Não estou lá

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A despeito do que meus amigos conhecedores de Bob Dylan me disseram acerca de seu filme, venci seus preconceitos com a minha ignorância e fui ao cinema. A conclusão que cheguei junto a meu companheiro de jornada cinematográfica foi a de que se fosse um filme sobre os Beatles, seria bem melhor. O problema não está em Bob Dylan e seu inquestionável talento, mas na lacuna de conhecimento sobre ele em minha trajetória. O que posso dizer do filme, portanto, concerne muito mais ao aspecto fílmico do que ao que tentou representar.

O filme trata principalmente do momento em que se acredita haver uma transição musical e de comportamento do cantor. É bem aquela música que Elis Regina canta, Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude, tá em casa, guardado por Deus, contando vil metal... E, enquanto vemos todos os atores que o interpretam se revezarem na tela para expressar seus motivos, o que notamos é que o problema não está simplesmente na transformação do estilo do artista, mas em uma mudança de pensamento ou no seu próprio descrédito em tudo, agora finalmente revelado e cuspido na frente de todos. E os atores, muito bem escolhidos e dirigidos, conseguem ser um único Bob Dylan, sendo todos controversos e absolutamente diferentes entre si, na fala, no comportamento, no olhar. Cada um expressa um momento na carreira do cantor – com os filhos, drogas, viagens, crença, reclusão – mas, alternados na sequencia lógica do filme, ao tempo que nos apresentam os vários aspectos de sua vida, se repetem na questão da aceitação popular, sempre alta e contraditória.

Para mim, cuja infância foi recheada de Beatles e Rolling Stones, Bob Dylan passou apenas nas coletânias de sucesso, como aquele cd que todo mundo tem para dizer que gosta e conhece. Aproveitando a deixa, relembro do trailer do filme do Martin Scorsese sobre os Stones a ser lançado em breve, que parece ser muito bom. Para quem pouco conhece Bob, como eu, fica um espaço vazio nos vai-e-véns da história, nos embates políticos e até nos personagens que o circundam. O que fica em segundo plano é mais assimilado e é a partir disso que vamos tecendo os reais motivos para conhecê-lo melhor. Bob Dylan é o cantor da geração Nixon e Kennedy, da Guerra do Vietnã, onde desacreditar em seu país era no mínimo, plausível, como hoje aliás, ainda é. Desde cedo, enfrentando politicamente as injustiças sociais com suas canções, acredito que ele não viu mais como seguir desta forma e, assim como o mundo mudava radicalmente, as músicas acompanhavam o ritmo. Elvis tinha passado, os Beatles foram contemporâneos e também controversos, a música norte-americana tomava outro rumo, assim como os idealismos e as ilusões que se desfaziam.

Conhecer um pouco a obra de Bob Dylan tem um aspecto positivo; ao passo que as músicas cobriam os eventos na tela, eu recordava um ou outro trecho e reconhecia a importância do cantor e sua qualidade musical e, ainda que não seja muito fã de sua voz, a harmonia entre música e letra se faz sempre natural. O filme é estranho, mas fez recordar Zelig, de Woody Allen, com a construção documental de um personagem que não existe ou existiu em vida. Acredito que Não estou lá procura criar um Bob Dylan a partir da compilação de vários momentos de sua vida, mas aglomera um emaranhado de confusões e os desavisados encontram monotonia e um eterno jogo de entendimento, para descobrir trechos de músicas em falas e momentos chaves de um artista admirado por todos.

Ainda que o roteiro se perca um pouco tentando abraçar o mundo com as mãos, temos que dar vivas a fotografia do filme, que, para cada Bob Dylan criou um conceito, com as atuações muito bem marcadas e coloridas devidamente. Assistimos a surpreendente transformação de Cate Blanchet, Cristian Bale e Ben Whishaw (lembram de O Perfume?) a lembranca do Heath Ledger, a manutenção da atuação de Richard Gere (que consegue ser o mesmo em todos os filmes) a trilha sonora, como não deixaria de ser e as supostas entrevistas documentais que, de tão bem feitas, parecem mais reais do que o filme, mesmo sendo mais falsas do que qualquer verdade dita por estes personagens. Acredito ainda que, ao contrário dos meus amigos conhecedores e seus preconceitos contra Cate Blanchet se tornar Bob Dylan, existe uma chance de se identificarem muito mais com o filme e com as histórias do que a minha ignorância impediu de associar. O maior demérito talvez seja esse, confundir os leigos e entregar a glória aos cultos.

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1 comentários

  1. Este filme foi capa da American Cinematographer de novembro.
    Eu vi o filme li a matéria. Nessa ordem mesmo. A minha opinião é que não é um filme fácil de se ver, mas fotograficamente impecável.
    Rodado em Super 35, Super 16 e Super 8 e em preto e branco de verdade. Vale a pena.

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