18 de agosto de 2015

Hitchcock / Truffaut

Em comemoração ao aniversário do mestre, segue agora um trechinho da resenha publicada no Blah Cultural! sobre o livro mais interessante e gostoso de ler acerca de sua filmografia, discutida em detalhes com ninguém menos que François Truffaut. um dos mestres da Nouvelle Vague. 
***
O cinema é a arte da sedução. Voyeur por natureza, assim também nos tornamos quando vamos à sala escura, sem que nos vejam direito, assistir a alguém, a alguma história no conforto do anonimato. Alfred Hitchcock soube se utilizar deste nosso fetiche e sempre trabalhou em prol do público, seja para assustá-lo, seja para lhe trazer algum alívio. François Truffaut, também cineasta de renome e crítico francês, entendeu o controle hitchcockiano como uma qualidade única – e está certo nisso – propondo uma série de entrevistas com o mestre do suspense sobre sua filmografia. Em 1967 sai o mais emblemático livro sobre Hitchcock e em certa medida sobre Truffaut e o fazer cinema, traduzido no Brasil como HITCHCOCK / TRUFFAUT. Saiba mais lá no Blah! :)

16 de agosto de 2015

Psicose

 
Psicose é um filme maravilhoso. Eu sei, não dá pra aceitar a frase como síntese de crítica, mas poderia parar por aí e pedir pra verem o filme. Hitchcock conseguiu aqui fazer uma obra para pessoas do Cinema que analisam, vivem, trabalham no ramo e ainda conquistou o público, controlando suas emoções num crescente a cada sequência até o final, com uma última cena perversa e sedutora ao mesmo tempo.

Assisti novamente esta semana. Tinha visto algumas vezes e, apesar de gostar muito, não é meu preferido – fico entre Janela Indiscreta e Os Pássaros. Depois de reler Hitchcock/Truffaut, relembrei dos detalhes da produção e entendi o cuidado e a inteligência por trás de tudo. Rodado com 800 mil dólares e tendo retorno (dados de 1967), de 18 milhões (hoje: 50 milhões), é um dos mais rentáveis já feitos pelo diretor. Mas a questão não é sobre o dinheiro, mas sobre o sucesso de um filme cuja cena mais emblemática acontece aos 40 minutos e ainda assim, não se viu nenhum espectador sair da sala depois disso. E olha que a maioria já sabia o que ia acontecer – e Hitchcock ainda os proibiu de entrar nas sessões depois do filme iniciado.

O segredo está justamente em sua construção. Analisando a estrutura do roteiro, descobrimos a relevância da obra que parte de uma história simples, com personagens que à primeira vista, não nos conquistam. Não queremos que Marion seja pega, mas também não somos apaixonados por ela. Não queremos que o assassino seja descoberto – e olha que ele matou a heroína – mas também, até o final ficamos naquela dúvida, inclusive sobre a atuação de Anthony Perkins. Depois, vendo com calma, amaremos aquele sorriso para sempre. Independentemente da nossa pouca relação com os protagonistas e seus coadjuvantes, e, mesmo que todos os espectadores tenham ido ver o filme pela  cena do chuveiro, ela não é o principal ponto alto da trama. Para quem não viu, Psicose conta a história de Marion Crane (Janet Leigh), que rouba de seu chefe 40 mil dólares e foge. Para passar uma noite longe de suspeitas e descansar, se hospeda no Bates Motel, um hotel de beira de estrada quase abandonado. Lá conhece o proprietário Norman Bates (Anthony Perkins) e é assassinada. A partir disso, a história se desenvolve num ritmo tal, que outras cenas também ficarão em nossas mentes para toda a eternidade, consolidando o status de obra-prima. Mas não conto o clímax.
Com dois acordes de Bernard Herrmann – compositor das trilhas de Hitchcock – nunca mais conseguiremos tomar banho de chuveiro com a cortina fechada e ficar tranquilos. Sempre trancaremos a porta do banheiro e checaremos, como quem não quer nada. Esta sequência foi rodada em uma semana e fizeram setenta posições de câmera para seus 45 segundos finais. Hitchcock sempre fez uso de storyboards e era obcecado pelo controle do que fazia de tal forma que preferia recriar ambientes externos inteiros a fechar ruas, preocupado com os imprevistos. Da mesma forma, quase não permitia que os atores saíssem do roteiro ou improvisassem – era conhecido por ser linha dura, fazendo as atrizes sofrerem com seus detalhes minuciosos.

