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Café: extra-forte


Comemorei meus quinze anos com festa de debutante. Meio sem querer mesmo, já que quem queria era minha mãe, para realizar um antigo e em sua época impossível desejo. Foi divertido diante das circunstâncias e meus amigos daquela época ainda o são hoje. Não me lembro agora se estava apaixonada por alguém... era adolescente e talvez mais lerda do que a maioria para essas coisas do coração.

Me apaixonei e desapaixonei por alguns garotos e de todos ficaram hoje boas lembranças. A vida adolescente é intensa e, como meus pais me diziam, eu ainda ia sentir falta disso. Nunca senti tanto como hoje. Tive um dia infernal no trabalho, milhões de problemas para resolver e que me tomaram muito tempo e desgaste diante de alguma incompetência alheia. Mas todo trabalho é assim. E uma manhã cheia de atribulações domésticas que escolhi pra mim com todo o orgulho da independência de quem justamente quer sair da fase 'casa dos pais'. Mas aconteceu agora de noite um filme que me deixou com vontade de apertar rewind e sentir tudo de novo.

15 anos e meio é um filme francês que está nos cinemas. Conta a história do retorno de um pai à vida da filha depois de quinze anos, agora ela nessa idade. Como eles não conviveram juntos, os conflitos óbvios surgem e essa comédia ‘romântica’ vai nos guiando por alguns estranhos caminhos, mas cheia de boas intenções. O pai é um profissional reconhecido, mestre em seu trabalho, mas se vê como amador quando se relaciona com a filha. Ela, geniosa, mas doce e complexa, vive as situações e ainda lida com esse pai que não se adapta às suas condições. Os dois atores funcionam muito bem juntos – não precisamos nem adjetivar Daniel Auteuil, que faz qualquer personagem muito bem e Juliette Lamboley, que conheci agora – e acho que suprimiria algumas fantasias do filme, quase de comédia pastelão, mas que não foram grande sofrimento assistir. Os coadjuvantes dão uma graça a mais ao filme, especialmente os adolescentes, que são mais coerentes do que os extremos apontados nos adultos. A intenção parece ser a de mostrar que a diferença entre as idades é muito menor do que aparenta e que o que importa é muito mais a troca de experiências do que uma situação de pai que manda e ensina e filha que obedece e aprende. Acaba sendo um filme mais para meninas, mas cabe para quase qualquer público. É leve, engraçada, com situações possíveis e que nos levam para viagens incríveis no tempo. Uma boa para domingos chuvosos.

Como toda história bem contada, essa se torna universal. É a vida adolescente x vida adulta, é a noção de família, são as descobertas das meninas e os choques dos pais, o eterno problema das gerações. E esse descompromisso adolescente, essa vida de si para si e seus amigos, essa falta de responsabilidades e obrigações e o coração batendo forte pela paixão são marcantes no filme e na vida real. Para quem está iniciando a jornada nas águas misteriosas da fase adulta, acho que só cabem as férias para rever um pouco disso. E em um mês temos que resolver todos os nossos sonhos e fingir que não temos grandes responsabilidades. No fundo, sabemos que é impossível e por isso o coração aperta quando lembramos com muita saudade de nossos tempos de escola, quando o que mais queríamos era crescer. Por isso é que filmes assim são tão fundamentais. Agora, me resta o reencontro com os amigos – coisas que só a ‘idade’ traz – e, quem sabe, reviver as histórias nas conversas de bar e cafezinho.



Título Original: 15 ans et demi
Ano: 2008, França.
Dir.: François Desagnat e Thomas Sorriaux.
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Assim, a Anne boa nunca é vista acompanhada. Ela nunca aparece, ainda que quase sempre assuma o palco quando estou sozinha. Sei exatamente como gostaria de ser, como sou... por dentro. Mas infelizmente só sou assim comigo mesma. E talvez seja por isso – não, tenho certeza de que este é o motivo – que penso em mim como uma pessoa feliz por dentro, e os outros pensam que sou feliz por fora. Sou guiada pela Anne pura, de dentro, mas por fora sou apenas uma cabrita fazendo cabriolas, forçando a corda à qual está amarrada.

