Jack goes Boating

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Em tempos atuais, é importante não perder o Vejo Você no Próximo Verão. Acabei de assistir. Estreou hoje causando impacto. E é claro que a versão original do título é mais interessante; Jack goes Boating.
Em tempos atuais, porque parece que vivemos um mundo de contrários. O filme trata do surgimento de um novo relacionamento romântico, da formação de um novo casal. Um casal de amigos resolve ‘armar’ o melhor amigo com a colega de trabalho da mulher. E é isso, nada mais. O filme é sobre essa conquista, que não parte apenas de um.
Neste mundo de contrários parece que o mais importante é a coleção. Não importa quem seja a pessoa, o objetivo é como o war: quanto mais territórios temos, vencemos o jogo. Ou destruímos o oponente. Na minha adolescência, quando somos apresentados aos nossos hormônios e aos dos outros e entramos no mundo das relações amorosas, eu achava sinceramente que era tudo meio simples, que quando se gostava, ficava-se junto e pronto, acabou. Felizes para sempre. Mas todo conto de fadas existe tanto quanto as fadas. Tem um processo de conquista, muitas vezes estranho e sem propósito, que acontece e este final feliz some feito fumaça.
Depois de tantas figurinhas trocadas entre amigos e amigas, fui convidada a ler um livro mulherzinha. He’s not that into you e eu quase com vergonha admito que estou me divertindo lendo e me vendo em muitas situações ridículas. Eu admito mesmo, fiz umas coisas já, mas entendendo que cada um é cada um e que os homens e as mulheres podem agir individual e originalmente. O livro diz exatamente o contrário e tenta provar isso por a + b. É um livro escrito por um homem e uma mulher americanos (por isso o dualismo é gritante e exagerado, eu sei), roteiristas de Sex and the City. Os escritores buscam comprovar com exemplos práticos o nível de interesse do homem num relacionamento heterossexual, de forma a alertar as mulheres – sim, estas que vivem buscando justificativas para ‘segurar’ ou ‘acreditar’ em situações quase surreais – para que não percam tempo na vida com quem não interessa.
E aí aparece esse filme, que, ao tempo que comprova no extremo o que o livro nos conta, mostra o exato oposto: há um paralelo entre um relacionamento estabelecido, mais complicado e este novo casal que está descobrindo como é conviver. E enquanto as diferenças entre os pares vão se tornando cada vez mais evidentes, a transformação dos personagens ganha força e o roteiro se sobressai surpreendentemente. Não é um filme de clichês, pelo contrário, é um filme sobre a vida, sobre um dia a dia de alguns amigos que não sabem muito bem - como grande parte de nós - o que podemos e não podemos nos permitir viver.
É um filme, soube nos créditos, baseado numa peça que o próprio Philip Seymour Hofman protagoniza (além de ter dirigido e produzido o filme) e por isso há poucas locações. Ao mesmo tempo, não percebemos isso de forma alguma. Os diálogos estão na medida, bem como seus silêncios fundamentais.
Outro dia assisti Quem tem medo de Virgínia Woolf, que me remeteu a outro, O Anjo Exterminador, de Buñuel. Toda essa leva de clássicos é para uma analogia simples: em um determinado momento dos três filmes, os personagens ficam confinados numa residência e por mais que a tensão seja insuportável, eles não saem dali. E a nossa tensão aumenta absurdamente, o incômodo torna-se coletivo e nossa vontade é entrar pela tela do cinema ou da TV e arrancá-los porta afora. O Anjo Exterminador pretende com isso outro objetivo – não vou discutir os temas de Buñuel aqui – mas Quem tem medo... também nos mostra relacionamentos complicados. E como eles se solidificaram em bases frágeis ou tetos de vidro. Nada disso suporta muito tempo.
Há uma carga emocional muito forte neste novo filme. Philip Seymour Hoffman – e nem preciso falar dele, de verdade – é o cara. Sem mais adjetivos. O protagonista é um personagem extremamente sensível, que conhece uma mulher incrível e sensibilizada. Nos primeiros 2 minutos, já nos apaixonamos por ele e pela paradoxal força desta mulher: aqui também ela é a atriz que carrega o filme, com poucos gestos, tímida e resistente.
As mulheres sempre ganham esses adjetivos: resistente, forte, batalhadora. Os homens têm ganhado outros: sensível, perdido, indefinido. Em resumo: nós carregamos o piano enquanto eles decidem quem são. Não tão drástico, mas o fato é que nem sempre queremos ser e ter essa força toda. Somos mocinhas. Queremos ser delicadas, bem tratadas, reconhecidas, paparicadas. E neste filme há uma força, literalmente, que faz com que isso aconteça. Simplesmente porque era necessário para os dois, precisava ser daquele jeito. E não era um sacrifício.
Esse é um filme sensível e honesto. É simples, perfeito em sua composição e nos prende como muitos outros filmes ‘pequenos’ americanos não por coincidência (lembrei de: Sunshine Cleaning, A lula e a baleia, Pequena Miss Sunshine, O casamento de Margot, Away we goque, no IMDB mostra em quase todos, os mesmos produtores). Só é difícil de encontrar – como nesta linda produção – uma realidade parecida. Mas é bom dormir com essa idéia, esse respiro de que se um filme assim foi possível, por que o resto não seria?

Título original: Jack goes boating
Diretor: Philip Seymour Hoffman
2011 - EUA - 91 min

HISTÓRIAS SEMELHANTES

2 comentários

  1. Viver não é preciso
    Nadar é preciso!

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  2. Marcela Berlandez27 julho, 2011

    Tatilda, amei o texto e me deu ainda mais vontade de assistir o filme.

    E menina, amo Quem matou Virginia Wolf! Tá no meu Top 10 da vida!

    Bjinhos e parabéns pelo post

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