Como O Exorcista, que é assustador por sua invocação do mal e insistir na teoria do diabo no corpo em uma menina inocente, criando terror em nós por muitos anos, Psicose marca pela crueza do assassinato, contrastando com a natureza pacífica de quem o comete. Não há tanto sangue, mas uma estranheza na relação de Norman com a mãe, no hotel vazio, nas aves empalhadas com olhar inquisidor na sala da recepção. Enquanto isso, a montagem calculada com a trilha sonora, atingindo seu ápice nos crimes e premeditações (as trilhas dos filmes de Hitchcock por si só, já valem um estudo), as tentativas de defesa das vítimas e o assassino como uma sombra de um personagem que só ouvimos a voz sem conhecer o rosto, são de uma violência que nos atinge muito mais do que os filmes policiais de hoje. Talvez o segredo esteja aí: este filme nos faz imaginar, nos deixa no lugar de Marion e de Norman, nos deixa como possíveis vítimas de um atentado que nos toma de assalto e permanece em nós.

Truffaut amava Hitchcock. Como eu, considerava o diretor um mestre mas, por fazer filmes de suspense, não recebia o devido crédito da crítica, que tem uma predileção por filmes não comerciais. Assim, além de conhecer em detalhes o pensamento criativo daquele, Truffaut queria justificar sua relevância para a cultura cinematográfica, mostrando que o lucro pode estar relacionado com uma preocupação estética, de linguagem e forma. Segundo Antoine de Baecque em seu Cinefilia (outro livro maravilhoso, sobre a Cinefilia na França do pós-guerra), Truffaut buscava quase a fórceps, com argumentos e fotogramas quadro a quadro de algumas sequências, deixar claro para o leitor que vale a pena dedicar um tempo para entender a grandiosidade da filmografia desse inglês que gosta de aparecer (e aparece mesmo, em todos os seus filmes, olha ele aí).
O mestre não dobrou a crítica com Psicose, mas sente um orgulho imenso do resultado: em Psicose, o tema me importa pouco, o que me importa é que a montagem dos fragmentos do filme, a fotografia, a trilha sonora e tudo o que é puramente técnico conseguiram arrancar berros do público. E agora, ele dá o golpe de misericórdia: creio que para nós é uma grande satisfação usar a arte cinematográfica para criar uma emoção de massa. (...) Não foi uma mensagem que intrigou o público. Não foi uma grande interpretação que transtornou o público. Não era um romance muito apreciado que cativou o público. O que emocionou o público foi o filme puro.

Por conjugar uma técnica fascinante a um roteiro bem amarrado, os trabalhadores do cinema são também aficionados por ele, que insiste: é um filme que pertence a nós, cineastas, a você e a mim, mais do que todos os filmes que fiz (porque ali era possível falar tecnicamente, discutir abordagens, movimentos de câmera, ângulos e corte, era uma conversa entre diretores). Eu não conseguiria ter com ninguém uma verdadeira discussão sobre esse filme nos termos que estamos empregando neste momento. As pessoas dirão: “Não era uma coisa para se filmar, o tema era horroroso, os protagonistas pequenos, não havia personagens.” Claro, mas o modo de construir a história e de contá-la levou o público a reagir de um modo emocional. É como aprendemos na escola: o que importa é a forma.