Como já disse, o que falo não é o que sinto, e por isso tenho reputação de assanhada e namoradeira, de sabichona e leitora de romances de amor. A Anne jovial gargalha, dá uma resposta ferina, encolhe os ombros e finge que nem liga. A Anne quieta reage do modo oposto. Se estou sendo completamente honesta, tenho que admitir que isso me importa, que tento arduamente mudar, mas me vejo sempre diante de um inimigo mais poderoso.


Anne Frank me acompanhou esses dias. De início, imaginava que sua história era outra, que de alguma forma, ela havia estado em um campo de concentração e de lá narrasse suas memórias. Claro que isso se mostrou uma ilusão até infantil, já que deveria ser proibido escrever qualquer coisa ali – até porque viver era proibido... a questão é que eu não imaginava com que força esse diário de uma adolescente durante a guerra ia me impactar.

Quando lemos diários, participamos da vida das pessoas, do que há mais íntimo e particular nelas. Porque, na época dos diários, era de fato tudo secreto, íntimo. Hoje os diários quase não existem, deram lugar ao movimento oposto – blogs, twitters, Orkut, facebook, myspace... – onde o secreto se torna popular e a intimidade deixa de existir, como se todos tivéssemos interesse nas vidas alheias, quando elas se tornam cada vez mais banais e desinteressantes; mostrando muito mais vazio do que algo válido de conhecer.

O diário de Anne é uma extensa correspondência para uma suposta amiga. Dali extraímos o dia a dia de pouco mais de oito pessoas que se forçaram a viver juntas por serem judeus em Amsterdam na Segunda Guerra. Esse livro deveria ser lido na adolescência. Porque, além de falar da óbvia guerra, fala muito mais da fase, do momento, da criação de Anne. Fala de ser menina virando mulher em outros tempos, mas escritos de uma forma universal e atemporal, a exemplo dos trechos lá de cima. Ás vezes, até pensamos quando lemos, ‘mas não muda muito, é só a rotina’. Mas é justamente nessa rotina que vemos as transformações, como o confinamento a que se submeteram na esperança de sair dali sufocava as pessoas, antes amigas, agradáveis e educadas.

Anne Frank humaniza a guerra; a tira dos livros didáticos, dos dados, das execuções. A narrativa pessoal de um período tão visado até hoje na mídia altera nosso olhar e saímos do clichê. Parece que estamos vendo um longo filme, tentando não sofrer, pois já sabemos o final.

Quando terminei o diário e ia seguir para o posfácio, dei de cara com uma frase que me chocou:


O DIÁRIO DE ANNE TERMINA AQUI.


E temos a continuação da tragédia coletiva onde, literalmente, só sobrou o pai para contar a história. Mas a frase, ali, centralizada após os últimos parágrafos – para mim os mais bonitos – e sem despedidas, afundou meu coração e me deixou perdida. Não acreditei quando virei a última página, não queria que isso acontecesse, não queria sair do meio da história. E logo quando Anne estava se compreendendo, quando eu estava me compreendendo... quando a identificação finalmente entrou com tudo no meu peito e na minha cabeça e eu entendi finalmente porque não conseguia deixar o livro em casa e tinha que lê-lo a caminho do trabalho. Acabou. E o sentimento de incapacidade, inutilidade... contrasta com a possibilidade de ler algo assim. Uma confusão se instaurou em mim e ainda não consegui diluir o final.
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Eu poderia dizer que hoje existem dois tipos de garotas da minha idade: as que já iniciaram sua família e estão ou querem estar o quanto antes, grávidas; e aquelas que estão solteiras, vivendo a vida de outra forma. Claro que entre uma coisa e outra existem gradações que diversificam e relativizam tudo, mas vamos manter assim pra facilitar. Burt e Verona são esse casal, um pouco mais velhos que eu e que estão grávidos, mas cuja vida se parece muito mais com a minha do que com essa referência organizada dos jovens casados. Até porque eles não são casados, apenas vivem juntos. Em seu sexto mês de gravidez, decidem partir para descobrir onde e como querem viver e finalmente fazer surgir a família que eles esperam.

