Incêndios

12:59

Os primeiros cinco minutos de um filme costumam ser os mais importantes. São eles que prendem o espectador no cinema, selando o pacto da ilusão e, ainda que não garantam sua estadia até o fim da história, conseguem intrigar quem a assiste. Assim faz o diretor Denis Villeneuve em Incêndios.
Ao contrário do que costumo escrever aqui, a história não é simples. A primeira seqüência nos deixa em alerta: uma música pesada, forte e alta do Radiohead acontece enquanto vemos longos planos – agora não me recordo se é um plano-seqüência ou tem alguns cortes, mas a cena é lenta – de um garoto tendo sua cabeça raspada numa espécie de reformatório. A criança olha para a câmera e percebemos que, no mínimo, tem alguma coisa errada com ela. Mas não, esse não é um típico filme de terror.
A secretária de um tabelião morre e deixa de herança para o casal de filhos gêmeos duas cartas. O tabelião é responsável por ler o testamento da mãe, que inaugura uma aventura no melhor estilo Joseph Campbell: a menina vai à busca do pai que acreditava estar morto enquanto seu irmão deve encontrar um terceiro filho de sua mãe, que eles desconheciam a existência. O objetivo de cada jornada é entregar uma carta e assim ela descansará em paz, com um enterro digno e terá cumprido suas promessas.
Logo de cara percebemos que os gêmeos Simon e Jeanne Marwan não tinham uma relação muito feliz com a mãe, Narwan. Simon admite que agora terá paz e não procurará ninguém; quer enterrar a mãe da forma correta, enquanto Jeanne, professora assistente de matemática pura numa universidade, para resolver esta equação complexa e querendo satisfazer este último desejo, investe na busca por seu pai. Assim, encontra o passaporte da mãe, uma foto com dizeres árabes numa parede e um crucifixo. Embarca para o Líbano.
Aqui quase nada sabemos. Em algum momento durante o filme há a referência ao Líbano, mas é muito sutil, dando a impressão de que para o diretor não importava identificar um país no Oriente Médio já que os conflitos ali são disseminados. Essa situação embaralhada me deu agonia e senti falta de um embasamento mais forte do que a escola me ensinou sobre Oriente Médio, religiões e conflitos. Não entendia, por exemplo porque Narwan sendo católica em alguns momentos tinha que esconder seu crucifixo, mas em outro, exibí-lo foi suficiente para salvá-la. Não compreendia a frente de luta católica num país mulçumano que, pelo que vemos na TV, tem embates rotineiros com os judeus. Resolvi acabar com a ignorância e parti pra outra aventura, após o filme: o livro de Ali Kamel – Sobre o Islã – e não só não consigo largá-lo um minuto, como descobri uma parte imensa da história que eu desconhecia. 
Investigando também na internet, consegui entender as referências que corroboram ser o Líbano, pano de fundo do filme. Quando Jeanne visita o país em busca do passado da mãe, lhe dizem que para conhecer a região, há que visitar o sul. Foi justamente lá que eclodiu a guerra nos anos 80 onde mulçumanos, judeus e cristãos se envolveram em conflitos sangrentos que deixaram de saldo vítimas nas três religiões. É aqui que justifica como a religião poderia proteger e boicotar as defesas de nossa protagonista.
Incêndios é título e referência óbvia para o que se passa no filme. Durante os flashbacks que contam a história, vemos massacres dos conflitos em cenários destruídos por uma guerra que não acabou. Essa idéia chega ao presente com as ruínas que Jeanne visita; ela busca redescobrir a mãe a partir do encontro de um pai que nunca soube ter.  Em um determinado ponto do filme, depois de ver os desdobramentos de Narwan numa tragédia clássica, fiquei me perguntando se aquela cronologia era possível; se era possível  viver tanto, tanto sofrimento, em uma vida só. Destrinchando: uma mulher grávida vê o namorado ser assassinado por seu irmão, tem o filho, é obrigada a abandoná-lo, se muda para a capital. Quando a guerra explode, foge da família e vai a busca do filho, se envolve na luta para assassinar um opositor importante do governo, é presa por 15 anos, torturada, estuprada e consegue, de alguma forma, parar no Canadá.
Os gêmeos, que nada sabiam deste passado e vão descobrindo com a mesma distância que o espectador – por isso o melodrama não acontece – percebem que a mãe fria que eles conheciam era só uma fração da mulher que ela foi; um resquício de passado resumido numa vida pacata no Canadá. Simon, a pedido da irmã a encontra e passa a fazer parte da história, vendo também ele, como e o que tornou sua mãe a que ele conheceu. A relação destes irmãos agora perdidos, numa jornada que os confunde no coração onde também fica difícil se reconhecer, é um pouco a sensação que o espectador tem até o clímax, quando as soluções são encontradas e o final se torna mais impactante do que os incêndios na tela.
O filme segue cheio de detalhes que enriquecem a trama. É longo e isso também é notado a cada desdobramento. Ficamos nos perguntando, ali sentados o quanto conseguimos agüentar assistir, com tanta tensão; funciona como aqueles jogos de estratégia em que, vencendo uma etapa outro desafio mais complicado se abre para nós. Ainda na referência da matemática: o professor titular com quem trabalha Jeanne dá a dica, dizendo que não adianta; vocês vão se cansar, ficar frustrados, sozinhos e a equação vai trazer uma resposta ainda mais complexa. No caso deste filme, outro nó para os personagens, uma nova tragédia na tela.
Bresson diz em uma de suas Notas*: sua imaginação vai mirar menos os eventos que os sentimentos querendo esses últimos os mais documentais possíveis. Essa relação de importância com o sentimento é o que move o filme; a transformação dos personagens; o crescimento do irmão oculto, os gêmeos frente à descobertas, o final. O foco nunca esteve nos eventos por trás da história, nos incêndios literais, mas naqueles que ocorriam internamente em cada envolvido. Talvez por isso não conquistou o Oscar de filme estrangeiro, por não ser um filme de vencedores e vencidos; dentro um contexto real em que os EUA estão presentes e sequer aparecem de relance na tela dentro de uma história que poderia ser explicitamente política e buscou o foco numa dinâmica familiar.  
Há tanto para se dizer deste filme, que terminar por aqui incomoda. Ao mesmo tempo, seria preciso falar do contexto e não da trama, dos atores incríveis, do personagem ambíguo do tabelião – Remy, de Invasões Bárbaras – do terceiro filho e de como sua história cresce; da trilha sonora que pontua momentos com músicas atuais e que colaboram para o desenvolvimento do filme no presente; de como a montagem segue lenta, mas nunca entediante; fazendo com que nós descubramos a história a partir dos relatos dados aos gêmeos – e enriquecidos com as cenas em paralelo da mãe naquele presente já antigo.
Encontrar uma realidade como Ali Kamel cita, parecida com a que vivem as pessoas nas favelas controladas pelo tráfico, só que no Líbano com o Hezbollah, o morador não concorda com os traficantes, odeia o que eles fazem, mas se submete, com medo de ser morto. Por fim, fica a curiosidade de saber o que quase passou despercebido; como foi sua ida ao Canadá? Como vive a comunidade mulçumana lá e como funciona essa rede de comunicação e esses poderes extraterritoriais e além-governo? Talvez esta resposta esteja no olhar enigmático do tabelião, que guarda o mistério e espera que ele se descortine, ao invés de nos mostrá-lo de graça, o que transformaria essa história num conto previsível.

*BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. Ed. Iluminuras, São Paulo. 2005.

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