O encantamento com o filme é tal – e nem tratamos da temática voyeur, perversão, doença mental, moral, mulher independente nos anos 60, a primeira sequência do filme, etc – que vimos uma refilmagem supostamente plano-a-plano – incipiente – de Gus Van Sant em 1998 e agora, lançado em 2012, uma ficção também fraca sobre os bastidores da produção do clássico, intitulada Hitchcock. O canal A&E lançou em 2013, Bates Motel, série sobre a adolescência de Norman e a relação com a mãe, hoje na terceira temporada (com mais 2 confirmadas). Esta é mais interessante do que os filmes, mas nenhum se compara ao clássico. O fato é que Psicose despertou tantos e diversos olhares que se tornou uma referência para o gênero, é homenageado em não sei quantos filmes, artigos, ensaios fotográficos e figura em qualquer lista de melhores do mundo (como Os Incompreendidos, de Truffaut).É, portanto, imperdível, e um grande programa para esta noite.
Passei um tempo lendo literatura e folheando livros de cinema. De uns meses pra cá, virei a chave novamente e vi que havia deixado algumas coisas pra trás. Precisava estudar. Assim, aproveitando a exposição de Truffaut e o aniversário de Hitchcock, comecei a reler as entrevistas, que são uma forma de prazer egoísta que me prende feliz em casa e faz querer copiar tudo aqui, para compartilhar a emoção de reencontrar velhos amigos. Dá vontade de estar ali, como uma mosquinha no canto, só para ouvir os detalhes das conversas, as discussões sobre técnica, teoria, brincadeiras e experiências de vida e cinema dos dois. Reler é relembrar as formas de fazer, reavaliar o que produzimos, rever os filmes, ampliar o olhar. Talvez agora os textos saiam um pouco mais compridos e preocupados não apenas com história – lembrando a provocação de Hitch – mas como técnica e argumentos teóricos mais embasados. Vou tentar deixá-los fluidos, gostosos e quentes como café, como de costume.

Para quem é curioso, tá fácil de achar:
·         Psicose (1960) - Netflix;
·         Psicose (remake 1998) – Popcorn Time;
·         Hitchcock (2012) – Popcorn Time;
·         Bates Motel (2013) – Netflix.
*Ainda no Popcorn Time há sequencias de Psicose, que devem ser assustadoras pela má qualidade, mas ambas levam Anthony Perkins como Norman Bates. Vá com cautela (eu não vi).

12 de agosto de 2015

Os incompreendidos

 
Dei a sorte de estar em São Paulo semana passada e passei no MIS – Museu da Imagem e do Som*, para ver a exposição de Truffaut. Coisas de quem é fissurado e nerd, mas a exposição vale a pena para quem curte o diretor, a Nouvelle Vague ou simplesmente, cinema.

François Truffaut** foi o parceiro de Jean-Luc Godard e mais alguns outros na abertura da Nouvelle Vague. O movimento cinematográfico francês dos anos 60 aconteceu não por acaso, na mesma década de nosso Cinema Novo e um pouquinho depois do Neo-realismo italiano. É a década das transformações de comportamento e cultura no mundo e o cinema é a arte que expressa isso de forma mais direta a seu público. Vale a pena a exposição para saber mais também sobre a Nouvelle e seus fundadores.

O diretor e crítico de cinema era fissurado por Hitchcock de tal forma que fez alguns suspenses – acabo de lembrar Woody Allen fazendo dramas a lá Bergman – e uma série de entrevistas com o mestre, culminando em um livro fantástico e indispensável, Hitchcock / Truffaut. Fizeram ainda um documentário sobre os dois, que sairá este ano. Ele trabalhou assiduamente na revista mais importante da crítica cinematográfica da França e, por muito tempo, do pensamento sobre cinema no mundo, a Cahiers du Cinéma, fundada por André Bazin, mestre teórico desta geração. Para além dessa conversa toda, o que importa é que acabo de rever Os Incompreendidos.

