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Café: extra-forte

Até hoje não entendi bem como a Globo exibiu Dourado do BBB 10 falar que apenas homossexuais pegam HIV. Até agora não entendi como a emissora não se pronunciou com uma campanha educativa e preventiva, como não aproveitou e cortou no ar mesmo a loucura que foi essa afirmação, mas se postou covardemente de forma passiva e neutra, responsabilizando apenas o personagem de seu programa por suas falas e atos.

Ora, sabemos o que é essa emissora, sabemos o poder que tem e o público deste programa, sempre imenso. E hoje, saiu uma notícia nos jornais, informando que no BBB a justiça obrigou a emissora a se pronunciar agora de forma direta sobre a doença. Eu até entendo a lerdeza da justiça, o que é difícil de entender é a displicência geral.

Essa seria uma oportunidade perfeita para uma campanha, para um movimento, para qualquer coisa. E o que reinou foi a apatia nacional. Nem ouvi pessoas comentando isso! Precisou eu lembrar a meus amigos e colegas de trabalho o caso, e discutir partindo da lembrança de apenas um e não de um incômodo geral.

Estranho isso. E olha que coisa: exatamente quando eu estava pensando nas próximas linhas para este texto quase sem fim, o BBB exibe uma cartela com uma locutora e texto, indicando as formas de contágio do HIV. Tudo bem, ajuda. Mas poderia ser melhor.

A culpa não é do personagem. Ele pode ser ignorante. Muita gente é. Nem todo mundo foi educado para muitas coisas. Pouca gente foi. Acho que não apenas a frase infeliz e, quem sabe, em alguma instância ingênua e carregada de preconceitos, mas o resultado dela, tanto da emissora quanto dos que a assistem. Esse é o reflexo deste país. É por situações como essas que adolescentes engravidam, que muita gente efetivamente contrai o HIV, que meninas morrem fazendo abortos ilegais e lipoaspirações clandestinas. E com um motivo tão óbvio, não se fez nada.

É como eu ia dizendo ao fim... muito estranho isso. E nem precisei falar da ausência do governo nesse momento. Porque uma governança séria, falaria sério sobre isso. Aproveitaria uma deixa óbvia e fácil. E a partir daí, se transformaria alguma coisa em alguém... em alguém que vê televisão, em alguém que só tem isso pra ver... em alguém onde não há como buscar educação... e tudo o que bastou aparentemente foi uma cartela de 10 segundos na tela. Lugar bom pra se viver.
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Como tudo na vida, no início ninguém reclama muito, o que vale é a experiência, tudo é diferente. Por mais que eu já tivesse usado ônibus algumas vezes em Salvador, a experiência cotidiana tem outros... sabores.

No buzu, o convívio social é mais democrático. Pessoas com algum dinheiro, pessoas sem dinheiro, pessoas sem nem a sombra do dinheiro volta e meia se encontram, com suas particularidades. Uma vez, um pirralho adolescente resolveu que queria fumar dentro do veículo. Já mais vazio, eu, um homem alto e fortão um pouco mais à frente, uma senhora também. O pentelho sequinho fantasiado de rebelde senta justamente atrás de quem? Pois é, e me acende um cigarro. Não deu outra: o fortão se levantou em todos os seus vários quilos e músculos de trabalhador braçal, grudou ao lado do pirralho e disse: você vai apagar agora ou prefere que eu faça isso? Me apaixonei.

E quando o ônibus parou pela primeira vez numa lanchonete no meio da minha volta pra casa? Passageiros dentro, normalmente à noite. Eles param em uma lanchonete específica de Copacabana, pegam o lanche e sobem novamente. Quando vi isso, não sabia bem o que pensar, se: “pô, ele deve estar com fome mesmo, pra parar nessa agonia aqui” ou “ok... ele é o DONO do ônibus e pouco liga pras outras pessoas... os CLIENTES que estão aguardando a refeição do motorista e cobrador”. A meu ver, os motoristas e cobradores têm momentos de parar seus carros para justamente irem ao banheiro e comer. E eles nem avisam... simplesmente param e se você tem um compromisso, se está com fome também, se simplesmente está cansado e precisa ir pra casa, problema seu.

Mas nem sempre as coisas são bizarras. Existem muitos motoristas bacanas e gentis, educados, generosos. Na chuva, principalmente. Facilitam nossa vida, tentam parar onde pedimos, até se oferecem para nos ajudar. No fim das contas, pegar ônibus é uma arte. Não pode simplesmente esperar e algumas vezes terá que sair correndo no meio da rua, de salto, com saia balançando ao vento. Relaxe: todo mundo já fez isso um dia. E ônibus para mais pra mulher bonita mesmo, não tem jeito. Mas também... não custa nada sorrir e agradecer.

O maior problema do buzu é a higiene. Esqueça detalhes como ônibus apostando corrida, fechando carros, freando bruscamente, você caindo por cima das pessoas. O negócio é que esse contato democrático não respeita a higiene. A igualdade é para todos, mas a limpeza pra poucos. E nem é por grana, é porcaria mesmo, educação. Minha sorte é que não costumo pegar ônibus muito cheios, então não rola aquele constrangimento e guerra da apalpação masculina. Mas o calor carioca do verão tira nossas forças. Caí na besteira de economizar e tentar a sorte dos raros com ar condicionado que me servem. Quando não achava, pensava, mas esse aí também vai pra lá e entrava. Eu chegava no trabalho cansada, destruída. Não digo nem suada, porque com 40 graus poucas pessoas não estavam assim. Mas é cruel, porque realmente tem gente que não gosta de banho, então você pensa né, lavar a mão, impossível.

