Vozes do Além

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Igual a Tudo na Vida


O fim de semana correu frio e chuvoso na suposta cidade maravilhosa. Mantive meu senso crítico em alta e acabei numa tarde de sábado agradável em companhia de Woody Allen e seu novo filme no cinema. Ainda investindo na sociabilidade, fui num bar recém inaugurado e até divertido, que rendeu momentos tão leves quanto as conversas. Retornando ao período de reclusão, me peguei desde sábado à tarde até hoje e espero por mais uns dias, pensando no Vicky Cristina Barcelona (Woody Allen, 2008 – o do cinema), em suas formas narrativas e no que ele propõe. Minha surpresa agradável foi neste domingo de preguiça e sofá: Igual a Tudo na Vida (Woody Allen, 2003) e O Selvagem da Motocicleta (Francis Ford Coppola, 1983) numa seqüência em que se tornou impossível não associar os três bons filmes e traçar possíveis paralelos.

Ainda no sofá, me peguei pensando sobre as formas narrativas dos três filmes e percebo que eles seguem a mesma base: uma voz off que conta a história enquanto ela acontece e traça observações, opiniões sobre os personagens, seus sentimentos e ações. Isso é o que costumeiramente chamamos de voz de Deus: alguém fora da tela e da história que sabe tudo o que acontece na trama, a vida dos personagens e ainda está acima do bem e do mal para ditar as regras do jogo e nos favorecer com seu ponto de vista. Nos filmes fracos, é uma alternativa a algo que o diretor/roteirista não conseguiu exprimir em imagens, como o Jane Eyre (Robert Stevenson, 1944) em que trechos do romance são literalmente lidos pelo narrador a cada marco narrativo da trama e a imagem correspondente a este tempo é justamente um capítulo aberto do livro com o trecho narrado destacado. Jane Eyre surge na geração dos filmes que hoje consideramos clássicos por seu tempo de produção, com Elizabeth Taylor ainda menina e Orson Welles co-protagonizando. É um filme interessante, com roteiro do livro de uma das Irmãs Brontë (Charlotte, lembrando que a outra irmã, Emily, escreveu O Morro dos Ventos Uivantes) e que traduz um tempo onde o romance era romântico, os dramas verdadeiras tragédias e a mulher sofria as inevitáveis dores em uma sociedade que a fazia calar. Nos concentremos nas formas mais recentes.

Em Vicky Cristina Barcelona, encontramos o padrão do diretor somado às transformações percebidas há aproximadamente cinco filmes. Deixando de protagonizar seus filmes e dando vazão às histórias em novas locações, vemos um quê de experimentação em um dos mais ativos cineastas da atualidade. Neste filme, um narrador conta a história dos diversos conflitos amorosos entre Vicky, Cristina, Maria Elena e Juan António. Como em Igual a Tudo na Vida, este narrador esta a par dos acontecimentos presentes e futuros, ainda interpretando e cogitando as ações dos personagens. O interessante é que nestes dois filmes, o narrador comenta e quase conversa com o espectador, levantando questões sobre o que está na tela. A diferença entre as duas narrativas, apesar de simples, transforma e enriquece o trabalho do diretor. Vicky Cristina Barcelona traz questões sobre relacionamentos contrapondo a sociedade conservadora e seu padrão frente a uma situação que se impõe e que extrapolaria o que é tido como regular e que não seria ruim de todo. Os personagens percorrem a trama, vivenciando suas falas em locações belíssimas, enquanto nosso narrador nos faz pensar no que se vive ali. Igual a Tudo na Vida tem outros questionamentos e uma marca maior da neurose típica dos filmes do diretor, com ele em quadro e diluindo seus pensamentos em cada personagem. Além do narrador que nos acompanha, o protagonista investe diretamente num direcionamento a nós espectadores, passando por situações e nos questionando, como um personagem de ficção que entende que há não uma platéia, mas um participante ativo da história que tem opiniões próprias e, como o narrador, está a par dos acontecimentos fora da trama.


