Luzes da Cidade

20:26

A memória que temos de Charles Chaplin é a daquele vagabundo inocente que faz estripulias em alguma cidade em preto e branco. Ou daquele operário enferrujado que aperta porcas e parafusos e, num surto, aperta também tudo que assim se pareça, ou ainda - é dos meus preferidos - o personagem do filme falado, O Grande Ditador, esse, magnânimo.. Sábado encontrei o vagabundo no Municipal e, como num passe de mágica, voltamos ao tempo dos grandes cinemas orquestrados.
O  Theatro Municipal do Rio de Janeiro – assim mesmo, com o charme do h – tem um calendário em que alguns dos mais importantes filmes do Cinema mudo são exibidos ao som de uma orquestra ao vivo. Essa apresentação imediatamente nos leva, como no último filme de Woody Allen, a outra época, no início do século passado. O Theatro, reformado e lindo estava lotado e consegui ficar no balcão nobre, logo acima da platéia, com uma boa companhia. E, por mais que conhecesse o filme, foi uma emoção de primeira vez.
Aqui temos a história de um vagabundo - nos termos de um desempregado e pobre  - que se apaixona por uma florista cega e faz de tudo para melhorar sua vida e curar sua doença. Um filme com uma história simples, sem muitos rodeios, como tem que ser.
É também daqueles filmes que te prendem em todos os momentos. Primeiro porque é surdo, já que os personagens falam bastante no filme e não ouvimos: uma cartela ou outra nos dá informações básicas para que possamos apreender tudo. A riqueza está no personagem, no Carlitos que tanto conhecemos e que preenche a tela com uma leveza daquelas pessoas únicas de grande coração. E o mais incrível, a orquestra ao vivo em total sincronia com o filme, acertando em todos os ruídos e ênfases. A música não só acompanha a trama, como é grande responsável pelas ondas de emoção que nos pegam de tempos em tempos nesta precisa duração. É aqui que rimos escandalosamente, gargalhamos livres num filme de piadinhas antigas, ingênuas e lindas.
E a platéia ria... ria e se deliciava, se reencontrando com um passado que nunca foi seu, com piadas de outros tempos mas com beleza e inocência, aquela pureza que provavelmente as guerras, a internet, as bombas e tudo mais de novidades estranhas foram ajudando a removê-la de nós aos poucos. A ingenuidade, o romantismo de uma época que não vivemos nos faz ver tudo com um ar de saudade do que não temos ou fomos – que seria um pouco o significado da melancolia, mas que passa longe daquela de está em cartaz nos cinemas, também com h. Aqui é um riso conjunto, compartilhado e confesso. E que começa tímido, um aqui, outro ali, o Municipal no escuro com umas luzes para a orquestra e em cinco minutos estamos todos juntos, rindo do menor esforço de nosso ator genial, como se fôssemos de uma mesma família reencontrando alguém que não vemos há muitos anos.
E o final, o que é o final? Não vou contar, vai que alguém não viu e merece a surpresa. O final nos toma de uma forma que o Theatro inteiro parou de respirar. Parou naquele segundo, naquele fechamento indefectível de uma história terna, quente e triste ao mesmo tempo. A última seqüência é um aperto no peito de ansiedade pelo último segundo, pelo desfecho perfeito dos filmes perfeitos de Charles Chaplin. As paredes do Municipal ficaram mais fortes e ricas nesta noite de sábado, com tantos aplausos, risos, lágrimas, carinhos e amor pelo Cinema, pelo espaço mágico em que estávamos, ambos eternos. E ainda mais aplausos para a Orquestra e para a última imagem da tela, a foto do gênio, do artista completo. Aí fomos todos alegria.
Obs.: acabei de checar aqui e terá uma última exibição no próximo dia 20/08. Vale muito a pena.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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