O que vale é o espetáculo?

23:43


Por que não vemos documentários na televisão aberta? Ok, há aqueles dos animais que passam em alguns canais, nesses ainda há algum espaço, mas o público é sensivelmente menor. Por que os documentários não passam nas grandes emissoras? Não há interesse do público? Quem define o interesse do público? Ele mesmo, eu, você, a grande sociedade, o velho conjunto de fatores sócio-político-econômico-culturais? Por que o público mais diverso pára para ver a novela das oito? Por que esse público é o mesmo que está retornando a passos lentos ao cinema brasileiro (cinema mesmo, não produções de tv exibidas na telona)?

A primeira observação que me foi feita em relação ao texto anterior se transformou numa conversa que trouxe a questão: acho que você está com problemas em definir seu público. Há o público da tv aberta, o do cinema e há o público da tv fechada. Não entrando no mérito das interseções entre os grupos, há decerto uma definição de classe (em todos os seus aspectos) que define também o que se assiste. Mas, será que para nosso público de tv aberta os documentários que vêm sendo feitos não são interessantes?

Ao citar no texto anterior as relações entre os reality shows, a internet e os documentários, acreditei ou não firmei o pensamento na questão espectador, o assumi como uno, um erro. Há um espectador que aceita e participa das três categorias, mas a grande maioria talvez viva do espetáculo e realmente não encare as coisas da forma como tentei refletir. Se para o espectador só interessa o espetáculo, que acaba por ficcionalizar qualquer tentativa de criar ali uma 'realidade', por que levamos em conta a história 'real' dos personagens? Por que damos valor a quem tem uma história sofrida em detrimento de alguém mais favorecido? É evidente que num reality show como os atuais, se criam personagens a favor de quem os vende através muito mais dos recursos fora do cenário, na montagem, num roteiro do que vai ser exibido a posteriori. O que se vê é um tratamento do real e o público participa da história como o telespectador capaz de mudar a vida daqueles personagens. Mas, mais uma vez, há um direcionamento para o público que nos garante a não integridade de qualquer eleição feita por ele sobre o destino dos ocasionalmente confinados num espaço comum.

Nos documentários há um direcionamento, como num filme de ficção, como qualquer produto audiovisual. Há um roteiro, há montagem. Há, inclusive um espetáculo acontecendo, com clímax, anticlímax. Mas há um quê que o diferencia das outras produções: a forma como é contada a história, por vezes os personagens exibidos. Criou-se um mito de linguagem documental dessas de filmes de animais que se estendeu por sobre a história em qualquer coisa que se cunhe documentário e seja exibido na tv aberta. É esta a formação a que o precário público desses programas tem acesso, salvo episódicos filmes novos. Com isso, cria-se uma distância grande e elitiza o público do gênero, o tornando menor, restrito, diferenciado, fora dos objetivos de uma produção que quer abranger. Mas até essa forma específica de se fazer e ver documentários há tempos foi diversificada em outros formatos de tal forma que é apenas mais um tipo numa escala de subgêneros. E os espetáculos documentais preparados sob o conceito do real na tela de qualquer dimensão valem tanta diversão quanto uma ficção produzida com ar real, sem maiores obrigações (e sem entrar os estudos que evidenciam que até o real documental não existe, como bem sabemos). O que aparenta ser uma hipótese não muito distante é que assistir a um documentário pode ter se transformado numa tarefa escolar, como a criança que tem que ver para responder a uma prova na escola, ou um adolescente que tem um trabalho a fazer, até um universitário, pós-graduado, o que for, mas sempre como uma atividade compulsória, quase punitiva.

De qualquer forma, já que estamos propondo mais questões do que efetivas soluções, as perguntas que intrigam no momento são:

Há interesse em ver esse tipo de produção?
De onde vem o interesse? Como ele se constrói?
Por que ainda se vira a cara quando se ouve 'documentário'?
Por que se cria uma obrigação em assistí-los?
Por que esses filmes não passam na tv aberta?

São temas diversos, realizados de diversas maneiras, sob diferentes óticas, de muitos países. Sobre seu vizinho, ser vizinho, o mundo, a diversidade, uma história de vida, um fato, uma foto, um país, uma família, sua família, uma música... não são apenas didáticos ou zoológicos, botânicos, reportagens confundidas. Talvez seja o mote da fofoca, que se perde no meio do caminho. Não se pensa tanto em quem se deu bem ou mal, quem se relacionou com quem, apesar de ser possível encontrar isso tudo num filme também.

Aguardem cenas dos próximos capítulos. E comentem, se assim acharem interessante.
Um dia talvez o pensamento se conclua. Se puder ajudar, participe. Nem que seja pra confundir.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

2 comentários

  1. tati, o problema é o modelo de comunicação perpetuado no Brasil - em especial, de TV: por meio de mega-impérios de comunicação de origem, mérito e história bem duvidosos. há UMA grande controladora de TV a cabo em nosso país [se não me engano, a net detém 80% do mercado. e não se mexe em time que está ganhando. dá menos trabalho continuar transmitindo novelas e big brother na TV aberta, e docs na TV fechada. nada contra, se a massa que assisati novelas e big brother fosse LIDA, ESTUDADA e CULTA. não é o que acontece. mais uma vez, é mais fácil chegar cansado em casa, colocar o filho para jogar vídeo game e assistir a novela das 8. o duro é que quase ninguém que assiste big brother sabe porque o programa tem esse nome.. foda. enquanto isso, a TV a cabo é uma das mais cara do mundo e ninguém tem saco para ver o canal Brasil, ótimo. viva a terra brazilis..

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  2. Tati,linda, tenho um probleminha com esse formato do comentario ficar perto do titulo e nao ao final do texto, acho estranho, sei lá... mas vamos em frente.

    Perfeita é a sua definição daquela subclasse de documentários como sendo "reportagens confundidas". Achei espetacular isso.

    Eu acho que, fora esses documentários sobre bichos, que pra mim não tem nada a ver com cinema, os outros documentários tem uma coisa que afasta boa parte do grande público deles.

    O ponto é que para um documentário funcionar, ele tem que tratar de um tema interessante. Repare que em filmes de ficção, os temas circulam sempre ali, pelo mesmo campo: sexo, amor, traição, mistério, liberdade, violência... e todas essas coisas q despertam nossos melhores e piores sentimentos.

    Reparem que num documentário, apesar de voce envolver alguns desses sentimentos, vc abre mao dessas coisas como tema central, e escolhe um tema central especifico que certamente vai interessar a um grupo menor de pessoas.

    É disso que vive a TV a cabo! Programas voltados para publicos menores, grupos menores, que assinam 150 canais e assistem 3 ou 4.

    É complicado para a globo, por exemplo, exibir em seu horário nobre um documentário como os de michael moore, por exemplo, que têm política como tema central, o que certamente interessa a um grupo menor de pessoas. Tv aberta é universal, o tema central tem que ser amor e morte, pq isso mexe com todo mundo (com sentimento, e não reflexão).

    Tb acho que os documentários de cinema, vamos chamar assim, possuem uma linguagem pouco familiar, o que não costuma agradar na TV aberta. Por que motivo ainda existe canal exibindo "Zorra Total" e "Escolinha de num sei quem"? É a qualidade das piadas? Não... é o formato familiar. A linguagem é familiar.

    Disse um monte de coisa aí né? Nada muito conclusivo tb... O que posso dizer é que "Nascidos em Bordéis" é uma das coisas mais bonitas que já vi na vida. :D

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