Drummoneando

15:49

Há gente que pensa que para tudo há uma explicação complicada nas artes. Você vê um filme simples e acha que o diretor quis fazer uma interpretação implícita, uma crítica social. Você vai a um museu e passa três horas olhando o quadro da Monalisa para descobrir se ela está rindo, cínica, chorando ou simplesmente curtindo com sua cara. E com a poesia não é diferente. Como eu sou o tipo da pessoa que desconfia das coisas, costumo pensar que às vezes as coisas simplesmente são uma brincadeira, uma manifestação do tédio, uma curtição qualquer.

Mari, minha comadre, esteve aqui neste último fim de semana e me trouxe um livro pra ler: Dossiê Drummond, de Geneton Moraes Neto. O livro traz logo de cara uma entrevista deliciosa com o poeta, seguida de intervenções de outros amigos que aparecem para homenageá-lo. Ainda estou na entrevista, feita por telefone, numa circunstância muito difícil, em que a filha do poeta estava internada num hospital e ele sofria do coração. Duplamente.

O livro é um achado e a diversão segue ainda que com estes percalços. É muito divertido, por exemplo, quando Drummond fala sobre programas de tv e diz que assiste ao Sem Censura, o programa eterno da TVE (atual TV Brasil). Ele diz que como são vários entrevistados sempre, às vezes fica meio chato. Pense nisso: Leda Nagle comanda! Outro programa que ele gosta, e aí lembro de meu pai, é o dominical Globo Rural. Eu gosto do programa porque via como meu pai cedinho no domingo, coisas de fazenda, mato, bichos, sementes, plantações, cultivo. Drummond diz que não sabe como não se tornou fazendeiro.

Como Woody Allen, o escritor sabe prender o leitor com suas palavras simples e jeito de viver sem vaidades aparentes. Enquanto Geneton o persegue tentando arrancar algum orgulho de seus textos, ele os assume como expressão de sentimentos, nada mais. Segue um predacinho que resume a história e deixa muito professor de literatura envergonhado:

A pedra, afinal, existiu de verdade ou foi somente uma imagem?
Não; foi uma criação minha. Não tinha nada. Minha intenção era fazer apenas um poema monótono,sobretudo monótono – e com poucas palavras. Um poema repetitivo. Um poema chato mesmo. Uma brincadeira. Não tinha intenção nem de fazer uma coisa que agredisse o gosto literário nem também uma coisa que permitisse uma revolução estilística. O poema muito menos tinha uma intenção filosófica – aludindo a dificuldade que a vida pode oferecer à pessoa. Nada disso!

Apenas o seguinte: fazer um poema com poucas palavras repetidas e bastante chato, bastante árido, bastante pedregoso. Uma brincadeira! Eu tinha vinte e poucos anos e nenhuma pretensão de fazer nada que pudesse irritar os outros. Era uma brincadeira, como a gente costuma fazer quando moço.”


E saber que ficamos tentando descobrir, cruzando referências de tempo, espaço e história o porquê da maldita pedra.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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