Aula de Crítica no jornal

23:57

Há alguns dias postei um texto sobre o Última Parada 174, quando foi lançado no Festival do Rio. O tempo passou e para a minha surpresa, li ontem no caderno cultural de domingo uma falação entre os bonequinhos de O Globo. Carlos Alberto Mattos, Rodrigo Fonseca e Marcelo Janot opinaram entre bonequinho achando espetacular, bonequinho de maresia na poltrona e bonequinho pedindo a morte... ou dormindo. Mas a parte realmente interessante de toda a história pode ter passado despercebida pela maioria: a forma como os três autores opinaram sobre o filme se transforma radicalmente e deixa o leitor que ainda não o assistiu, meio sem saber o que fazer.

Minha opinião sobre o 174 tá por aí, disponível. Mas, quem tiver acesso ao Globo, vai encontrar muita diversão pra quem curte crítica de filme, a começar pelos títulos dos três textos: “Uma tragédia brasileira sob o foco da sobriedade”, “Perplexidade em ensaio sobre o livre-arbítrio” e “Tropa de Elite do Bem em clima de Telecurso”. Vou comentar os três textos e seus autores, respectivamente.

Carlos Alberto dá um show de gentileza e opina com a bonança do cinema brasileiro... concorda com tudo, acha o filme perfeito, digno e justo. E essa boa vontade que nos torna café-com-leite é que me deixa irritada. Se este fosse um filme americano, de Hollywood, certamente choveriam críticas do apelo ao drama, das caricaturas, de que é mais um filme blockbuster. Mas, por ser tupiniquim, a pátria amada chora e acolhe os seus, ainda que o filme continue com suas caricaturas vendendo um Brasil que o mundo entende como óbvio e real, porque é sempre a mesma mídia que fabrica as mesmas idéias. Ainda assim, vale ler o texto, muito bem escrito e elegante.

Rodrigo Fonseca toma uma atitude mais arriscada e falha. Nos traz um cabedal de informações para cult achar bonito e poder participar da mídia de massa. Pasolini de início com mais outras citações que nem os iniciantes estudantes de cinema se acostumaram a ouvir. Ainda que a analogia ao texto do poeta-cineasta seja bem sucedida, poderia ter findado aí, para o leitor usual poder partilhar das opiniões sem precisar acessar a estante cult/alternativos/cinema europeu da locadora. O texto perde a graça e fica orbitando em torno dos intelectuais que devem ter achado bastante interessantes as opiniões baseadas em obras de arte. Não diz muito na vida real, o autor fica em cima do muro e deixa o bonequinho e seus leitores sem muita vontade de ver o filme.

Janot ganhou meu coração. Não sei o que aconteceu com ele nesse dia em que resolveu escrever o texto, não o conheço, mas ganhou ainda mais a minha simpatia com as comparações esdrúxulas e originais ao utilizar 'Tropa de Elite do Bem', 'telecurso primeiro grau' e 'mãe bíblia' no texto. Conciso, exato, direto. Não facilitou pra Bruno Barreto, identificou as caricaturas ridículas e perigosas do filme, e, como não poderia deixar de ser, acabei concordando, mas não é só isso: Marcelo Janot trouxe graça, leveza, opinião contundente. Tem quase uma raiva, um sarcasmo real nas palavras. Não precisamos do rebuscamento de Rodrigo ou da complacência de Carlos Alberto.

É uma peregrinação entre as diversas formas de se fazer crítica e acho que só essas diferenças já cabem em uma aula do gênero. Tomara que alguém faça uso. E, ainda que os textos sejam curtos como resenhas (talvez alguém aí reclame que eu os chamei de críticas), vale perceber a forma como cada autor se posiciona e aborda o que mais lhe chamou atenção. Poderiam ser textos maiores, mais elaborados e com reflexões que nos fornecessem material para além da polêmica óbvia, mas, para isso teríamos que pensar em um caderno de cinema e não de cultura geral. É uma falha que persiste no cerne da mídia impressa e só temos a lamentar.

Por fim, ainda que tenhamos tantas vertentes pra polemizar a vida real que girou em torno dessa ficção, continuo achando que vale a pena ver o filme. Vamos estudar um pouco o Brasil, nossas pessoas, nossas tragédias e, mais importante nesta ocasião, nossa representação na tela. Não podemos deixar de refletir em como nos vemos, em como quem fez esse filme nos vê e se vê enquanto brasileiro e se é isso mesmo o que somos, se somos o que está disposto aí, porque é assim que nos enxergarão lá fora, que imaginarão e que farão um resumo de nós. E, para deixar os incrédulos do documentário em crise, a verdade é uma só e unânime: o documentário sobre a tragédia – Ônibus 174 – é muito melhor do que estorinha de ficção.

Filmes:
Última Parada 174
Ficção, 110 min
Diretor: Bruno Barreto
Brasil, 2008.

Ônibus 174
Documentário, 133 min
Diretor: José Padilha
Brasil, 2002.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

0 comentários

Contato | Parceria

Nome

E-mail *

Mensagem *