O Filme que fiz para não Esquecer

23:03

Em 2008 participei de uma oficina de Cinema de Arquivo que fazia parte do Recine – Festival Internacional de Cinema de Arquivo. Neste projeto nasceu No tempo de meu avô, que rendeu a nós dois o prêmio de melhor roteiro. Acho que ele não chega nem a três minutos.

A duração de um filme não diz muito sobre ele. Bom é aquele que perdura em nossa mente e nos faz revivê-lo, reconstruí-lo, criar uma seqüência para uma história que acabou ali, assim que os créditos passaram e as luzes foram acesas. Ontem, antes do filme dinamarquês, vi uma sessão de curta-metragens brasileiros da mostra competitiva. Entre eles estava O Filme que fiz para não Esquecer.

Terminado há pouco tempo, esse foi até agora o mais bonito e sensível que vi no Festival. Durante a mesma sessão encontrei com Coutinho Reporter, um filme que não recordo o nome sobre um poeta – um pouco repetitivo – e São Silvestre. Dos quatro três são bem bacanas, mas devo meu coração ao filme deste baiano radicado em São Paulo. São Silvestre é um filme muito bonito sobre a corrida anual em São Paulo, quando a Avenida Paulista recebe corredores do mundo inteiro para lhe cruzar o caminho. É um filme em que o coração aperta, dá vontade de ser corredor para fazer parte daquele grupo de pessoas que lutam o ano inteiro para estar ali, driblando os problemas e mantendo a disciplina. São 15km, não é brincadeira. O diretor foi fundo e conseguiu fazer um filme coração.

Para Coutinho teremos um capítulo à parte, é muita história para um parágrafo só. E voltamos ao filme de Renato. Conheci Renato Gaiarsa nos corredores da minha faculdade de cinema, o reencontrei numa videolocadora no século passado e hoje nossos caminhos se cruzam assim, em festivais. Estivemos juntos em Gramado e agora, de surpresa e sem contato, abro o catálogo do festival e lá está ele, com um filme surpreendente.

Renato tinha uma namorada e durante uma viagem ao Uruguai descobrem que o presente muito em breve se tornará passado. O filme é sobre o fim do relacionamento, quando não havia mais como, porque, quando continuar. E de uma forma suave, com a voz da moça baixinha como uma gravação perdida no tempo e a direção do rapaz, o que era amor se transforma em saudade, um sentimento comum, conhecido de todos, ainda sentido por muitos.

A construção do filme sugere um fluxo de imagens ligada pelo verbo e por nossa protagonista. Sofia passeia, atravessa os caminhos do diretor como as mocinhas dos filmes de Wong Kar-Wai. Deste, lembrei diretamente de Amor à Flor da Pele, por mais díspare que soe assim, cru. Em Amor à Flor da Pele, percebemos a densidade da fotografia, quase podemos tocá-la com os dedos e atravessar a tela, indo de encontro a outro casal repleto de expectativas e anseios. Aqui, a câmera íntima, participativa, sendo convocada a todo instante para um encontro que, por fim, é o último, traz a mesma percepção. E a voz doce da heroína nos mostra a saudade, o fim, um espaço compartilhado em outra cidade que agora estará vazio. Como se separar? Como se afastar dos objetos, fotos, lembranças? Como mandar embora as histórias?

Este filme traz um fim tão doce e sincero que, mesmo sabendo que não deu certo como o filme conta, dá muita vontade de dizer: voltem! Por que terminar...? Como se fizessem parte de nossa história. E na mesma sessão, o filme se tornou mais poético do que aquele sobre um poeta. Com apenas três minutos e meio.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

8 comentários

  1. Sai correndo pra entender o que aconteceu com Sofia. Você conversou com o Diretor depois?

    O curta da São Silvestre é deixar um sorriso estalado no rosto do começo ao fim!

    Já Coutinho, é Coutinho!

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  2. O final não seria outro filme? Acho que o que importa mesmo é nossa vontade de continuar assistindo e pensar em nossa própria seqüência...
    Troquei umas mensagens com ele, também fiquei bastante curiosa!

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  3. mas ele respondeu o que aconteceu com Sofia?

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  4. Acho que eles voltaram... :)

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  5. Alguém sabe onde posso encontrar esse filme para assistir?

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  6. Oi Thais,

    Me passa seu e-mail/facebook que encaminho pro diretor. Bju!

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  7. Thais!
    Recebido. Mandei um mail pra ele com seu contato. Vamos aguardar.
    beijo!

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  8. Muito obrigada!!

    Beijo!

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