Bumba

23:04


É impossível não falar sobre a chuva. Quando o verão desse ano assou e fritou a todos nós aqui no Rio também não dava para pensar em outra coisa. Em todos os lugares, bares, restaurantes, trabalho, bancas de revistas era sempre calor e um verão quente além dos quarenta graus. Falou-se também sobre o apagão do calor. E todos faziam parte de uma mesma conversa, um tom monocórdio, repetitivo, uma chatice.

Achei que não ia precisar falar sobre a chuva do Rio. Não vivi o dia "D" dos alagamentos, a cidade deserta como num ataque de zumbis. Não vivi as horas de engarrafamento maiores que uma jornada de trabalho, os prejuízos, afogamentos, a devastação. Neste dia eu passava frio em São Paulo e esperava. Não tinha aeroporto aberto. Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, que será a oitava maior economia do mundo, parou.

Eu vi, entretanto, o dia "E". O dia depois de amanhã daquele pessoal de Niterói. Niterói e São Gonçalo já haviam sido as cidades da Grande Rio mais assoladas por essa tempestade louca. Mas o deslizamento de terra do dia 08 foi de uma crueldade sem limites. Não se falava em mais nada, em qualquer jornal. O Nacional, especialmente, não tinha outro assunto. A rotina carioca voltou, mas aquele monte de terra e lixo, lixo, lixo, lixo, porque não dá pra esquecer, em cima de um monte de gente...

Que o Brasil é craque em miséria, a gente sabe disso. Temos aí filmes e filmes pra mostrar, as ruas que exibem suas mazelas como uma vitrine para turista, os passeios de carros 4x4 subindo as favelas cariocas. As reportagens de fome, sujeira, os ‘Ilha das Flores’... todas as classes assistem, vêem, vivem, presenciam, cada um a seu modo. Mas nessa miséria toda é possível viver. É possível subir um aterro sanitário e chamá-lo de seu. É possível morar, construir, viver. Não pelo dinheiro, mas por aquela nossa velha apatia do poder público, dos olhos vendados da justiça, da cegueira coletiva, da estupidez e do descaso. E não tem esse direito humano reclamado que seja suficiente.

E aí, chove. E é morro. E tem terra. Lixo e chorume. É uma ladeira de lixo com casas em cima. E cai. E pouca gente se salvou. Parece o Haiti sem a música. Sem o terremoto, sem a pobreza cruel daquele país, mas a falta de humanidade deste daqui, que tem muito mais do que o Haiti e vive a mesma situação. Não dá pra falar de outra coisa. E convém lembrar que não dá pra ouvir o prefeito de Niterói dizer que não sabia. Ninguém sabia... e foram feitas melhorias na região... o que no meu português significa: estimular os moradores a permanecerem ali. Eu achei que não precisaria falar da chuva, do que todos vimos nas televisores, do que muitos infelizmente viveram de perto. Mas, se nem ao menos pensarmos um pouco e falarmos sobre, vai chegar o dia em que não se falará mais nada.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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