Janela para ouvir

15:18

Outro dia, saindo mais cedo do trabalho, entrei no ônibus do metrô. Algumas paradas depois e eu sentada na penúltima fileira, seguia distraída lendo um livro sobre o universo dos surdos, quando o senhor que estava do meu lado se levanta bruscamente e cede lugar a outro senhor, cego. O toco com a mão e ofereço o braço para que se apóie enquanto senta.
Este senhor é um pai de uma família de cegos: mulher e dois filhos. Não me lembro se ele me contou como conheceu sua mulher e nem como chegamos a esse ponto da conversa, recordo que ele frisou que a família era como ele. Acho que tudo começou com um ‘que horas são’.
Em uma cena de Amélie Poulain, quando ela decide se tornar a heroína de sua própria história e livrar o mundo de forma divertida dos injustos, ajuda um senhor cego a atravessar a rua e vai lhe narrando tudo o que acontece à sua volta. De forma rápida, imagino eu, as imagens iam se construindo no pensamento daquele homem, dando um ar de novo aos sons que ele ouvia por hábito. Com o meu vizinho de ônibus tive que abandonar a história de quem não ouve para aprender a de quem não vê.
Eu só havia conhecido um cego em toda a minha vida. Era um massagista, colega de trabalho de minha mãe, fisioterapeuta. Eles trabalhavam anos juntos quando eu era adolescente e sempre que eu ia à clínica de meus pais ele estava ocupado. Tinha lista de espera.
O cego que conheci também é massagista. Também tem fila de espera. Imagino que a privação de um dos sentidos intensifica os demais; principalmente a audição e o tato, que agora são estes de que depende mais primordialmente para viver. Percebi que ele tem consciência do que o cerca, falou de brincadeira sobre o ponto final do ônibus do metrô, que insistentemente os motoristas sempre param de forma que a porta de saída fique de frente para uma árvore. Ele dizia que era de propósito, para testar sua atenção.
Uma parte de mim se sentiu como uma criança ao ver alguém diferente pela primeira vez. Mesmo tendo conhecido o amigo de minha mãe, nunca estive tão perto fisicamente com alguém que me parecia tão à vontade. Ele não se portava como uma vítima, pelo contrário, me contou numa conversa tranqüila e gostosa como vivia numa casa com um terreno grande, que plantava e cuidava do quintal junto com a mulher, e minhas perguntas insistentes eu guardei pra mim. Minha vontade era de descobrir como ele imagina, como cria imagens, se compreende o conceito de cor. Ele frisou, quando soube que eu trabalhava numa TV, que ouvia muito rádio; claro, pensei, muito mais eficaz do que a televisão.
Não consegui perguntar quase nada, tive vergonha. Não sei como são as reações das pessoas e não queria que minha curiosidade se transformasse num abuso, numa invasão, num desconforto. Tinha perguntas de criança, perguntas simples, diretas e sem ternura, de quem quer saber como o mundo funciona com restrições. Talvez também por isso esteja lendo sobre os surdos. Entender a forma do pensamento sem termos todos os veículos que permitem a compreensão é um desafio e é algo que me motiva profundamente.
Então, enquanto ele falava no trânsito – que dessa vez pedi mil engarrafamentos para que demorasse um pouquinho mais – eu olhava pra fora, através da janela fechada aquele mundo todo de paisagens banais que vemos todos os dias quase do mesmo jeito e não imaginamos como elas são importantes.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

1 comentários

  1. Oi prima.

    Uma vez, adolescente, fiz uma ezperiência - tomei banho vendado. sem enzergar nada.
    Olha, foi estanho.
    O silples ato de pegar o sabonete e colocar de volta no lugar foi um desafio.
    A sensação de privaçao de um sentido foi muito desconfortável.
    Mas vc fica mais aberto a percepções auditivas, olfativas e táteis, que são ignoradas no nosso dia a dia.
    Percebi isso mesmo no curto período de tempo do meu "experimento".

    Tem um filme legal que fala de um cego, massagista, que se relaciona com uma mulher e tem a oportunidade de fazer uma cirurgia para voltar a enxergar (com u ator que não lembro o nome agora e mira sorvino).
    No final ele acaba voltando a ficar cego, fica com ela, mas feliz.

    Abs,

    Luciano.

    PS
    hoje to com algum tempo livre no consultório pois faltaram vários pacientes.
    Mas isso é raro.

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