Grande risco

16:40

Estou vivendo sob um grande risco. Estou construindo meu avô através da minha memória e dos meus familiares. Ele morreu quando eu tinha 12 anos, mas a pouca convivência e nosso jeito de ser não permitiram que fôssemos mais próximos.

Acho que eu tinha receio de meu avô. Como ele sempre foi muito calado, achava que um dia ele ia falar alto e sério com alguém... ele ria pouco... tão pouco que não me lembro. Estou recolhendo fotografias dele de todos os tempos que posso e estou observando a vida de outra pessoa em momentos que eu nem mesmo vivi. É um pouco como a praia que fui hoje. Levei a máquina a tiracolo na intenção de encontrar alguma coisa interessante pra ver, como sempre tem. Observei a vida dos outros e fotografei algumas pessoas... vim pra cá e fico com as pessoas olhando a vida e nunca sei o que elas pensam.

Nas fotografias, acabo vendo mais meu avô do que pelo relato de meus parentes. É que a foto registrou um momento que hoje não passa por interpretações e rasgos das memórias. A fotografia não vem com explicação de personalidade; vemos a imagem, as expressões e o momento. Nada mais.

E nesses momentos vem sempre a nostalgia e o sentimento de estar conhecendo mais, a vontade de ter convivido mais, sabido mais, conversado mais, mesmo sendo pequena. E a imagem que eu tinha antes, a idéia deste avô vai se completanto com novas versões, personagens e características de atitudes que vamos ganhando ao ouvir os outros.

Cada um carrega consigo esse conjunto de idéias sobre as pessoas e ao somá-las conseguimos um padrão razoável, mas jamais um perfil fiel. Agora com as novas histórias sobre esse fantástico personagem, percebo que temos muito mais em comum do que minha infância previa, mas esse é também o grande risco: criar a nova imagem como uma ilusão da vida de alguém que já se foi e que não temos como verificar. E os desejos de pertencimento que construimos podem não corresponder à realidade, caso ele estivesse vivo. Jamais saberei.

Sei que ele era quieto, observador, estudioso, inteligente e sorridente em algumas fotos. Mas sempre parecia à parte, como se estivesse esperando por alguma coisa que nunca acontecia. Mas, ainda estou pesquisando, observando, escrevendo e esperando, para também aprender mais.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

3 comentários

  1. me identifiquei com seu avô... sou meio assim e gosto desses seres à parte. Geralmente são as pessoas mais divertidas...

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  2. Legal sua preocupação em lembrar e manter uma memória viva. Como perdi o meu há pouco ficam as lembranças..
    Beijão
    Neila

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