Do outro lado, tenho esse casal de amigos que estão grávidos e super organizados. Eles são minha referência mais próxima de jovens pais, ainda que estejamos em regiões distintas do país. E quanto mais perguntas eu faço a ela para saber como é estar grávida, o que se sente, o que muda, ela me dá as respostas evasivas de uma grande transformação: nulas. Porque, quando se está em processo pouco se sabe dele se há muita distração, e às vezes as transformações são muito mais íntimas e sutis do que algo que seja fácil de notar, como uma cor nova nos cabelos.

Burt e Verona estão neste filme de Sam Mendes, Away we go, que vi ontem aqui em casa. Nesta viagem, buscam suas referências de amigos e familiares em algumas cidades dos EUA e Canadá. Assim, encontram tipos de família tão díspares como podem ser na vida real e, mais do que perdidos, compreendem que estão no caminho certo, ainda que não saibam bem qual seja. O que esse filme tem de incrível é a possibilidade que ele cria. As situações são tão comuns que dá pra se enxergar nelas. Por serem mais velhos que eu, já imagino que minha gravidez não seguirá como a de minha amiga, mas muito mais próxima da ‘realidade’ deste filme. Estarei grávida pelos trinta, não sei se numa situação de conforto e estabilidade (ainda mais tendo em conta minha situação financeira atual...) e levaremos isso como der.

E o formato do filme nos prende nessa jornada; filmes de viagens tendem a nos levar pelos caminhos de belas paisagens, mas neste vamos além, estamos por eles, por nos vermos em parte como eles são e até por concordarmos que existem aqueles tipos que acompanhamos; nas histórias tristes, nas famílias desestruturadas, nos desequilíbrios de pais despreparados, naquelas pessoas que nunca deveriam ser pais, nos pais alternativos e naqueles fantásticos que queremos nos espelhar.

Essa seleção de situações que espelham as famílias americanas é mais uma que Sam Mendes nos traz. O diretor fez além desse, Beleza Americana, Revolutionary Road e Soldado Anônimo , além de Estrada para Perdição. Talvez dê para perceber mais fortemente nos três primeiros a particularidade das visões que ele tem sobre seu país, que já o identificam num cinema de autor. No caso de Away, é estranho, mas ele não chegou aqui aos cinemas, foi direto para as locadoras, mesmo tendo público garantido. Não é um filme impactante como Beleza Americana ou Estrada para Perdição, mas tem seu impacto e é sensível como poucos. As atuações são mais uma vez impecáveis; o casal é muito bem construído e o mais engraçado é ver a inocência inteligente no olhar do pai – John Krasinski - e, com isso, a preocupação da mãe - Maya Rudolph - em não saber como será esse futuro, na certeza de que eles se amam e de que não querem ser como os outros. Ainda Maggie Gyllenhaal como a mãe ‘alternativa’ e o casal incrível interpretado por Melanie Lynskey e Chris Messina.

Não suficiente, Jeff Daniels – que já é um expert em filmes sobre o comportamento da sociedade americana – a trilha sonora incrível e a fotografia de Ellen Kuras, que já fez tanta coisa que me surpreendi de não ter notado seu nome antes, quando vi a filmografia no imdb. Incrível. É um filme sincero e simples, dando os melhores significados para esses dois adjetivos. Não há mais o que falar, só que precisamos sempre ver filmes assim e esperar que sejam feitos mais e melhores, se isso for possível.


Título original: Away we go
Diretor: Sam Mendes
2009, EUA.
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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