A Pele que Habito*

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Esse é certamente o mais formalista dos filmes de Almodóvar. É um thriller, um suspense intenso que nos deixa cada vez mais tensos e boquiabertos a cada cena. É a estória de um cirurgião plástico viúvo (Antonio Banderas) que desenvolve pesquisas para construção de tecido humano. Ele mantém em cativeiro uma cobaia (Elena Anaya) que recebe os cuidados de uma governanta-enfermeira (Marisa Paredes). Todos mantêm uma relação de intimidade conformada, compreendida inicialmente por estarem vivendo sob o mesmo teto, a mansão do médico.
As dicas do filme são só essas: é uma história de vingança e sobrevivência, o título é descortinado após um tempo e gera um encantamento imediato pela inteligência do roteirista e diretor, e de Thierry Jonquet, escritor de Tarântula, história em que se baseia o filme. Os figurinos minimamente desenvolvidos por Paco Delgado a quem desconheço, mas com colaboração de ninguém menos que Jean-Paul Gaultier, com tecidos elásticos que cobrem todo o corpo como uma segunda pele, os cenários simbolicamente definidos entre a ausência e a abundância de objetos, o voyeurismo. Neste filme, literalmente, tudo tem seu lugar.
A trama não comporta escrúpulos ou saídas fáceis. Entendemos isso logo no início e também deles temos que nos libertar, o filme precisa ser visto sem amarras, entendido como um jogo e ser participado com cúmplices e não juízes. Muitos fetiches e como não poderia de ser, há também uma importante questão de gênero e poder. Marca registrada do diretor, a sexualidade mais uma vez é ponto-chave na trama, mas agora levada a um outro patamar e abordada de uma forma inteiramente nova na filmografia do diretor.
O filme acontece num labirinto de situações que vão explicando aos poucos o que seria o presente, preenchendo as lacunas de um mistério kafkaniano e nos preparando para um desfecho quase imprevisível. Quase, porque as saídas deixadas para a resolução da trama vão se reduzindo com a gravidade das ações dos personagens, os abusos de poder, as violências, seus passados. A trilha sonora é tão presente quanto os demais elementos; como sempre, Almodóvar orquestra todas as camadas da criação de forma a torná-las fundamentais à diegese. As músicas eliminam as palavras e nos deixam sem ar, assim como as interpretações dos atores. Os cenários como já citei, nos ajudam a imaginar uma prisão confortável para o corpo mas, como todas devem ser, impossível para a mente.
O formalismo se justifica nas minúcias da produção, no desenrolar de uma trama ousada, arquitetada quase matematicamente. A música forte, incidente, criminosa quase, traz à memória o suspense Hitchcockiano e o amplia. Funciona como pontos de intensidade e, ao mesmo tempo que nos deliciamos com a velocidade das notas dos violinos, ficamos emocionados e quase escondemos o rosto ou tapamos os ouvidos. O efeito criado é como de um voyeurismo para os ouvidos, às avessas. Ou como nos filmes de terror em que sabemos que o mal vai aparecer e tampamos os olhos com as mãos, mas sempre deixando os dedos afastados. É impossível não olhar, como neste filme é impossível não ouvir. Antonio Banderas está transtornado como seu personagem exige, transformado em outro ser, e quanto à Elena Anaya e Jan Cornet, é melhor que não se diga muito. Suas atuações são como o mistério da obra, não merecem ser reveladas em texto.
Diferente de outros filmes em que costumamos dizer que as histórias são todas iguais e defendê-los indicando que o que importa é a forma de contá-las, em La Piel que Habito temos duas imensas razões para assisti-la: uma história verdadeiramente original abraçada a uma forma perfeita. Que fique claro: o começo-meio-e-fim existe, o filme garante a narrativa que conhecemos e que não temos dificuldades em acompanhar. Há aquele momento decisivo, onde o personagem não terá sua vida cotidiana de volta porque sua atitude marcou seu destino. E o melhor de tudo: neste filme, a reviravolta acontece com todos os maiores personagens. Todos têm um pouco da trajetória do herói em suas próprias vidas.
Mais um dos filmes que nos deixa perplexos e felizes, Almodóvar surpreende numa obra realmente nova, escapando um pouco de seus temas habituais de amor e ambicionando outros ‘gêneros’, se é que podemos enquadrar um filme deste diretor em algum. Não sei se pela importância e poder de que este filme já é imbuído, mas foi o melhor dos 14 que vi no Festival e possivelmente o melhor do ano até agora.

*Festival do Rio 2011.
Título Original: La Piel que Habito
Com: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet
Diretor: Pedro Almodóvar
Espanha, 2011. 117 min
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1 comentários

  1. Tati, seus textos fazem a gente ficar com vontade de sair correndo para entrar no cinema e assistir o filme que vc acaba de indicar. Luiz disse que se ele trabalhasse num caderno de cultura, ia querer vc pra escrever. Continue nos presenteando com essas delícias literárias, cheias de conhecimento cinematográfico e percepções da vida! Bjs, amore!

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