Hoje

23:03

Cá estou eu ouvindo a chuva. Enquanto o tempo passa arrastado, o novo céu cinza do Rio despenca. Na casa de Pedro não se ouvem carros. Talvez de longe. É só o barulho da chuva. Pingos no chão, em canos, em lona, em alguma coisa metálica. A janela que dá para os fundos é só chuva e prédios, fundos de prédios. Na casa de Pedro é silêncio de chuva.

Lembro de minha casa em Salvador. Há a mesma chuva torrencial, há um silêncio parecido, com uns barulhos de pássaros no meio. Há uma rede e um gramado. Há o sofá da sala e sempre que posso deito nele e curto a melhor preguiça de todas. Há agora uma saudade gostosa de minha cachorra nos dias de chuva.

De volta à minha casa carioca, mesmo sem estar lá agora, sei que é chuva, ônibus, pessoas, buzinas e carros. E acaba sendo tudo preguiça e talvez um friozinho à noite. Pode ser o clima do filme que estamos criando: duas casas, duas pessoas, uma amizade e trilha sonora. Acho que é uma combinação, uma coordenação de temas, motivos e características que fazem essa história combinar muito mais com cinza, água e ventos do que com o céu estupidamente azul e os trinta e cinco graus do verão.

Precisamos trabalhar. Enquanto a construção da primeira idéia, o primeiro corte do filme chega ao fim (e é claro que a segunda etapa é tão ou mais difícil que esta e está chegando), acredito que já posso ir desvendando e desenvolvendo as conclusões deste aprendizado.

Cada filme, independente de seu tamanho, conteúdo e complexidade, traz um universo de aprendizados que nunca conseguimos traduzir totalmente em imagens. O filme traz uma parcela, um conjunto de experiências selecionadas que se combinam numa lógica e traduzem uma história. O que sobra é a maioria, são as reflexões, os encontros, as conversas, pedaços de textos e vozes, pensamentos que guardamos como registros de mais um trabalho, de saberes adquiridos e trocados, e sempre vontade de fazer mais, pensar mais, produzir mais.

O cinema é como um vício que, com todas as dificuldades, insistimos em querer passar a vida fazendo. Muito mais do que pensar em produzir arte - porque esta é uma grande palavra de status - queremos produzir apenas e tentar construir novas histórias. Há sempre muito o que contar por aí.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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