A construção de um mundo

15:02

“Macondo já era um pavoroso rodamoinho de poeira e escombros, centrifugado pela cólera do furacão bíblico, quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo com fatos conhecidos demais e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando-o à medida que o vivia, profetizando-se a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse vendo a si mesmo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias da sua morte. Entretanto, antes de chegar ao verso final já tinha compreendido que não sairia nunca daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilonia acabasse de decifrar os pergaminhos e que tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra.”

E assim eu acabei Cem Anos de Solidão pela segunda vez, com o coração doído e a mente confusa sem saber se estava triste, feliz ou qualquer outra coisa, porque o final apocalíptico me deixou novamente ler tudo de uma vez pela curiosidade para só depois perceber a avalanche de idéias entrecortadas e o fim da saga dos Buendía.

Meu primeiro livro de Gabriel García Márquez foi O Amor nos Tempos do Cólera. Apaixonada pela história, lembro de não ter durado muito tempo com o livro nas mãos, li quase de uma só vez e vivi todo o romance, mas já tem muito tempo. Lembro que ainda me envolvi numa seqüência de livros do mesmo autor e vi uma cópia moída de Cem Anos em casa. Peguei pra ler, mas me confundia inicialmente com a repetição dos nomes dos personagens da mesma família. Dessa vez, li de novo, sem pressa, pois já tinha noção dos caminhos a percorrer e me encantei como há muito não acontece. Cem Anos me apaixonou de novo e o final lido ontem me tirou o sono. Estava na cama, eram duas da manhã quando li esta última parte e fiquei com o livro fechado nas mãos sem saber o que fazer. Voltei à estante e fiquei olhando... olhando... mas eu precisava destilar e conservar em mim as cruéis palavras, a história triste e sim, com fim, de uma família, de uma vila, que aprendemos a viver.

Acho que deve ser chato ficar comentando livros assim, porque nem todo mundo os lê ou leu este pelo menos e fica uma conversa surda, um monólogo ou uma declaração de amor isolada. Com filmes é mais fácil, nesse sentido, porque a interlocução costuma ser imediata. Queria alguém pra conversar, por exemplo, sobre as mulheres do livro, o que há de fantástico e específico em cada uma delas, como o autor conseguiu extrair semelhanças – que seriam hereditárias - e personalidades tão fortes. A construção do mundo é o que nos prende. Nos acostumamos com os acontecimentos, entendemos as situações e a história toda se faz possível em nossa mente. As situações fantásticas são as pausas para o delírio, para as possibilidades de uma narrativa livre e simples, em que o surreal não é sonho, mas um caminho viável na vida de Macondo.

Vou parar, porque passaria muito tempo aqui pensando e relembrando os pequenos momentos do texto e descreveria alguns, mas não vale a pena. Jamais conseguiria descrever conforme li e por isso deixei o trecho acima, que é do final, mas que não mata a trama.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

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