Querida, vou comprar cigarros e volto

13:24

Parece ser uma tradição, mas o cinema argentino ainda tem uma graça que nos supera facilmente. Não tem como escapar; talvez nossa evolução televisiva tenha adiado o treinamento no cinema e ficamos um pouco pra trás – claro, com incríveis e cada vez mais, exceções – em filmes que são como programas de TV estendidos para uma tela e duração maiores.
Querida, vou comprar cigarros e volto é outro exemplo de um filme relativamente simples, com grande criatividade e perfeita execução. Ernesto é um senhor de 63 anos que está em um café com sua esposa no interior da província de Buenos Aires. Em seus pensamentos reclama da vida, da mesmice, da falta de oportunidade, das decisões erradas. Um homem capta sua ladainha, aguarda a saída da mulher de Ernesto e lhe faz uma proposta irrecusável: dará um milhão de dólares para que reviva dez anos de sua vida com a cabeça que tem hoje.
A graça do filme está na narrativa e interpretações. A estória é um conto adaptado de Alberto Laiseca que também apresenta o filme como narrador e comentarista. O uso do escritor como aquele que guia a estória lembra – com menos suspense – Hitchcock no seu Hitchcock Presents, uma série de filmes feitos para TV, onde introduz seus personagens e explica o enredo de forma direta e misteriosa. Mas enquanto o papel de Hitchcock como apresentador se encerra logo no início e ele nos deixa à mercê dos fatos, Alberto nos acompanha, como um amigo de bar contando uma anedota um tanto autobiográfica e deixando o mistério a cargo das próximas cenas.
A montagem vai e vem no passado de Ernesto, um cara que se prova atrapalhado e gauche durante toda a vida. Permeando momentos importantes de nossa História contemporânea mundial, Ernesto tenta a todo custo se dar bem, seja como herói ou vigarista. Essa visita a um passado visando mudar o presente se prova infrutífera, e nos remete a outros filmes, como Forest Gump e De Volta para o Futuro. Enquanto o primeiro trata da participação de Forest em fatos históricos, De Volta busca com uma viagem ao passado, remodelar uma estrutura familiar e de vida que traga mais benefícios a Marty McFly e Dr. Emmet Brown. Querida se aproveita das duas experiências, com resultados nem sempre felizes para nosso protagonista.
A fotografia que desde o presente tem ar de passado reforça a descoberta final de Ernesto. A queixa de uma vida infeliz aqui só marca uma “covardia” diante de um futuro desconhecido. Às vezes nos perdemos com a rotina confortável e previsível – ainda que saibamos insatisfatória e por isso reclamamos – quando ao notar, as alternativas, o aventurar-se também está diante de nós, como uma porta fechada à nossa frente e a chave em nossas mãos. Ao escolher abrir a porta, não sabemos o que estará lá, mas se nunca abrirmos, viveremos sempre com a chave na mão e a certeza de que ali se perde uma oportunidade.
O filme, não só apresenta uma história única, bem elaborada, divertida com atores incríveis – já na primeira seqüência sabemos que algo de bom vem por aí, basta sentir o mistério do homem que faz a proposta a Ernesto, e ainda, a mulher do Ernesto adulto – cuja maquiagem e figurino a transformam numa senhora típica de Copacabana (assustadora, mas gente boa), me trouxe Alberto Laiseca um escritor que ignorava a existência por completo e que, além de ser multi-plataforma, tem boas histórias. Com tantas qualidades, só podemos esperar que o filme volte após o Festival do Rio e consiga mais espaço no circuito.

Encontrei o blog de Alberto Laiseca.
E aqui, o trailer.

Título Original: Querida voy a comprar cigarrillos y vuelvo
Diretor: Mariano Cohn e Gastón Duprat
Argentina, 2011. 80 min.

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