E o barulho? Tem gente que, não suficiente com o sacolejar dos ônibus-sardinha com seus metais batendo, ainda liga algo no celular e acha que toda a comunidade tem que ouvir junto. A pessoa que inventou o mp3 no celular nunca pegou ônibus. Nem todo mundo tem fone ou cérebro, afinal de contas. E a música NUNCA é boa. Mas, com todas as agonias e diversões de um passeio de ônibus, não é tão ruim. É questão de hábito mesmo, tranqüilidade e cálculo. E a forma mais sincera e visceral de conhecer uma cidade. Mas... de vez em quando um taxi também não mata ninguém.
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Ao contrário do que parece, é fácil entender porque Guerra ao Terror ganhou vários prêmios. Mas, antes de tudo, vamos entender realmente do que ele trata. O filme é sobre o trabalho de um esquadrão anti-bomba no Iraque. Este grupo de 3 homens vai onde há uma ameaça e enquanto dois dão cobertura, um terceiro vestido adequadamente vai ao local e a desarma. E, uma pequena observação: o filme é dirigido por uma mulher.

Por mais que isso pareça pouco, é estranho e interessante ver um filme de guerra dirigido por uma mulher. Em nossa cabeça passa, ainda que sutilmente, aquela idéia de porque uma mulher se interessaria em fazer um filme de ação, um filme de guerra e ainda: quase não pôr mulheres no filme. Mas a melhor parte desse pensamento que aparece sem querer e sem que queiramos, é que ele rompe com o ideário padrão.

Antes de ver o filme fiquei me perguntando se ia ganhar o Oscar. Como todo mundo, tinha visto Avatar e me deslumbrado com seus efeitos, com a brincadeira 3d, com a megalomania. No caso de Kathryn Bigelow não tem muito disso. O foco, aliás, bem escolhido levando em conta o tema, a relação destes homens com sua atividade e, principalmente, entre si. A chegada de um novo líder na equipe, aquele que desarma as bombas, após a morte iminente do grande amigo e líder anterior, desequilibra as relações e percepções dos envolvidos. E é nisso que está a graça.

Logo na primeira seqüência, o filme já diz ao que veio: o esquadrão em atividade, um dos três colocando a roupa de proteção, as cenas de ambientação, “cenas de Iraque”, cenas meio sujas, câmera na mão, tensão. O filme mantém esse ritmo até o fim e nossa respiração fica presa a cada investida deles em campo. Não adianta: nos afeiçoamos aos personagens, independente de política. O filme foi construído assim, o roteiro é assim, assim quis a direção. E são bons personagens. Jovens, bonitos e corajosos, humanos, homens dispostos a enfrentar o "vida ou morte" todos os dias, com seus dilemas, seus medos. Cada um dos protagonistas carrega um motivo que cria a empatia; um é o mais novo, que precisa de mais cuidados; o outro não sabe bem o porquê de estar ali e muito menos de não estar e o terceiro, com aquele perfil de estou aqui porque gosto, é disso e para isso que vivo.

O filme ganhou quando me perdi dentro dele. Cada cena fora do quartel era uma tensão, ainda que saibamos que no início ninguém morre senão o filme acaba. Essa tensão é difícil de construir quando as situações são parecidas e têm que ser mesmo, afinal o objetivo é mostrar o dia a dia. Não suficiente, a fotografia merece várias exclamações (!!!!!!!!!). O câmera conseguiu ser repórter, espectador, documentarista e diretor de fotografia de ação. Os planos à luz quase natural o tempo todo ou tendendo a isso criou uma atmosfera realista, bem como a inconstância de movimentos, os planos quase tremidos mas perfeitamente inteligíveis. E não vou nem comentar aqueles em super câmera lenta, porque são obras de arte. Só vendo pra sentir.

Não vi todos os filmes que concorreram ao Oscar desse ano. Vi apenas Avatar e este. Mesmo tendo gostado bastante de Avatar, não passa muito de efeitos especiais numa história bonita até, mas secundária. Tudo compreendido, deve ter sido bastante difícil e caro de fazer, de construir o mundo de James Cameron. Mas, mais interessante achei esse. Mesmo sendo um filme de guerra, mesmo sendo unilateral e mesmo mantendo os iraquianos calados e de cara fechada todo o tempo com uma única exceção trágica do garoto, passemos por cima das obviedades. Kathryn deu um show de direção num filme de situação estabelecida. Teoricamente não há heróis, mas participantes do mesmo conflito. O filme não prevê o fim da guerra, muito pelo contrário, a meu ver não culpa tanto os iraquianos, não há nada muito tendencioso (além de ser um filme americano, claro) que nos impeça de assisti-lo. Claro, melhor seria se fosse mais ambíguo, se ouvíssemos aqueles que armam as bombas e suas também tragédias diárias, mas não era o objetivo deste, não era seu recorte.

O Oscar é uma premiação política. Filmes sobre não só essa, mas todas as Guerras americanas pelo mundo são sempre melhor posicionados. Há um cuidado em se manter o moral norte americano, essa é a política óbvia. É preciso que se vá a ele sem esperar muito. É um filme de guerra, é um filme de relações humanas numa guerra, é um filme de ação. Tem tiros, tem crueldade. E é americano e bom.

Título Original: The hurt Locker
Direção: Kathryn Bigelow
EUA, 2008, 131 min
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Tati Reuter Ferreira

Baiana, curadora de projetos audiovisuais, escritora e crítica de cinema. Vivo de café, livros, cinema, viagens e praia. E Pituca.


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