A Distorção da Narrativa*

14:15

As escolas de cinema ensinam roteiro traduzindo a idéia aristotélica de narrativa clássica, indicando que esta sempre acontecerá nos filmes porque somos fadados a produzir e compreender as obras de duração desta maneira. Porque nossa característica humana nos permite perceber o mundo sob a ótica indissociável do tempo, sendo este, naturalmente linear.

Onde então seria possível uma alteração desta ordem? As vanguardas cinematográficas investiram na ruptura dos tradicionalismos, mas poucas vezes conseguiram fugir à questão tempo. Percebemos as vanguardas sob o véu histórico de seus surgimentos, com seus desdobramentos em narrativas paralelas, na alteração da ordem de apresentação de presente, passado e futuro das estórias e buscando em sonhos uma forma diferente de contar. Ainda assim, a forma de compreender não se perde e é possível interligar as ações, ainda que fora de ordem e montar em linha, no cérebro, uma narrativa do que está se mostrando. Até hoje foi possível criar sentido diante de um caos pretendido pelos produtores destas obras de arte.

Um dos locais onde é possível não apenas a ruptura das narrativas, mas de qualquer motivação lógica direta é o universo dos sonhos. Aqui, ainda que busquemos após análises e estudos, os sentidos para o que vivenciamos no sono, podemos não os ter de todo. David Lynch é um dos investidores deste território da inconsciência, da subconsciência. É através dos sonhos e pelos sonhos que percebemos suas criações mais radicais e inovações narrativas. E nos sonhos, como a psicanálise explica, estão nossas verdades quase inalcançáveis, os medos, as fugas. O autor traz em sua filmografia imagens bizarras, caricaturas e tipos. O estranhamento e, por vezes, a aversão são sentimentos freqüentes a seus novos espectadores. Aos familiarizados, há sempre o duelo entre a atração e a repulsa. O estranhamento das situações surreais provoca a necessidade de compreender o que se vê. Veludo Azul, Cidade dos Sonhos, Twin Peaks, A Estrada Perdida e Coração Selvagem são alguns exemplos do que tratamos. Ainda que a narrativa pareça distorcida em contratempos dos personagens e diálogos a interpretar, conseguimos traçar um padrão narrativo e seguimos ao que é exibido, nos atrelando às estruturas-base apresentadas.

Em Inland Empire (2006), em português Império dos Sonhos, a combinação tradicional permanece. Personagens estranhos, diálogos aparentemente desconexos, seqüências sem ligação umas com as outras, ícones de medo. Em três horas, o espectador enfrenta o desafio de tentar compreender, de construir o percurso narrativo constantemente rompido. Agora, trabalhando com a tecnologia digital e executando muitas das funções de uma equipe de cinema – produtor, diretor, roteirista e editor – David Lynch ganhou sua liberdade criativa. Império dos Sonhos é a catarse da busca pela significação de quem o assiste, e do ápice para a interpretação de Laura Dern e dos radicalismos de seu diretor.

Peter Greenaway, diretor cujos trabalhos se inserem em alterações na linguagem fílmica tradicional, falou em entrevista recente que o cinema ainda está por vir, que o que entendemos hoje como a sétima arte não passa de expressão literária transformada em audiovisual. Ele assume, como Lynch agora pratica, que as inovações tecnológicas trarão o cinema para o que ele deve realmente ser, uma arte interativa e multimidiática. Os trabalhos atuais de Greenaway permeiam o eletrônico, como uma experiência de múltiplas interpretações e intervenções.