O Selvagem da Motocicleta


Acompanhado desses dois filmes de Woody Allen – lembrando que ele é um dos poucos diretores cuja experiência no cinema o fez usar diversas formas narrativas para contar histórias simples – há o terceiro citado, O Selvagem da Motocicleta. Coppola já havia consolidado sua carreira brilhantemente com duas edições de O Poderoso Chefão (1972, 1974, o último viria em 1990), Apocalypse Now (1979) entre outros filmes, e com este trouxe mais ênfase no narrador de que tratamos. Não querendo adentrar no universo mítico do filme (com referência a O selvagem, 1953, somadas às questões autobiográficas do diretor, sociedade americana, gangues e o sonho do oeste americano), encontramos este narrador participante. Ele surge ocasionalmente, com muito menos freqüência do que nos demais filmes, mas nos lança questões para refletir, sobre os ideais do protagonista, sua vida e seu futuro. Resumidamente é a história de um jovem que busca se auto-afirmar com base no ideal que construiu de seu irmão mais velho – este sim, o Selvagem da Motocicleta – que comandava as ruas de sua cidade, subitamente parte para o oeste americano e retorna, rompendo os ideais do irmão, exibindo uma família desconstruída e uma previsão de futuro curta que a delinqüência promove.

Além da qualidade narrativa, do roteiro elaborado e de excelentes performances, os três filmes garantem entretenimento sem muitos efeitos especiais. Os três, por mais que suas histórias sejam diferentes, possuem em comum os questionamentos que temos sobre situações que passamos. É evidente que em O Selvagem da Motocicleta, há que dar-se um desconto por sua época e caracterização, ainda que vejamos na representação familiar, no discurso e experiências de nosso protagonistas, situações similares na 'vida real' da juventude em alguns espaços urbanos. Da mesma forma, Igual a Tudo na Vida investe na crise do relacionamento de um jovem casal e encontramos em Vicky muito a pensar sobre como nos relacionamos, a partir da possibilidade avistada com a diversidade e decidir sobre romper as amarras sociais tão conhecidas e investir em um território novo e repleto de oportunidades.

Ainda que Jane Eyre tenha entrado de supetão na história e ganhado um juízo de inferioridade frente aos demais, ele reaparece aqui como uma reflexão interessante quando o contrapomos no quesito das relações sociais. É um filme bonito, que exige o cuidado de atentar para a época de produção e o retrato que se fez de uma geração ainda anterior. Vemos na narrativa que apresenta os capítulos, marcos importantes para o desenrolar da história de Jane, esta menina desafortunada e sofrida que enfrenta como pode as situações de sua vida. Orson Welles é o homem com um passado em brumas que se desfazem aos poucos e há a surpresa de encontrar Elizabeth Taylor, uma criança cuja pequena participação já consegue destacar sua beleza e facilidade com as câmeras. É um filme cujas cores trariam um adicional de beleza, como visto nos demais, à exceção de O Selvagem da Motocicleta, em que o preto-e-branco proposital conjuga com a narrativa e peculiaridades daquele que carrega o título do filme – é daltônico. Para fechar, o que podemos perceber disso tudo é que à medida que o cinema vai percorrendo a história até o momento que vivemos, a interatividade que chega com as novas tecnologias e a tv digital encontra seu paralelo no direcionamento das narrativas em voz off. A voz de Deus está cada vez mais humana e comunicativa.

Filmes:

Em Cartaz
Título: Vicky Cristina Barcelona
Diretor: Woody Allen
País: Estados Unidos, Espanha
2008, 96 min

Título: Igual a Tudo na Vida
Título original: Anything Else
Diretor: Woody Allen
País: Estados Unidos
2003, 108 min

Título: O Selvagem da Motocicleta
Título Original: Rumble Fish
Diretor: Francis Ford Coppola
País: Estados Unidos
1983, 94 min

Título: Jane Eyre
Diretor: Robert Stevenson
País: Estados Unidos
1944, 97 min

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