13° Festival É Tudo Verdade

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Hoje foi meu último dia no Festival É Tudo Verdade deste ano. O que pude descobrir com os filmes que assisti só perde para a quantidade de idéias que apareceram nesse ínterim. Quando trabalhava em Salvador, estava muito longe do cinema, do fazer, ver, estudar, conhecer gente. Claro que aqui as oportunidades surgem com muito mais freqüência e facilidade e a conseqüência disso é que nossa cabeça começa a funcionar.

Conheço muita gente que não suporta o cinema brasileiro. Desse tanto, muito mais da metade não assiste documentário. De país nenhum. Uma outra parte diz que não é filme. Não vou defender o documentário aqui, acho que é um gênero importante como todos os outros, com suas características e não por isso mais pobre em relação aos demais. Mas este festival apenas de documentários tem uma riqueza de informações, formas, estéticas, que lota salas de cinema e provoca acirradas discussões, sobre seus temas e, mais importante, sobre a forma. Um dos problemas nas discussões sobre estes filmes é, muitas vezes, a importância é dada ao tema em detrimento do ponto de vista. Ainda assim, conseguimos alcançar o formato e estar mais perto da equipe e não do assunto.

Esta foi a noite de Procura-se e O aborto dos outros. Enquanto o primeiro tenta resgatar a memória de um artista, o outro trata da questão do aborto. O que estes dois filmes têm em comum é a coragem de seus autores, que defenderam perante um público crítico e, muitas vezes, chato, seu ponto de vista, sua soberania frente ao produto de suas criações tão originais.


Procura-se

Mário Rocha é um cantor dos anos 60, amigo de Wanderléa, um gênio da música psicodélica brasileira. Precursor dos Mutantes, Novos Baianos, Doces Bárbaros, do Tropicalismo e de qualquer manifestação artística musical do gênero, suas músicas e filmes em que aparece são sempre manifestações da vida hippie e, diria até, dos marginais artistas dos anos 70. O filme vem por depoimentos de amigos, familiares, contemporâneos, artistas, construir a imagem de um gênio esquecido e desaparecido do mundo.

Os filmes em super-8 que ajudam na composição desse documentário são todos datados e representam as manifestações de um aglomerado hippie que convivia com Mário. Vemos seu disco, ouvimos ensaios, conhecemos a família, até uma pessoa da platéia, quando foi sentar-se pra ver o filme, falou: vamos ver o filme do Mário, como uma amiga íntima ou conhecida de outros carnavais.

Tudo vai muito bem no filme de biografia, de conclusão de curso do pessoal da ECA, até que, quando chegamos nos minutos finais uma surpreendente reviravolta nos faz pensar que estamos num trote de 1° de Abril. Os créditos confirmam a brincadeira e o filme ganha dimensões ilimitadas, sorrisos e aplausos de muita adimração. A platéia, ainda incrédula, insiste nas perguntas sem querer ouvir a mesma resposta do jovem diretor. A pergunta que não ouvi foi: por quê você fez assim? Mas, acredito que a resposta que ele não precisou dar foi: Porque eu quis.

Ainda no debate, a cada nova pergunta eu ria mais e mais, surpresa com o final como todos, não posso dizer que escapei da brincadeira, mas compreendi e me diverti bastante. Nos olhares de todos para o diretor, uma mistura de admiração e incredulidade. Nos olhos do diretor para todos, a certeza de que o filme atingiu seu objetivo e um sorriso de canto de boca era percebido. E, aparentemente tranqüilo, vencia as perguntas do pessoal, ainda preocupados com o tema, que, no fim das contas, nem importava tanto.


O Aborto dos Outros

Sim, este é mais um filme de aborto. Não, ele não é polêmico. Diante de uma sala cheia, a única coisa que a diretora diz na abertura de seu filme é a mais desnecessária: conta uma história de uma amiga na adolescência que fez um aborto e ela a recriminou na época.

Há pouco tempo escrevi sobre 4 meses, 3 semanas e 2 dias, um filme romeno que trata do aborto clandestino que uma jovem realiza com a ajuda da amiga. Recém-lançado nos cinemas brasileiros, Juno, outra ficção, conta o caso de uma adolescente americana que engravida e resolve ter a criança e entregá-la para adoção. O tema da gravidez não programada é recorrente e suas razões são óbvias. Aqui no Brasil, onda há leis que proibem o aborto, muitas mulheres morrem por optarem fazê-lo na clandestinidade. As informações sobre as possibilidades de realizá-lo dentro da lei são escassas e poucas pessoas estão aptas a dá-las corretamente.

