Borboletas

23:13

Sua mãe uma vez lhe disse que as borboletas traziam sorte. Mas como trazer borboletas? Ela morava no alto de um desses prédios de cidade grande. Nunca tinha visto bichos de verdade, além desses de metrópole. Lembrou que uma vez foi no zoológico e viu, de longe, os bichos das florestas que nunca iria.

Ainda assim, desceu para o jardim do prédio. Resolveu ir em busca de borboletas. Sua mãe não lhe disse como fazer e nem teria tempo, já que essa foi uma conversa para iluminar uma criança triste sem amigos na escola. Então ela corria e corria, agora todas as tardes, esperando e tentando alcançar as borboletas. Do alto do prédio alguém observava.

Pegou duas, mas a primeira morreu esmagada na sua euforia. A segunda, depois do enterro daquela, foi tratada com bastante carinho. Ela a levou para o quarto e, segurando suas asinhas, investigou cada detalhe do inseto dourado. Não sabia ela que, quando pegamos nas asas, elas deixam de voar. Então, quando soltou a borboleta no céu a viu despencar andares abaixo. Que tipo de sorte era aquela?

Desolada, sua mãe então lhe disse que não mexesse mais com insetos, mas o estrago já estava feito. O porteiro lhe disse que não adianta pegar borboletas, mas casulos, que a graça era vê-las nascer. Sem saber o que eram casulos, perguntou E a sorte?, Você verá quando ela aparecer., ele respondeu. Mas, mais difícil do que pegar borboletas em jardins de prédio era encontrar seus casulos.

Dias e mais dias, ela desistiu. Não havia casulos em seu jardim. As borboletas precisam de árvores, natureza, tranquilidade, não um punhado de arbustos e flores instaladas em concreto. Triste, voltou ao apartamento e de lá não saiu até suas férias. Distraída na varanda, sem mais o que fazer, olhava para o teto. Lá embaixo, o jardim inútil. Em cima, teto, branco, umas folhas e flores ao redor, nada além de formigas.

Sem sorte, ela se preparava para o pior: a viagem da família. Se lembrou imediatamente do barulho, dos primos que a perturbavam, daquele ar de cheiro estranho, de como ficaria mais sozinha do que nunca, já que sua mãe a deixava lá no fim de semana. Sem brinquedos, sem revistas, Vá brincar com seus primos, ela insistia, como se fosse uma obrigação divertida. Como se eles gostassem dela.

Era uma casa grande, como uma dessas raras fazendas de família. Muito espaço, frutas, até uma vaca, tinha. Mas ela não se importava e até se incomodava demais com os mosquitos e aquele leite estranho. Resolveu andar, assim ficaria longe dos mosquitos, da vaca, dos primos. Andou tanto que cansou. Parou embaixo de uma mangueira. Não era janeiro, o que lhe restavam eram apenas as folhas verdes da copa. Olhando de perto num galho baixo, viu que tinha algo de estranho. O tronco era todo liso, terminava em galhos menores e folhas, muitas folhas. Mas aquilo não era uma flor, não era um nó, o que era? Tocou com a pontinha do dedo: nada. Mexeu de um lado para outro, aquele negócio pendurado, pequeno e marrom. Nada. Resolveu puxar. Tentou abrir, mas ficou com nojo, porque era meio mole. Deitou no chão e, como se tivesse uma lupa ou fosse um lobo, encostou o rosto e farejou, olhou, tentou entrar naquele saquinho de alguma coisa. Nessa brincadeira, dormiu.

Acordou depois de sonhar alguma coisa que esqueceu. Esqueceu também de lembrar do sonho, que ela sempre tentava fazer mas esquecia que tinha que lembrar, todas as manhãs. Nesse momento, pensou em algo mais importante. Sabia que ele era quieto, esquisito e vivia imitando ela. Se ela desceu para catar borboletas, ele foi no dia seguinte, meio escondido. Ela sempre sabia e sempre fingia que não. Era quase um jogo de esconder às avessas. Ficou pensando em como ele a venceria, depois que levasse esse saquinho para casa.

Quando sua mãe finalmente a pegou, ela estava tranquila. Havia passado dois dias inteiros na mangueira, olhando o saquinho marrom. Assim que chegou em casa, achou importante e digno bater à porta do vizinho. Ele sabia que ela estava a caminho, já que viu o carro entrando na garagem. Abriu a porta assustado, como se tivessem descoberto seu segredo. Sem muito dizer, ela abriu a mão e ele viu, sabia o que era, ainda que ela dissesse que era seu saquinho da sorte, já que não encontrara borboletas e nem nada parecido. Ele, que sabia um tanto mais, ao tentar pegar o casulo, ela deu um passo atrás. Ele foi à frente e, quando abriu a boca para contar então o segredo, o saquinho começou a se mexer e ela sentiu medo. Ele pôs sua mão embaixo da dela, para que não deixasse cair. Ela quase chorava, mas não faria isso na sua frente. A borboleta voou pelo apartamento. Ela precisava da borboleta, era dela, ela havia encontrado. Ele queria a borboleta, merecia, sabia o que era o casulo. Mas, quando a borboleta encontrou a janela, era tarde demais. Indo embora, virou-se um instante para os dois e, como se piscasse com o bater das asas, se despediu. E eles ficaram ali, juntos e calados, sem perceber que a sorte lhes chegara em forma de amizade.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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