Ficção inoportuna...

02:09

E cada passada de mão era só mais uma mão que passava por meu corpo. Só mais uma mão. Enquanto os desejos vinham como ondas fortes e eu me ancorava nas pedras, pensava que não era a mão que tinha que estar ali. E meu desejo esvanecia e parecia uma nuvem cinza. E eu voltava a acordar e sentir o pesadelo vivo daquele momento.

Enquanto ele dormia ao meu lado, eu me perguntava porque aquilo tudo acontecia. Me permiti deixar levar por um desconhecido para um caminho escuro que só eu tinha a chave, mas permiti também que ela sumisse por uns momentos. A menina que abriga esta mente perigosa estava mais acordada do que nunca. Desamparada, ela queria o telefone que nunca tocava. Só uma chamada e seria salva.

O telefone jamais tocou. Passou a noite em claro, tentando organizar os pensamentos e minimizar os danos. Ela percebeu, entretanto, que não poderia se enganar. Achou que, com toda a inteligência que ainda acredita ter, se deixou emburrecer por uns tempos e virou uma adolescente novamente. Ou seria aquele o momento em que estava deixando de ser? Sempre se chamando de menina, independente de toda a maturidade que aparenta, gostou do momento em que mais uma vez conseguiu se sentir sozinha.

Saí da cama. Não conseguia dormir e quando fechava os olhos, os pensamentos voavam ainda mais rápido. Lembranças da noite. Todo o desenrolar e a certeza de que dominaria tudo, mesmo quando se deixou levar pela saudade de outros beijos, beijando novamente. Mas não era novamente. O ato de beijar não queria dizer muito, eram bocas coladas, entrelaçadas as línguas, mas sem muito estímulo. Era a pessoa que faltava, mais presente do que nunca.

Na janela da sala ela pensava. Com um copo de água na mão, matava a ressaca de várias noites em uma só. Um silêncio no amanhecer e um sorriso de canto de boca. A independência é um amanhecer silencioso perto da praia.

Eu estava finalmente feliz de novo. O dia chegava, a noite acabava levando a desilusão embora. Talvez eu tenha perdido o que seria um amigo. Talvez, e muito mais provável, ele não seja nada e nunca queira ser nada e este era só mais um ideal romântico. Não sei se o que sinto agora é a perda da inocência, acho que ainda não.

Os pensamentos dela continuam a se contradizer. Ela faz análise dela mesma e agora tem onde gastar o tempo: as atividades intelectuais estão tomando corpo e finalmente consegue produzir. O tempo me distrai e me concentro no que seria um estudo prático, uma experiência profissional. Algumas noites ainda pesam.

O que mais machuca nisso tudo é o vazio, na verdade. Não importa a noite errada. Ainda que não tenha sido tão ruim, não foi boa e eu intimamente já esperava por isso. O que incomoda é essa realidade das relações sem sentido, sem motivo. Ainda conservo a inocência em mim, se ela for o cuidado e a necessidade de conhecer e gostar. Esta ilusão é necessária.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

4 comentários

  1. "A independência é um amanhecer silencioso perto da praia"... gostei disso. No mais, ainda quero entender o uso dos dois pronomes pessoais distintos. E depois, claro, a real...

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  2. Tati, eu diria que "O que incomoda é essa realidade" e a possibilidade não encarada das relações sem sentido, sem motivo.
    Adorei o texto. Quando o desejo é descrito e capturado com palavras tão simples e ao mesmo tempo tão expressivas...ele se revela em toda a sua densidade!
    ô désir qui fait tourner notre monde, sans toi qu´adviendrait-il de nous?

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  3. O bonito é ver essa inocência que ainda se conserva na essência, mas que revela uma maturidade.
    Lindo o texto!
    Neila

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  4. muito bom hermana!!!
    escreva mais assim babe..
    beeeeijo

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