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Café: extra-forte


Sem assistir novos filmes num fim de semana atribulado, fechei o domingo com chave de ouro no show de Paul McCartney. Já tinha perdido o de São Paulo e não poderia deixar de ir, estando Paul no Rio de Janeiro.

Para chegar pegamos o metrô até a Central do Brasil e de lá um trem direto ao Engenhão. Foi minha primeira visita à Central, meu primeiro trem carioca. Uma fila incrível nos aguardava na entrada do estádio, mas tínhamos tempo. Fui com 3 amigos que encontro de vez em quando e foi como se o tempo não houvesse passado.

Foi incrível! Não sei se pela excitação do evento, se por ser um show grande, pelos fanáticos – como eu – que cantavam com toda a voz e pulmão todas as músicas do começo ao fim... mesmo sem conseguir ver o palco direito, valeu cada minuto. Fiquei pensando em como deve ser difícil montar um set list com tantos sucessos de carreira, mas ele escolheu bem e como nos filmes em que não leio sinopse, aqui também não sabia a rotina do show e cada música era uma grande surpresa. Cada primeiro acorde nos levava ao delírio, já reconhecíamos quase todas assim e os gritos, xingamentos, lágrimas e abraços celebravam aquela imensa comunhão musical.

Segunda teve um show extra. O amigo que foi domingo comigo havia comprado o ingresso de segunda e me disse que eu ia me arrepender se não fosse. Na verdade, quando ele me falou que já tinha o ingresso, eu comecei a sofrer. Imaginar que poderia ver o show novamente, de repente até de mais perto, ver Paul no palco junto com os músicos... reviver chorando the long and winding road... eu merecia isso. E fui.

Consegui ficar muito mais perto por um valor não tão absurdo graças ao desespero dos cambistas e não só me acabei em the long and winding road como fiz o mesmo em let it be. Não sei exatamente por que... acho que por estar sozinha naquele momento e sozinha por escolha, porque queria ficar na frente e outro amigo que foi comigo não era tão fanático assim... acho que acabei também ficando mais à vontade e me deixei levar nessas duas lindas músicas. Um rapaz me viu naquela alegria chorosa, me abraçou e me consolou, mas nem precisava... era um transbordamento feliz.

O Rio estava me entediando há um tempo e eu precisava de fortes emoções, fortes e boas que eu sabia que encontraria ali. As duas noites recarregaram minhas energias, eu estava tranqüila novamente e ainda reencontrei grandes amigos. São prazeres fundamentais. Era preciso viver. Foi importante.

Soube de uma lenda que Paul vem no último bimestre. Mesmo não sendo meu Beatle favorito, não posso encontrar com John, então... Eu tinha esquecido como é divertido ir a um show e encontrar tanta gente ali, feliz, vibrando com o mesmo motivo, na mesma energia, buscando o mesmo fim. Como nos entregamos naquelas 3 horas, esperando que elas nunca acabassem... Eu entendi porque Paul faz um show longo: é porque já conhecemos tanto as músicas que elas passam muito rápido... o tempo corre e nos perdemos. Quando olhava no relógio, me assustava como já estava perto do fim e todos ainda estavam gritando e vivendo, rindo, pulando. Valeu cada centavo. Agora é esperar.
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Se Tarkovski diz em certo sentido, o passado é muito mais real, ou de qualquer forma, mais estável, mais resistente que o presente, o qual desliza e se esvai como areia entre os dedos, adquirindo peso material somente através da recordação, é justamente deste peso e de como lidar com a recordação que trata Rabbit Hole ou ridiculamente em português Reencontrando a Felicidade.

Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) formam um casal que perdeu há oito meses o filho de poucos anos num acidente. Eles, ao contrário de estar reencontrando a felicidade – como assim definiu o título em português alguém que não entendeu o filme – buscam apenas conseguir conviver com a realidade, com o presente, lidando com um passado ao mesmo tempo feliz e triste.

Enquanto o pai tenta se apegar às recordações tentando reviver momentos com o filho em filmes gravados no celular, reclama da ausência de fotos na casa e vai à terapia de grupo na esperança de se reerguer, a mãe prefere transformar o presente, arrumando a casa, guardando e doando o que não vai mais ter uso, como as roupas e brinquedos do filho. O interessante é perceber que o tratamento da perda aqui é individual. Apesar de todos viverem uma dor compartilhada, as manifestações são particulares e é esse o ponto forte do filme.