O Aborto dos Outros é um documentário que exibe e relata as experiências de mulheres que realizaram abortos em diferentes situações e por diversas razões. Encontramos também, depoimentos de médicos que concordam com o aborto e argumentam. Tirando a infelicidade da abertura na fala da diretora, seu filme é muito bem feito e sensível. Ao tempo que percebemos a dor das envolvidas e sua força e determinação no que vão fazer ou fizeram, nos incomodamos com a frieza dos procedimentos.

A idéia de correr o risco de engravidar e pensar na possibilidade do aborto é sempre uma questão delicada pra mim e, ainda que não tenha passado pela experiência, é recorrente em meus pensamentos. O procedimento do aborto me abala tanto quanto de um estupro. Imaginar a interrupção de uma vida, as dores físicas, o sofrimento do corpo é tão forte quanto a marca que deve ficar para a vida. E nesse filme, ver as pernas abertas das mulheres e saber o que vai acontecer, ver o líquido amniótico de uma adolescente escorrer por suas pernas e saber que a criança não vai nascer, é muito triste. Ver uma menina que, além de estuprada, vai fazer o aborto já é chocante o suficiente. Mas, ao mesmo tempo que lido com a agonia, sou atraída para o tema e, volta e meia, aparece um filme como esse e estou do lado para conhecer mais.

Dos aspectos fílmicos, só me incomodei com a ausência dos pares. Claro que não esperamos que o estuprador apareça ou que o marido violento participe, mas onde a culpa não é masculina e poderíamos ouvir sua voz, ela não aparece. Entendo que seja um filme de mulher, mas não precisamos calar a voz dos homens para tanto. Os únicos momentos em que eles estão são de depoimentos abalizados, médicos e professores. Sem querer pesar a importância das falas científicas num filme que tenta partir apenas dos processos e não da polêmica, o filme se fecha sem maiores problemas e nos encaminhamos ao debate.

Da minha parte, já estava satisfeita para ir pra casa, morrendo de frio e esperando as palavras finais, mas as mulheres defensoras da pátria amada resolveram falar mais e mais e, mais uma vez, os homens poucas vezes tiveram seu momento. Afinal, quem vai discutir um tema desses com várias participantes de órgãos de proteção às mulheres? Tudo ia bem, até que apareceu uma senhora que interpretou o filme sob uma ótica mais defensora da vida e ainda assim, a favor do aborto, que conseguiu confundir todos. E ela perguntava por que a diretora havia escolhido aqueles personagens, por que não outros, por que não fez daquele jeito e começou uma longa fala sobre, resumindo, por que a diretora não fez outro filme. Depois de muito ouvir, de pedir para que os exaltados se acalmassem e parassem de atirar pedras com olhares para esta senhora, a diretora respondeu: porque eu quis fazer assim. Palmas surtiram da platéia como um grande xelp à descontente senhora. Um outro garoto perguntou sobre ponto de vista, já que faltam falas no filme que sejam a favor da proibição total do aborto e uma resposta similar apareceu.

É uma pena que este debate tenha se perdido para seu conteúdo, mas temas polêmicos se sobressaem às formas, paciência. A única coisa que me deixa triste é idéia que ela deixou marcada no início de sua noite: que seu filme foi a redenção para a culpa que sentia por ter recriminado a amiga. Mas, ainda assim, vencer um debate com a coragem de defender uma obra tão autoral é sempre interessante, ainda que esperado.

No fim da noite já estava cansada pelos filmes e alegre pelos debates loucos, mas pude perceber que é cada vez mais forte a autoria presente nos documentários, a vontade de fazer e a simplicidade das abordagens. Não adianta querer abraçar o mundo com as mãos, como já disse aqui e estes dois documentaristas entenderam isso muito bem. A finalidade de um festival é essa, ampliar nossos horizontes para o ver, conhecer e fazer filmes. Descobrir novas idéias e entender que o universo da construção em cinema é muito amplo e ainda há talentos a serem descobertos, como esses dois e eu, que de repente me descubro por aí.

HISTÓRIAS SEMELHANTES

2 comentários

  1. muito bom o seu ponto de vista em relação ao documentario "O Aborto Dos Outros" e o debate posterior. Estava lá também e, assim como você, fiquei instigada e perplexa com as imagens paradoxais do filme e com o "nonsense" do debate.

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  2. Tati que bom que está envolvida no que gosta de fazer. Fico feliz por vc de verdade. Ando vendo mais filmes por aqui tb. E adoro ler suas críticas. Gosto do jeito que escreve, pois torna mais interessante. Vi ontem O Caçador de Pipas. Lindo. deu até vontade de escrever sobre mas não com olhar crítico de especialista q nem tenho conhecimento pra isso hahaha!
    Aproveita bastante as oportunidades!
    super beijo

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