Nome Próprio

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Nome Próprio trata da vida de uma jovem aspirante a escritora no mundo real das grandes cidades. Camila Lopes é uma garota cuja aspiração intelectual a faz pensar que é diferente dos outros, com seu estilo moderninho, livros e bom gosto musical. Mas ela é só uma menina comum das moderninhas blogueiras. Digo isto, porque sou uma blogueira, toparia ser escritora e tenho bom gosto musical. Estou numa grande cidade e passo por algumas situações Nome Próprio. As semelhanças acabam aí. Como Máquina de Pinball, de Clarah Averbuck (um dos livros-base do filme - o outro chama-se: Cama de Gato), o filme apresenta uma trama que, em alguns momentos, deixa a desejar.

Leandra Leal é Camila, esta garota com tantas ambições quanto desejos e volúpia, mas que incoerentemente se apaixona por todos com que transa. Os envolvimentos vazios se justificam em seus textos, mas não com a pintura básica do personagem. Ou espero demais desta blogueira urbanóide, talvez uma identificação que nunca chega, à exceção da necessidade rotineira de escrever. Camila entende a palavra escrita e seus pensamentos como o mote para sua vida e, com isso, se vale de seu dia-a-dia para extrair idéias.

O filme tem soluções bacanas para a saga-blog da personagem: inserções gráficas nas paredes, textos que sempre aparecem, sons de digitação. As próprias palavras são interessantes, assim como a interpretação de Leandra Leal, já esperada que fosse de impacto. Os personagens masculinos, entretanto, ajudam a fragilizar a estrutura do filme. A impressão que dá é que faltou atenção no tratamento de seus atores. Uma dúvida pinga no ar: os personagens masculinos, nitidamente menores na trama e fracos de estrutura, são propositais para dar a ênfase no vazio das relações e intensificar a personagem feminina? Se for, é mérito, mas acredito que a dúvida reforça a segunda opção.

Nome Próprio é a estória radicalizada das meninas que moram só. Sou eu, são algumas amigas na mesma faixa etária. São situações de independência que, às vezes, transforma nossas carências intensificadas. Quando mudamos de cidade, deixamos nossos amigos em outras terras, nossa família, nossos amores, nosso forte. Recriamos nossa base em outro canto e, na maioria deste tempo temos que ser tudo simultaneamente: forte, amor, família, amigos. Às vezes a carência de tudo nos põe em riscos e temos que atentar para os possíveis deslizes. É aí que o filme torna-se real. São nas experiências vazias que, por falsas razões ou nas que queremos erroneamente acreditar, cometemos a falha de nos deixar levar. Nada contra a diversão, sou a favor da gratuidade das alegrias, dos anseios, dos desejos. Cada um faz o que quer consigo e é com essa liberdade arriscada que nos permitimos um incômodo futuro. Nem todas as experiências são desastrosas, entretanto, e são estas que nos permitem entrar nas seguintes, com a expectativa de mais momentos que guardaremos na memória e na pele.

Como Camila, as liberdades totais geram conseqüências íntimas. As transformações, tão fundamentais enquanto estamos nos tornando adultos – acho que a palavra adulto requer uma gama de experiências que ainda não tive – rompem algumas ilusões enquanto somos jovens. As drogas, os excessos, os descasos. Não é só ressaca física e moral, é o porque antes do fato. Nome Próprio funciona a partir do momento em que faz as garotas se identificarem nas situações, num espelho que ninguém quer se ver refletido. O mesmo para os rapazes, acredito, mas em menor intensidade.

O livro ainda se faz mais interessante que o filme, neste sentido. Enquanto o filme exibe uma garota cuja força sexual sublima outras características que a permitiriam tornar-se mais reconhecida por todos, em Máquina de Pinball a encontramos. A Camila do livro é uma garota que pensa, que vive outras situações que favorecem mais a identificação e a verossimilhança com seu mundo; é a situação de morar só, de morar com outros, de não ter grana, de falta de trabalho, de escrever para viver. Lembra Alta Fidelidade de Nick Hornby nos momentos musicais e outros livros de autores jovens contemporâneos. No livro, acredito que só falta o enriquecimento da trama e aprofundamento da personagem. Ficamos esperando mais da história, sua evolução, o que acontece depois. No filme, há o lapso do cuidado, a personagem parece movida por seus impulsos sexuais e, em alguns momentos, consegue tornar-se outra coisa, mas, ainda aí, intercalada com bebidas e anfetaminas. Talvez as únicas situações em que a vemos como uma menina vaidosa a que estamos mais acostumados – e que talvez esperássemos menos nestas tramas devido ao teor corrosivo em que Camila é exibida – é quando ela assume saltos altos, os adquire mesmo sem grana e ainda pinta os olhos. É quando o sorriso tímido aparece nas espectadoras da sala de cinema.

Título original: Nome Próprio
Diretor: Murilo Salles
País: Brasil
2008, 120 min

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