As aventuras da mulher independente: Equinócio


Saí da casa do rapaz e parei nas lojas americanas, a caminho do metrô para casa. Era fim da manhã de um feriado e dessas noites de improviso, quando desejamos ser um pouco mais do que nosso dia a dia permite.

Três calcinhas de algodão, uma ampola de hidratação para o cabelo, um pacote de amendoim japonês e o para sempre aguardado liquidificador. Com jarra de vidro e base de inox. Surpreendentemente barato e até agora já foram duas palavras imensas de escrever.

A noite foi divertida e terminou conforme o esperado, justificando a escova de dente na bolsa pequena. Mas, como já aconteceu outras vezes com o rapaz, foi uma noite eventual, um reencontro animado como o bloco de carnaval que nos atravessou à noite, um equinócio. A intimidade é muita para os anos de interlúdio e amizade colorida, e nenhuma ao mesmo tempo, já que não somos frequentes no cotidiano. Deixamos a casa, ele para a bicicleta e eu para o liquidificador — como se aquele monte de confidências de horas antes estivesse arquivada para a próxima estação ou descartada, como a embalagem do queijo minas que comemos no café da manhã. Não como queijo sempre, seria mais uma exceção daquele momento, já que ainda vinha com torradas, tomate cereja e café preto. Tudo era novidade e repetição.

Cheguei em casa estranha, mas feliz, com o liquidificador de base inox e jarra de vidro, três calcinhas de algodão para lavar, o amendoim japonês para alguma visita e uma renovação capilar aguardando o próximo banho. A sensação estranha se diluiu durante as horas e terminou em um encontro de amigos no boteco de sempre.

Ainda não sei se espero o próximo equinócio, se me interessa essa vida de intervalos curtos e intensos — o clichê do palito de fósforo. O queijo, entretanto, ficou na lembrança e comprei um pedaço da mesma marca no supermercado. Pequeno, só para sentir o gosto bom e não deixar o inevitável enjoo de horas.

*Imagem de Cinzia Bolognesi
*publicado originalmente no Medium, em 2017.

Um parêntese para dois Mestres


No dia dois de fevereiro de 2014 um dos meus mestres se foi. Virou luz, foi pro céu, virou poeira e terra, natureza. Não importa a crença. Ele é, ao mesmo tempo, imortal em suas obras, por suas obras, através delas. Eduardo Coutinho foi um dos maiores documentaristas de todos os tempos e do mundo, sem exagero. 

A falta foi tanta, que lhe escrevi sobre aquele mesmo dia, tão bonito e pacífico em Salvador - Dia de Yemanjá -  tão brutal foi aqui no Rio. Essa aqui é minha homenagem e saudade.

Teve também esse, depois que eu li os livros de Svetlana Aleksiévitch e acho que eles têm um trabalho que se comunica bem e busca objetivos similares com o mesmo afeto, cuidado e qualidade. Svetlana virou Nobel nos últimos anos e cada livro dela poderia ser um filme dele.

Tiveram outros textos e menções ao mestre, não seria de outra forma, mas também tem essas impressões de Canções, um de seus filmes mais gostosos. Vale a leitura.

O título é sobre dois mestres, porque lembrei de outro. Um professor que virou amigo, mas sempre foi orientador da vida, das teorias, do cinema. Mohamed Bamba também nos deixou cedo demais e hoje o facebook o trouxe como uma lembrança, uma publicação minha justamente falando de Coutinho que ele generosamente compartilhou. Muitas saudades de Bamba, daquelas que o tempo não apaga, mas deixa um sorriso das lembranças felizes.

Maravilhosidades da Netflix 03.2019

Qual não foi minha ilusão em achar que conseguiria dar conta da vida e da programação televisiva de forma a publicar um por semana? Agora parei e vou deixar apenas numerado aqui pra facilitar a indexação :)

Segue as dicas da ressaca de uma semana caótica no Rio de Janeiro e outra ainda mais estranha que segue começando.

A NOITE DE DOZE ANOS
A noite de doze anos || Álvaro Brechner - 2018 || 122 min
Uruguai, anos 70. O país é mais um que atravessou anos de chumbo na América Latina e, como tal, encontrou repressores militares e vítimas subversivas. José Mujica (se tornou um dos melhores presidentes que esse planeta viu), Mauricio Rosencof e Eleuterio Fernandez Huidobro foram três militantes Tupumaros presos e encarcerados em um regime especial do período obscuro de seu país. De quando foram levados do presídio comum até sua liberdade, foram 12 anos sem paradeiro, sem sol, sem vida e à beira da loucura. O filme é imenso e não por trazer apenas os personagens, mas pela forma de contar a história, com uma beleza, relevância e honestidade dignas de prêmios. Emocionante, nos faz pensar sobre o tempo que vivemos hoje. Não deixe de ver.

