Feriado

23:04


Por que há tanta necessidade de se definir tudo? Por que é tão difícil perceber que algumas coisas que vivemos e sentimos simplesmente não possam se definir? O que há de errado nisso?

É engraçado como esse é um pensamento recorrente em mim. Hoje tive uma conversa com uma amiga que retomava essa história, uma busca por definições de sentimentos, pensamentos, experiências... acho sim que a partir do momento em que definimos algo, acabamos perdendo toda a dimensão que este mesmo algo poderia ter. É como se eu perguntasse a você: Quem é você? E você me respondesse: Eu sou Fulano. Mas, a quantas pessoas eu posso fazer essa mesma pergunta e obter a mesma resposta? Você se define apenas por um nome? Ou uma frase?

Assim também e talvez ainda mais evidente seja se tratarmos dos sentimentos. Quando dizemos que amamos alguém, limitamos tudo o que sentimos a uma frase, a um termo. Mas o amor, o ódio, o carinho, o sentimento que for, é muito mais amplo e infinito em nós do que um verbo consegue exprimir.

O mais interessante da conversa toda é a confluência das situações que vivi ainda hoje e que entraram em sintonia com o tema. Assistindo A Dupla Vida de Véronique, de Kieslowski vemos com força total a expressão de sentimentos sem o prejuízo da palavra. Numa estória em que sentimentos são o mote principal, não há espaço para aquele conhecido excesso de diálogos. E o diretor conseguiu traduzir na tela, com a fotografia, com o elenco, com a música. Há forma melhor do que essa para reinterpretar ou transmitir o que sentimos?

Agora, acabo de ver o Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera. O filme quase não tem diálogos e os que há são fundamentais. Dá para sentir como a ausência de fala pode dizer muito mais. É um filme que lhe transporta, transforma seu estado de espírito, te inunda com um outro olhar, num outro tempo e espaço. Numa outra vida mesmo. São filmes assim que nos tornam diferentes, causam estranhamento, nos dão aquele tempo de sentir, de pensar, de participar ou, como diria um professor de artes, de fruir. Mais uma vez, não adianta tentar definir muito, apenas indicar o filme. Para esse, não vale nem sinopse.

Acredito que precisamos de momentos como os que tive hoje, simples, baratos, tranquilos e ricos. São eles que nos sustentam, nos fazem crescer. É tempo de parar e refletir, não viver apenas o todo-dia-a-mesma-coisa. E, se faltarem palavras, relaxe: a brincadeira é exatamente essa. Até porque, você nunca consegue dizer tudo o que quer e jamais será entendido como espera.



Filmes:
A Dupla Vida de Vèronique
Título original: La double vie de Vèronique
Diretor: Krzysztof Kieslowski
País: França, Polônia
1991, 93 min.

Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera
Título original: Bom Yeoreum Gaeul Gyeoul Geurigo Bom
Diretor: Kim Ki-Duk
País: Coréia do Sul
2003, 99 min.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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