Os nomes do Amor

21:09

Quando saí do Roxy depois da sessão, havia uma senhora com o pé engessado tentando entrar em um táxi. Vi tudo de soslaio, porque estava andando rápido, doida pra chegar em casa. Mas a cena me fez virar a cabeça umas duas vezes para ver como terminava e ninguém foi ajudar a velhinha. Não sou heroína de história infantil, mas ela estava com uma dificuldade e eu poderia facilitar a vida dela naquele instante... por que não? E tinha gente por perto olhando a cena, curiosos provavelmente de ver se a senhora conseguiria entrar no táxi sozinha ou tímidos, distraídos para qualquer atitude. Fiz quase nada: abri a porta do táxi, ela sentou, me agachei, conseguimos colocar suas perninhas pra dentro e tchau. De novo, não sou madre Teresa, mas essa não deveria ser uma ação automática?
Enfatizo o ocorrido porque havia justamente uma cena nessa comédia romântica francesa em que a mocinha está no vagão do metrô com o paquera que acabou de conhecer e um casal de idosos caminha vagarosamente em direção ao vagão. Ela sabe que eles não conseguirão entrar a tempo e corre pra impedir que a porta se feche. Exatamente neste momento o público riu e provavelmente se identificou e/ou pensou: essa menina é bacana, engraçada, maluca. Provavelmente concordaram que era uma ação inesperada e imprevisível, mas uma atitude legal. E diante do real, nada acontece. Passa batido.
Voltando ao filme, acho que os romances franceses com voz off pós-Amelie Poulain sofrem o mal terrível da comparação. Sabemos que as comédias românticas desse estilo têm textos engraçadinhos, crônicas da vida com frases curtas, interessantes e sempre buscando uma forma diferente de descrever e completar o que os olhos vêem. Pois é, como Amelie. Entretanto, ainda que siga esse padrão e  que também tenha uma mocinha atípica, o filme vence isso numa boa. A estória: um homem de seus 40 anos (Jacques Gamblin), filho de mãe judia e pai francês, conhece a mocinha de vinte e poucos, Bahia Benmahmoud (e há referências sobre o Brasil por seu nome) filha de argelino com francesa hippie. Bahia (Sara Forestier) é politizada e radical e tem por objetivo converter ‘fascistas’ através do sexo. Só que o mocinho não tem nada a ver com isso e é aí que a brincadeira começa.
Uma questão de roteiro é que a partir de um ponto nos perguntamos onde está o problema que originará o clímax que tanto esperamos. Há indícios, mas nada parece forte o bastante. Tudo acontece rápido e muito bem e isso quase incomoda, mas a complexidade finalmente chega. A marca que o filme nos deixa está na construção dos personagens. O crescimento e a trajetória de cada um, com seus segredos a desvendar um para o outro, as diferenças entre cada um, a crescente intimidade, as descobertas. O filme sai do superficial e torna o próprio relacionamento idílico mais concreto.
A fotografia com o jogo de câmeras também fazem parte da trama. Parece até óbvio dizer isso de um filme, mas é que aqui há uma preocupação estética, um jogo, como repito. Como em 500 dias com ela, há um paralelo no uso de câmeras 16mm e 35mm, em que o filme 16mm normalmente acontece sem voz, apenas para imagens poéticas de tão bonitas, com uma granulação quase palpável que cria uma época de ‘memória’, mas não de passado. Remete às nossas próprias histórias quando apaixonados, em que colorimos as fotos de nossos grandes momentos com o olhar e guardamos no coração. Os detalhes, o sorriso, o cabelo, a pele, o cheiro. E mais: Sara Forestier não deve nada às atrizes populares no quesito beleza. Linda, de uma forma não tão óbvia, mas cativante, ainda tem um corpo que é muito bem explorado pelo diretor. Um pouco gratuito às vezes, mas com um ar provocativo que perde a vulgaridade com a atuação extremamente natural, à vontade com as cenas e com a câmera.
É um filme de brincadeiras agradáveis, que trabalha com temas sérios e um tanto caros aos franceses – o Holocausto e a colonização argelina, a mestiçagem, a política, as religiões, as culturas – com a leveza das comédias românticas que nos deixam tranqüilos após um dia de trabalho e com nossas próprias histórias para pensar.

Ah! Esse também é fruto do Festival do Rio, mas deve entrar em cartaz.
O trailer.
Título Original: Les Noms des Gens
Direção: Michel Leclerc
França, 2010. 104 min.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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