Aqui seguem duas matérias, en español sobre o filme, no Hacerse la critica e no Lamás Médula

O LABIRINTO DO FAUNO
O labirinto do fauno || Guillermo del Toro - 2006 || 118 min
Do aclamado diretor de A Forma da Água (que, para mim não é grandes coisas), este é um grande filme. Carrega uma fantasia que faz parte da filmografia do diretor, com toques de crueldade condizentes com a trama. É um filme bem equilibrado, com uma fotografia esplêndida e direção de arte sem igual. Merece todo o destaque e nem parece que já vai fazer treze anos. O filme conta a história de uma garota que, ao fugir de um pai tirano na Espanha dos anos 40, se perde em meio à floresta e encontra um universo diferente e desafiador. Levou três Oscar e quase cem outros prêmios.

FIVE CAME BACK
Five came back || Laurent Bouzereau - 2017 || 60 min/eps
Baseado no livro de Mark Harris e adaptado para a tv pelo mesmo, esta minissérie de três episódios conta as histórias das participações de John Huston, John Ford, Frank Capra, William Wyler e George Stevens na produção de filmes durante a Segunda Guerra Mundial. Os cinco, os maiores diretores do cinema de ficção da época, se alistaram para o exército americano e, ao verem a potência da propaganda nazista - quem não conhece, pesquise sobre Leni Riefenstahl e seu Triunfo da Vontade (1935) - entraram em 'campanha' para alimentar o moral e impulsionar a garra pela vitória dos Aliados. Documentário interessante, traz depoimentos e imagens dos filmes de todos eles e de grandes diretores do cinema americano e mundial sobre o período, com informações que poucos teriam acesso de outra maneira. Um pouco 'para os fãs de cinema', mas bastante interessante para entender as personalidades de cada mestre, seus engajamentos, diferentes produções e alcances que seus filmes tiveram. 

Maravilhosidades da Netflix 02.2019

Eis a segunda semana das Maravilhosidades, agora com três indicações que, inconscientemente, trouxeram personagens importantes e marcantes em suas trajetórias. São três bons filmes, um é com certeza 'obra de arte' e pronto, chega de suspense!

Moonlight
Moonlight: sob a luz do luar || Barry Jenkins - 2016 || 111 min
Parece que 2016 foi ontem, quando esse filme vem à mente. As impressões sobre ele ainda estão latentes e o que aparece primeiro é um sentimento e depois a realização de que estamos vendo uma obra prima. Barry Jenkins conseguiu um elenco sem igual, um filme que toca em um sem fim de temas sensíveis e, por isso, universal. Eu não consigo ver um defeito nele, honestamente. É um dos melhores filmes da minha vida e em todos os aspectos: dramaturgia, fotografia, som, roteiro, direção. Se não viu ainda, vai correndo. Não dá nem vontade de ficar falando sobre ele, nem veja o trailer, tenta aproveitar em primeira mão, com uma impressão fresca e virgem.


Ícaro
Ícaro || Bryan Fogel - 2017 || 120 min
Esse é um filme inesperado. O documentário atinge uma das premissas clássicas do 'gênero', que é a imprevisibilidade. A ideia é simples: Bryan Fogel, diretor, roteirista e protagonista é também ciclista amador e quer entender de que forma o uso do doping passou, durante muitos anos, despercebido pela mídia e organizações olímpicas e de esportes. Ele treina e compara suas performances antes e depois e, usando o doping em si mesmo, e acaba descobrindo uma máfia enorme e as estratégias reais de como burlar o sistema. Impressionante, com consequências e desdobramentos que não parecem ser o mote inicial e sim a consequência do 'fazer do filme'. Tenso, polêmico e interessante. Levou o Oscar e o Sundance de documentário em 2018.


A garota dinamarquesa
A garota dinamarquesa || Tom Hooper - 2015 || 119 min
Pense que é o mesmo diretor de O Discurso do Rei (2010) e Os Miseráveis (2012). Acho difícil realmente alguém não ter visto esse, o que não inviabiliza ver de novo, aproveitando a disponibilidade na Netflix e a infeliz e quase extinção de videolocadoras. Lili (Eddie Redmayne) e Elba (Alicia Vikander) são esse casal que ultrapassa as barreiras sociais em um emaranhado de questões sobre transgênero, tolerância e sexualidade. Nos tempos quase sombrios que vivemos, vale ver esse respiro de esperança, resistência e amor, ainda que envolto em um drama. Baseado em fatos reais, levou trinta e um prêmios pelo mundo, entre eles o melhor atriz coadjuvante para Vikander.

