Rabbit Hole

11:34

Se Tarkovski diz em certo sentido, o passado é muito mais real, ou de qualquer forma, mais estável, mais resistente que o presente, o qual desliza e se esvai como areia entre os dedos, adquirindo peso material somente através da recordação, é justamente deste peso e de como lidar com a recordação que trata Rabbit Hole ou ridiculamente em português Reencontrando a Felicidade.

Becca (Nicole Kidman) e Howie (Aaron Eckhart) formam um casal que perdeu há oito meses o filho de poucos anos num acidente. Eles, ao contrário de estar reencontrando a felicidade – como assim definiu o título em português alguém que não entendeu o filme – buscam apenas conseguir conviver com a realidade, com o presente, lidando com um passado ao mesmo tempo feliz e triste.

Enquanto o pai tenta se apegar às recordações tentando reviver momentos com o filho em filmes gravados no celular, reclama da ausência de fotos na casa e vai à terapia de grupo na esperança de se reerguer, a mãe prefere transformar o presente, arrumando a casa, guardando e doando o que não vai mais ter uso, como as roupas e brinquedos do filho. O interessante é perceber que o tratamento da perda aqui é individual. Apesar de todos viverem uma dor compartilhada, as manifestações são particulares e é esse o ponto forte do filme.

Rabbit Hole refere-se aos buracos de coelho, parte de uma teoria sobre universos paralelos em que através deles conseguimos atravessar deste para outros universos onde seria possível viver versões de nós. Daí  vem a própria construção do poster, onde vemos frações de uma mesma pessoa. A explicação quem nos dá é um adolescente que está criando uma história em quadrinhos com esse tema. Becca o encontra e começa a ler um livro sobre o assunto. Para ela, é interessante pensar que em algum lugar, ainda que em outro universo, ela está se divertindo. Sem falar que a expressão rabbit hole nos remete a outras obras que se valem desta teoria, onde os mais óbvios são Alice no País das Maravilhas, Matrix e um pouco mais distante, A Origem. A teoria dos universos paralelos sempre esteve nos filmes, enriquecendo e tornando mais complexas as tramas. Especialmente em filmes de ficção científica. Mas aqui, funciona como um caminho para se pensar alternativas. Não tanto em relação à dor, mas como uma forma de olhar diferente o que se está vivendo, tornar suportável.

Com toda a carga trágica do filme, este não é um melodrama. A postura dos atores, a forma como foram dirigidos deixa claro que o objetivo é muito mais a sinceridade do que a pungência.  Este resultado é fruto da construção dos personagens e a de Nicole Kidman merece atenção. Ela nos prende com o menor dos movimentos, acreditamos nela apenas com o olhar, com uma frase, num personagem complexo e fantástico. Ao mesmo tempo, vemos um Aaron Eckhart crescendo. Ele ainda não tem a presença de um protagonista, mas seu desenvolvimento é notável, especialmente quando nos lembramos dele como o Duas Caras de Batman e agora nesse drama quase real. Há ainda personagens secundários, alguns descartáveis e outros marcantes como o de Dianne Wiest, que faz a mãe de Becca, uma mulher que também sofreu perdas e ajuda a filha dentro do limite que lhe foi imposto.

As construções de contexto também se tornam elementos chave. A fotografia mantém uma aura de passado, especialmente na residência do casal. Tons monocromáticos em gradações distintas, de figurino e iluminação, a fotografia em si, com um filtro de textura quase palpável e enquadramentos nos olhares, focos nas expressões e momentos de silêncio são a chave. Filmes silenciosos devem ser difíceis de fazer. Construir a cena na expressão e nos enquadramentos exige não só preparo, mas refinamento dos atores e do diretor. Talvez aqui tenha sido menos difícil ao se tratar de uma adaptação de uma peça e, já tendo sido montada, ficou mais fácil perceber os momentos onde – e aí vai um clichê – menos é mais.

Não é um filme leve. É um filme que fala sobre perda de alguém fundamental. Ao mesmo tempo, é um filme real, possível. O que vemos na tela é muito parecido com o que vivemos em algum momento e isso é doído, mas, ao mesmo tempo, conseguimos ultrapassar os apertos e perceber que não é só disso que trata o filme, mas de amor e de relacionamentos. Numa sessão cheia, conseguimos ainda gargalhar e se solidarizar, em conjunto, com o que víamos na tela.

Trailer aqui.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

6 comentários

  1. Só uma coisa... quero assistir! =) Ahn! Outra coisa... gostei na nova cara do blog, ficou otimo! Pq será que eu ainda nao tinha visto? =*

    ResponderExcluir
  2. Ai, Tatiana! Esse texto foi um presente. Uma delícia de ler!!! Um capuccino de letrinhas. Amei. Vou ver o filme por sua causa.

    ResponderExcluir
  3. Tatiana, obrigada pelo link. assisti ao filme justamente no começo da semana e teu comentário me parece brilhante!
    Silvana

    ResponderExcluir
  4. teu blog tá lindo, tary :) bjo!

    ResponderExcluir
  5. Tati! Você acabou de me convencer a ver este filme. Pois é, quando vi que ele tinha entrado em cartaz a umas duas semanas atrás pensei: "Ummm... Nicole Kidman de botox num filme melodramático... Isso presta?". Pois é, pelo visto presta! E pelo visto o problema do botox foi atenuado...

    Tenho que admitir que tenho uma certa resistência com filmes 'para chorar'. Quando vejo que o filme trata de mortes ou doenças terminais geralmente eu excluo da minha lista e 'Assistir'. Mas isso acontece porque geralmente os filmes são muito melodramáticos e parecem ter o único objetivo fazer a gente chorar e não analisar como os personagens estão lidando com uma situação difícil.

    Mudando totalmente de assunto, essa teoria dos universos paralelos ainda vai me deixar louca (em Lost eles chamavam de Buracos das minhocas)!!! Acho que anos de ficção científica e HQ acabaram fazendo com que eu pensasse demais sobre a temática e não chegasse a conclusão nenhuma... Pior que universo paralelo só viagem no tempo! Afe...

    Pra completar, o único papel de Aaron Eckhart que eu lembro de ter gostado foi o de Obrigada por Fumar e acho que isso é muito mais por causa do roteiro do que por causa da atuação dele. Concordo, ele ainda tem um caminho a trilhara até chegar no melhor de sua atuação.

    Bem querida, estou falando demais hoje, não é? Fui!!! Beijoquitas!

    ResponderExcluir
  6. Leu,

    Assiste então Donnie Darko. Lá também tem viagem no tempo e os buracos de minhoca. Esse filme é incrível e sapeca. O final é intrigante e ainda tem maggie e jake gyllenhaal, patrick swayze e jena malone (a mocinha de na natureza selvagem). Veja e falamos sobre ele! :)

    ResponderExcluir

Contato | Parceria

Nome

E-mail *

Mensagem *