Ensaio sobre a Cegueira

04:54


José Saramago tem a característica dos escritores sensacionais de criar imagens singulares em quem o lê, a partir de suas histórias quase incoerentes. Ele faz parte da legião que cria para si mesmo o desafio de consolidar em nós uma verossimilhança e uma crença no que estamos prestes ou no processo de absorver. Já assistimos a mais uma reconstrução criativa e inteligente da vida de Jesus Cristo, vivemos o incrível dilema de um Homem Duplicado e fomos forçados a visualizar a cegueira. Por mais paradoxal que pareça, Saramago, que não é cego, descreveu uma cegueira que nos permite vê-la com uma simples descrição: é branca. A partir do momento em que compramos a história e passamos a participar da trama, construímos nosso filme. A graça de um bom romance é a consolidação de sua história de palavras desenhadas em palavras imagens. Mas... e se alguém gosta tanto do seu filme particular que resolve construí-lo concretamente para que outros participem de sua criatividade? É aí que nosso texto começa:

Fernando Meirelles adaptou O Ensaio sobre a Cegueira e trouxe suas imagens para nós na grande tela dos cinemas. O Ensaio, texto cujo esforço de nossa subjetividade vai além dos romances mais comuns, exige apuro, sensibilidade e precisão, para não cair nos excessos que transformam tramas complexas em suspenses banais.

Quando li o livro, me prendi na forma da doença. Acredito que a cegueira impõe uma criatividade diária para quem a tem. Todas as imagens devem ser desvendadas inventivamente, nada é gratuito. A audição torna-se fundamental neste processo, muito mais do que naqueles que enxergam. E sempre imaginamos a cegueira como ausência e a ausência como escuridão. A cegueira de Saramago é branca como leite, espuma e bruma. Outra característica que me fez não respirar foi a condição de desenvolvimento, o ritmo do texto. Saramago apresenta sempre uma escrita particular, onde diálogos quase se misturam e a forma do texto é como a do pensamento, ininterrupta. Uma cadeia de ações desencadeia outros fatores que complexificam uma situação já limite: uma epidemia de cegueira cujo foco da doença é inexplicável, é apenas o detalhe que transforma e transtorna uma sociedade.

O livro já me causava desejos, anseios e agonias. O desespero das mulheres era como o meu, se estivesse com elas; a dor de não ver, o despreparo que isso traz para nós em um espaço automaticamente desconhecido, os perigos da vulnerabilidade. Estar cego, neste caso, é estar entregue, despejado no mundo, sem defesas. Perceber o nosso redor entrar em colapso é perceber a própria derrota e a incapacidade de mudar o rumo. Ser mulher nesta condição é um risco óbvio.

A forma como a cegueira se dá no livro/filme é a mesma para o Os Pássaros de Hitchcock: não há explicação, simplesmente acontece. Não precisamos da explicação, o que importa é o fato e como ele se desenvolve. A cegueira é, antes de tudo, metafórica, e esta é, talvez, a maior dificuldade de explanar os sentidos dessa metáfora no filme. O filme é imagem, os sentidos da imagem nós também precisamos construir.

Não fui assistir a Ensaio sobre a Cegueira inocentemente. Acompanhei o blog do diretor e fui desvendando uma parte dos mistérios que encontraria tempos depois. Conhecer o livro aumentava ainda mais as expectativas. A trama de Saramago é repleta de ação, o que facilitava. Em oposição, a cegueira precisava ser exibida e Fernando Meirelles encontrou boas saídas. O uso do som com menos música e mais pinceladas, pingos de expressões sonoras em momentos de carência visual, são muito bem executados. O choque de estar cego de repente também foi bem sucedido.

Apesar de me incomodar com alguns atores – à exceção de Julianne Moore, Maury Chaykin, Yoshino Kimura e de Gael García Bernal – o filme soma pontos na carreira do diretor, agora internacional. O blog indicava algumas questões acerca do tom do filme; os produtores entenderam que as primeiras versões estavam fortes demais, muito carregadas e que possivelmente o público se incomodaria. Ledo engano. O filme, a meu ver, poderia carregar nas tintas, mas esta será sempre uma observação de alguém que já tinha seu próprio filme na cabeça, antes de ver o de outro diretor.

A seleção de atores com diversas nacionalidades, a fotografia e a diversidade de locações para simbolizar um espaço mundial – uma história sem cidade, mas uma história possível em qualquer nação – somada à arte desbotada, traduzem um espaço onde poucos enxergam. Aquele seria realmente o mundo onde ninguém vê? A cegueira é a anulação do ser humano para tornar-se o animal que presenciamos na trama? O que significa ver e não ver? O que deixamos de ver? Para o quê fechamos nossos olhos? Além da banalização do ser humano, sobram as necessidades, a dependência e, por conseqüência, o egoísmo. Havendo apenas uma pessoa que enxerga, a memória nos traz a brincadeira: em terra de cego quem tem olho é rei? De que serve enxergar o que ninguém vê? O que se enxerga onde ninguém vé?

A sociedade da cegueira branca entra no colapso e se expõe da forma como ninguém gostaria de ser visto. Ao estarem todos cegos, a vergonha perde espaço, o despudor ganha forma e une-se ao desrespeito, à soma de todos os poderes, à lei do mais forte. E o reflexo dos totalitarismos soa como uma lembrança plausível. E a personagem que vê? A única mulher que vê e se deixa violentar para a sobrevivência de um grupo, é a mesma que assiste a um mundo que tombou ao caos. Ao contrário uma possível situação de controle, ver é quase nada, até o suportável. Até onde é possível sustentar este silêncio? E este caos não é o que vemos diariamente? Ou é aquele que fazemos questão de fingir cegueira?

O filme, como toda imagem já realizada, sublima algumas questões. Nos prendemos à trama e deixamos o incômodo surgir sorrateiramente em nós, nos dias que passam, nos momentos seguintes ao filme, na esquina de nossa rua, na violência de guerras espalhadas. A cegueira aqui é apenas o que não queremos ver. Mas... e se formos obrigados a enxergar novamente, haverá alguma diferença?


Título original: Blindness
Diretor: Fernando Meirelles
País: Brasil, Canadá, Japão
2008, 120 min

*Veja o site depois de ver o filme.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

2 comentários

  1. Danilo Risada17 setembro, 2008

    Adorei a maturidade da crítica, muito bom. Quero ver logo o filme.

    ResponderExcluir
  2. Tati, adorei sua crítica! Muito boa!
    Amei o filme tb. Meireles é o cara! Saí refletindo sobre tudo que vi, o quanto nos tornamos animais para sobreviver pela falta da visão, e o quanto o papel da atriz Juliane Moore sofre por ser a visão dos outros e por ver todo o caos e sofrimento humano. Será que valia a pena ver realmente?
    Acho que Saramago tambem traz a cegueira humana, como o descaso por parte de uns enquanto outros sofrem como: a fome, a guerra, e tantos outros problemas capitalistas que vivemos.

    beijão

    ResponderExcluir

Contato | Parceria

Nome

E-mail *

Mensagem *