Maravilhosidades da Netflix 01.2019

Parece mentira, mas sim, voltamos com as Maravilhosidades semanais, com o Café de cara nova e com a inclusão de toda uma vida literária que acontecia no Medium, em português e inglês. O plano para 2019 é focar, então fica tudo agora aqui, junto, misturado e organizado. Vai dar certo (eu acho)!

As Maravilhosidades também mudaram, porque, com o trabalho, a pós, os contos, críticas e crônicas, não está sendo fácil. Continuaremos semanais, mas com três dicas especialíssimas como sempre e diversas, porque ninguém vive só de comédia romântica, documentário e grandes diretores. ;)
Agora chega de falação e segue a primeira edição deste ano desafiador:

Roma
Roma || Alfonso Cuarón - 2018 || 135 min
Cuarón estava inspirado com esse. O diretor de E sua mãe também (2001), Filhos da Esperança (2006) e Gravidade (2013), não apenas dirigiu esse, como foi co-editor, fotógrafo e roteirista. A fotografia em preto e branco impressiona, o apuro visual dos enquadramentos e suas sequências são de tirar o fôlego ao mesmo tempo que instituem um tempo diferente do olhar. E ainda, realizando o segundo desafio maior de um cineasta (o primeiro seria filmar em plano-sequência): filmar na ordem dos acontecimentos.

Estamos falando da Cidade do México no início dos anos 70, com uma turbulência social iminente e e se espalhando pelas ruas e as velhas tradições encontrando as transformações sociais em uma casa de classe média. O protagonismo está na empregada doméstica Cléo: uma mulher jovem, que vem do interior do país para morar na casa, nada diferente do que nos aconteceu por anos no Brasil. O filme é magnífico, a atriz Yalitza Aparicio havia acabado de se formar como professora e após quase um ano definindo o elenco, o diretor a encontrou. O filme é uma produção original da Netflix e acaba de levar os Globos de Ouro de melhor filme, melhor diretor e roteiro. Não tenha dúvidas, vale a experiência. Só não espere nada muito americano aqui, a pegada é outra.

Bônus: entrevista de cinco minutos em inglês, com Cuarón e vários convidados ilustríssimos.

The lobster
The Lobster || Yorgo Lanthimos - 2015 || 119 min
Não sei se todo mundo percebeu esse filme chegando em dezembro do recém-finado 2018. Ele é estranho, porque a estranheza faz parte de sua estética e de tudo o que propõe, o que o torna ainda mais interessante. Colin Farrell é um recém-divorciado que se hospeda em um hotel e precisa encontrar um novo par ou será transformado em um animal. Rachel Weisz é uma mulher cegamente apaixonada.

É o apocalipse para as pessoas solteiras, a solidão é uma ameaça à vida humana e precisa ser combatida a todo custo. Um dos filmes mais críticos, interessantes e inteligentes de 2015, levou a Palma de Ouro e outros 33 prêmios pelo mundo. Vale cada minuto e carrega grande elenco.
Ainda em dúvida? Veja o trailer!

Marie Kondo
Ordem na casa, com Marie Kondo || Marie Kondo - 2019 || 40 min/eps
Correndo o risco de apanhar aqui, a série é interessante, juro! Marie Kondo é uma escritora e consultora de arrumação (organizadora, se preferir) japonesa. Ela lançou alguns livros que viraram best sellers instantaneamente e ainda tem um canal no Youtube. Agora entra na Netflix com essa série fofa e até curta acerca do mesmo macro tema: organizar a casa para viver melhor. Parece simples e óbvio, mas levanta questões. Para quem é adepto de uma cultura minimalista, menos consumista, talvez não veja grandes novidades, mas vale pelo menos, para pegar umas dicas.

Arrisco dizer até que não precisa ver todos os episódios, mas é legal acompanhar os primeiros e entender o porquê do sucesso dessa moça, como suas ideias simples te levam a refletir sobre seu modo de viver com o que você tem - de bens a familiares e amigos. Tudo o que você tem lhe traz alegria? Antes de reclamar comigo por indicar uma série que parece auto-ajuda + qualquer outra de arrumação, dá uma chance. E, qualquer coisa, investe no documentário já indicado aqui, Minimalismo.