Rabbit Hole refere-se aos buracos de coelho, parte de uma teoria sobre universos paralelos em que através deles conseguimos atravessar deste para outros universos onde seria possível viver versões de nós. Daí  vem a própria construção do poster, onde vemos frações de uma mesma pessoa. A explicação quem nos dá é um adolescente que está criando uma história em quadrinhos com esse tema. Becca o encontra e começa a ler um livro sobre o assunto. Para ela, é interessante pensar que em algum lugar, ainda que em outro universo, ela está se divertindo. Sem falar que a expressão rabbit hole nos remete a outras obras que se valem desta teoria, onde os mais óbvios são Alice no País das Maravilhas, Matrix e um pouco mais distante, A Origem. A teoria dos universos paralelos sempre esteve nos filmes, enriquecendo e tornando mais complexas as tramas. Especialmente em filmes de ficção científica. Mas aqui, funciona como um caminho para se pensar alternativas. Não tanto em relação à dor, mas como uma forma de olhar diferente o que se está vivendo, tornar suportável.

Com toda a carga trágica do filme, este não é um melodrama. A postura dos atores, a forma como foram dirigidos deixa claro que o objetivo é muito mais a sinceridade do que a pungência.  Este resultado é fruto da construção dos personagens e a de Nicole Kidman merece atenção. Ela nos prende com o menor dos movimentos, acreditamos nela apenas com o olhar, com uma frase, num personagem complexo e fantástico. Ao mesmo tempo, vemos um Aaron Eckhart crescendo. Ele ainda não tem a presença de um protagonista, mas seu desenvolvimento é notável, especialmente quando nos lembramos dele como o Duas Caras de Batman e agora nesse drama quase real. Há ainda personagens secundários, alguns descartáveis e outros marcantes como o de Dianne Wiest, que faz a mãe de Becca, uma mulher que também sofreu perdas e ajuda a filha dentro do limite que lhe foi imposto.

As construções de contexto também se tornam elementos chave. A fotografia mantém uma aura de passado, especialmente na residência do casal. Tons monocromáticos em gradações distintas, de figurino e iluminação, a fotografia em si, com um filtro de textura quase palpável e enquadramentos nos olhares, focos nas expressões e momentos de silêncio são a chave. Filmes silenciosos devem ser difíceis de fazer. Construir a cena na expressão e nos enquadramentos exige não só preparo, mas refinamento dos atores e do diretor. Talvez aqui tenha sido menos difícil ao se tratar de uma adaptação de uma peça e, já tendo sido montada, ficou mais fácil perceber os momentos onde – e aí vai um clichê – menos é mais.

Não é um filme leve. É um filme que fala sobre perda de alguém fundamental. Ao mesmo tempo, é um filme real, possível. O que vemos na tela é muito parecido com o que vivemos em algum momento e isso é doído, mas, ao mesmo tempo, conseguimos ultrapassar os apertos e perceber que não é só disso que trata o filme, mas de amor e de relacionamentos. Numa sessão cheia, conseguimos ainda gargalhar e se solidarizar, em conjunto, com o que víamos na tela.

Trailer aqui.
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Vejo agora o que eu teria que me tornar para deter homens como ele.
Batman

No fim de semana passado, Osama morreu. Talvez por ter perdido algumas noites numa gripe sem fim, quando soube da notícia na segunda de manhã, acho que não reagi da forma adequada. As notícias sobre o Casamento Real finalmente haviam saído da mídia e agora festejos como o Ano Novo apareciam na TV. Os americanos foram às ruas na noite de domingo festejar histéricos o fim de uma era. Passou. Agora as notícias que correm são radiais. Elas partem deste foco Obama matou Osama para porque, o que, quando, como, onde, cadê.

O Coringa do último Batman é o melhor vilão já criado no cinema. Ele representa loucura, com uma insanidade quase lógica. O Coringa não tem planos, desorganiza o crime dos outros com um ideal: matar Batman. Ele não tem medo, não tem religião, não tem amigos. Durante o filme, ele procura justificar para cada vítima a razão para aquele sorriso de cicatriz; a marca indelével de seu caráter estampada na face: mesmo morto, ele estará rindo.

Não há ninguém mais assustador do que esse vilão, simplesmente por conta do riso. Não há nada mais assustador do que a perversidade, a loucura consentida, o escárnio consciente, a ausência de medo. O sorriso de que derivam gargalhadas pode se transformar no terror mais brutal. 

Entendendo que o objetivo de Batman não é matar o Coringa, mas livrar Gotham City dos criminosos, começamos a nos perguntar, como os cidadãos de Gotham, por que isso estava demorando tanto. Batman havia perdido a credibilidade e já queriam bani-lo, estava causando muitos estragos na cidade, deixando inocentes morrerem. Enquanto isso, o Coringa atacava, espalhando medo, informando a todos seu objetivo e esperando um retorno da sociedade. Os vilões são sempre simples, porque são leais aos seus objetivos e não medem esforços para cumpri-los.

