais inofensivas descisões e atitudes. E mais, a religião - que como dita comportamentos, regras e leis no Irã - não pode ficar de fora. Tanta é a devoção religiosa da diarista, que lembra um pouco o que vemos por aqui, com os evangélicos, batistas, Testemunhas de Jeová, que também carregam diversas restrições não só de vestuário, como de pensamento em regras que nem sempre fazem sentido para a vida prática.

O filme corre e ganha complexidades inesperadas, envolvendo a justiça num crime que aproxima a todos e a narrativa cresce. Passamos a acompanhar um dia-a-dia cada vez mais tenso, em que as soluções se parecem distantes e embaralhadas, como as relações familiares dos dois lados. A educação, as diferenças, o que é certo e errado se mistura e até nós precisamos repensar nossas conclusões a cada desenrolar. Meu favorito, por exemplo, mudou de personagem em personagem até se instalar no mais improvável, mas acredito, no mais humano de todos.

A indicação para o Oscar não foi à toa. Não importando quaisquer questões políticas por trás da escolha – a premiação é dos EUA – não tira o mérito da produção. O filme é divertido, tenso e com questões universais. E ver a mulher em papéis de destaque e voz, ainda que não igual perante a justiça ou sociedade, mas em situações que a colocam em primeiro plano, a quem cabe as grandes decisões, é garantir um novo olhar e a quebra de alguns preconceitos sobre um país e região estereotipados pela mídia. Aqui não há terrorismo, guerras, bombas ou tiros. É o cotidiano particular de famílias e sentimentos, cujas histórias se cruzam em momentos delicados.


Trailer aqui!!!
Título original: Jodaeyie Nader az Simin
Diretor: Asghar Farhadi
2011 / Irã 123 min

Ah! Encontrei o blog Cinema Iraniano, que tem uma pesquisa bacana sobre o assunto.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

2 comentários

  1. Isabela Sattamini30 janeiro, 2012

    Acabei de chegar no cinema, fui ver A Separação. Incrível! Um filme daqueles que fica na sua cabeça por vários dias, e que, sem perceber, surge em seu pensamento uma cena ou um personagem. A questão da religião, a situação da mulher e os conflitos inerentes a vida em sociedade. Fazem pensar.

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  2. Fui ver o filme essa semana. E o que me chamou atenção é que as histórias não se concluem, não se fecham. A verdade sobre o que realmente aconteceu não fica tão claro. São apenas nuances de pequenas verdades que podem ser verdadeiras ou não. E isso é foda! Falando em Makhmalbaf, cinema iraniano e documentário, não sei se você já viu "Salve o Cinema", de Mohsen Makhmalbaf (pai de Samira). Se não, veja!

    Bjos

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