O cinema, estando em renascimento, surge aos olhos de Lynch como uma experiência estética, função primeira das artes. Ao que parece já ter sido verificado com o autor, a intenção não é provocar o entendimento completo do que propõe em seu último fillme, mas vivenciar as imagens, ter a oportunidade de conhecer o conjunto das cenas rodadas. Segundo Lynch, o filme é um conjunto de fragmentos de diversos curta-metragens rodados em outros tempos, montados hoje pelo autor. À primeira vista, é difícil compreender a ligação dos temas do filme, assim definidos:

Atriz em oportunidade de dar guinada na carreira participa de elenco de antigo projeto de filme inconcluso devido ao assassinato dos protagonistas;

Sitcom de uma família com gigantes cabeças de coelho e diálogos desconexos que provocam gargalhadas numa platéia que não é vista;

Uma mulher que chora em frente a um aparelho de televisão aparentemente sem antena.

Em intervalos que promoveriam as conexões entre os grandes temas há prostituição, assassinatos, poloneses falando sem tradução e um cenário que nos faz pensar em algum lugar na Polônia. No primeiro tema, percebemos Laura Dern como a atriz a ser reerguida de uma fraca carreira com um novo projeto. Sua vida pessoal se mistura com cenas do filme em produção e dos encontros com poloneses que ela parcamente compreende e parecem fazer parte da família de seu marido. Assumindo ainda que não os compreende,como os espectadores deste filme, tudo resulta na apreciação da imagem através da interpretação cênica, mas não de um conteúdo oral entendido. A visita inesperada de uma nova e suspeita vizinha à casa da protagonista inspira um início de filme mais plausível e apesar de existirem cenas anteriores – introdução do sitcom e mulher chorando em frente a uma televisão – acredita-se que iniciará aí a proposta lógica do filme. O sitcom inicial, entretanto, inaugura aos olhos familiarizados, mais um filme que romperá a narrativa fluida que vimos, por exemplo, em História Real, sua obra-exceção (A Straight Story trata da trajetória de um senhor que atravessa os Estados Unidos para visitar seu irmão enfermo. O filme é apresentado de forma simples, com a narrativa clássica).

Enquanto o espectador busca somar as seqüências para alcançar o significado, Lynch interrompe os processos lógicos em longas seqüências desconectadas. O espectador que enfrenta o desafio permanece no jogo, compreendendo que nem sempre será possível interligar semanticamente todas as seqüências, mas vivê-las esteticamente, como acontece nas obras de arte sem duração. Feito esse acordo, sustos são garantidos e sensações estranhas percorrem o corpo, vide as cenas de assassinato e o desenvolvimento do personagem marido de Laura Dern.

Rodado em digital e transformado para 35mm, os típicos planos abertos perdem espaço para planos-detalhe, em iluminação que mescla o noir com o terror psicológico. Não havendo muitos sustos de alterações sonoras, o que encontramos é a imprevisibilidade das imagens do por vir, de seqüências carregadas dramaticamente e da justificativa para atores fortes que dominem as cenas, pois o que mais importa neste filme são as impressões que vemos de Laura Dern, por exemplo, enquanto alguém que está a descobrir o sentido do que lhe acontece, um pouco como nós, ao assistir o filme. Com tantas cenas desconjugadas, tantas imagens a executar e absorver com o desnorteamento constante, o filme só nos permite um desejo: deliciar-se com sua própria embriaguez e a promessa de assistir de novo, como um desafio a novas descobertas.

À função narrativa do cinema, cabe esperar pelo declínio final da literatura ilustrada de Greenaway e embarcar em suas performances de vj, atravessar os percursos visuais de Lynch sem se importar com o contar, mas com o sentir, ou perceber que estas podem ser as novas vanguardas que tentarão se firmar enquanto uma vertente do cinema independente com o universo da tecnologia digital a seu favor. Ao espectador, a fruição; ser agraciado com a diversidade que a as artes permitem e participar delas. Que o desafio de transformar a narrativa torne-se a mola propulsora da inovação artística do cinema, garantindo novas interpretações e teorias, e, acima de tudo, descobrindo outras formas de contar e assim, de ensinar cinema.

*Isso e muito mais no Drops de Anis :)

HISTÓRIAS SEMELHANTES

1 comentários

  1. Velho, excelente retorno do Drops. Texto envolvente, incisivo, gostoso de ler. Achei massa!

    beijo

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