Após os ataques terroristas do Coringa, Batman não pôde mais ficar quieto. Ele nem queria se meter nessa briga, ia deixar para o procurador da justiça, mas o estrago já estava feito: ele estava no meio do tiroteio e tinha que contra atacar. Como todo terrorista – porque hoje em dia sabemos absolutamente tudo sobre eles – seus ataques inesperados eram o toque de gênio. Gotham estava em pânico.

Em uma cena, Batman, já em desespero encontra um dos bandidos que contratou o Coringa e pergunta onde aquele está e a resposta é: Ninguém vai lhe dizer nada. Eles sabem qual é a sua. Você segue as regras. O Coringa não segue regra alguma. Ninguém vai traí-lo por você. Se quer pegá-lo, só tem uma saída. Mas você já sabe qual. É só tirar a máscara que ele irá até você. Ou deixe mais pessoas morrerem enquanto se decide. Sabemos o que foi necessário aqui, governos que entraram e saíram, pedidos de apoio negados, rios de dinheiro, invasões, assassinatos. Todas as regras foram quebradas paulatinamente, com uma sobrancelha levantada em ar de desafio esperando um impedimento que nunca chegou.

O filme segue e um ou dois minutos depois, Harvey Dent, o procurador da justiça (e do bem, aparentemente) encontra-se com Batman. Ambos atrás do Coringa. E Batman diz: Você é o símbolo de esperança que eu nunca poderei ser. Sua luta contra o crime organizado é o primeiro raio de luz legítimo em Gotham há décadas. E numa discussão, Batman entrega Gotham a Harvey.

As analogias de um filme de super-herói com a vida real são tão gritantes, que só a descrição das cenas já revela mais do que qualquer discurso presidencial. Fica meio confuso definir quem é mocinho e bandido e isso também é legal no filme, porque Batman é o Cavaleiro das Trevas, um herói sombrio, politicamente incorreto, não um raio de sol e proteção, como o Super Homem. Aliás, falando em Super Homem, a última notícia é de que abandonaria os Estados Unidos, porque lá o pessoal estava acreditando que ele era de domínio norte-americano, quando o objetivo primeiro do Super Homem é salvar toda a humanidade.

Além disso, outras questões nos deixam de orelha em pé. O artigo do Economist que trata da ética no assassinato de Osama, de como isso foi aceito ou não mal recebido por países que antes condenavam esse tipo de operação é um deles. Ainda no livro de Ali Kamel, Bush havia solicitado apoio a estes países e todos se mantiveram incólumes numa política de não estão me incomodando, então deixa quieto. O artigo é bem feliz quando traz uma dúvida sincera: o que era de fato fundamental? Era fundamental matar Osama? Se fosse capturado vivo, seria melhor ou pior? A morte de terroristas – assumindo que quem os classifica são os EUA – é a solução final?

E, como toda a indústria do entretenimento, já temos livros e filmes em produção sobre a morte do Osama, a tropa de elite que o matou, provavelmente um perfil de cada presidente envolvido e o que mais possa corroborar a situação de forma que todos possam aceitar sem engasgos.

Se o irmão mais velho domina a quadra da escola, quem vai brigar com ele quando ele não quiser ninguém lá dentro? Num mundo de tanta diversidade e apatia política, não temos pais para dizer o que é certo e errado, se nem órgãos internacionais se manifestam. Acabaremos todos cedendo aos caprichos do mais forte para não apanharmos ou sermos colocados de castigo. É esta a democracia de que tanto se fala por aí?

Todos se esconderam sob a capa da hipocrisia. Como o Comissário Gordon permitiria o Batman matar o Coringa, aqui ninguém manifestou repúdio ou, pelo menos, alguma estranheza nos festejos em torno de um assassinato. Há, inclusive, justificativas cordiais para tanta alegria, outro fato assustador do momento. Nem se ouve falar em direitos humanos, ONU ou qualquer coisa do gênero. Que fique claro: o objetivo não é defender, proteger, salvaguardar a honra do terrorista, mas se fazer entender que matá-lo não transforma ninguém em herói. Ainda que acabem por transformar o bandido em mártir.

Se Batman usa a mesma moeda que o Coringa – que consegue até transformar o correto procurador no Duas Caras – quem vai nos salvar ou, mais importante: de quem seremos salvos? E se outro dia aparecer um Coringa mais louco? Os países que se oporiam continuarão na política de vendar os olhos? Ou será que tudo vai terminar como os filmes de Jason em que nos preocupamos em saber onde está a cabeça do serial killer para provar que ele morreu? Enquanto todos se ocupam com perguntas de esquiva, perde-se o motivo do crime, ou melhor, da legítima defesa, justiça, paz e igualdade porque tanto prezam os super-heróis.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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