O filme de 1959 é inaugural para a nova estética do cinema francês de então. À primeira vista você não entende bem sua relevância, mas sente algo diferente quando o assiste. É a história de um garoto de 14 anos, que tem em casa a displicência e falta de cuidado, educação e carinho dos pais, na escola o tratamento abusivo de professores autoritários e, com isso, inicia uma carreira de pequenos delitos por onde passa. Antoine Doinel, cujo crescimento do personagem – e do ator, Jean-Paul Léaud – vai permear a filmografia do diretor, é extremamente complexo e humano em construção, como o retrato de um jovem inocente que parece ser atropelado pelas circunstâncias e vê nestas oportunidades desviantes uma saída para viver. A parceria de Truffaut - Léaud se fundiu não apenas nas filmografias, como nas personalidades. Não era incomum acreditarem serem os dois apenas um, ou que o jovem Léaud fosse filho do cineasta.

Os incompreendidos é um filme para ser revisto de tempos em tempos. Como alguns poucos outros, de vez em quando bate uma saudade, como se devêssemos reencontrar velhos amigos e ter a certeza de momentos especiais. Acontece a mesma coisa com Manhattan (Woody Allen) e Acossado (outro fundamental da Nouvelle, lançado logo depois e a estreia de Godard). Assisti outro dia o documentário sobre Woody Allen, e notei que ele e Truffaut dizem algo parecido, sobre como é maravilhoso viver realizando os próprios sonhos. Talvez não tenha sido tão romântico como conto, mas ter liberdade para produzir o que se imagina é suficiente. Truffaut disse***: eis porque sou o mais feliz dos homens: realizo meus sonhos e sou pago pra isso. Sou diretor de cinema. Fazer um filme é melhorar a vida, organizá-la à sua maneira, é prolongar as brincadeiras de infância, construir um objeto que é ao mesmo tempo um brinquedo inédito e um vaso onde disporemos, como se se tratasse de um buquê de flores, as ideias que temos em determinado momento ou de forma permanente***.

Mas o filme é ainda mais do que essa vontade de rever. Ele trata da adolescência universalizando o tema; conseguimos ver um pouco do Pequeno Nicolau e de Coração (livro, Edmondo de Amicis) nos momentos mais leves, nas salas de aula e nas relações com os colegas de classe. O registro quase documental – e aqui Truffaut reclamaria, já que a não-ficção não é pra ele – inaugura essa dramaturgia do que parece simples e natural, quando as atuações são tão orgânicas que ali não parecem personagens, mas pessoas do cotidiano. É o olhar voltado para um cinema sem firulas, envolto numa perspectiva de mudança, como seus planos de câmera e montagem insinuam. Talvez essa fluidez venha da experiência de vida do diretor, que conheceu os reformatórios de perto, bem como a juventude um tanto infeliz. O filme de 99 minutos dura muito menos do que parece e nos apegamos tanto a Antoine que quando acaba, ficamos à espera de uma sequencia que nunca aconteceu (que o diretor se arrependeu de não ter feito).


Les 400 coups (título original) se traduz como os 400 golpes (expressão similar ao nosso ‘pintar o sete’) e soa metafórico para as artimanhas do jovem, que pratica seus golpes como uma reação aos que recebe da sociedade e de sua família. Em português, a tradução soa mais poética, Os incompreendidos e também correta. Vemos um retrato da cidade da forma que não estamos acostumados e que nos toma um tempo para entender, só sabemos ser Paris pelos créditos de abertura, com a base da torre Eiffel sem vê-la por completo, como se aqui não fosse possível alcançar o céu. O mesmo vale para Antoine e mais uma vez o filme vence; talvez vejamos pouco na vida e no cinema atuais os maus tratos escolares, mas a de nosso herói e seus desdobramentos seguem atemporais. A identificação com aquele jovem não nos toma por completo, mas um fragmento já é suficiente para nos remeter ao que vivemos. E daí vem a saudade e a eterna vontade de voltar ali.

*Link para o MIS – a exposição segue em São Paulo até outubro.

**François Truffaut é um destes gênios do cinema. Pro nosso azar, morreu cedo demais, mas deixou uma filmografia digna de respeito e prazer para nós. Dá uma olhada aqui, que quase tudo vale a pena. Mesmo tendo nos deixado em 84, quando eu tinha um ano, ele é considerado um mestre atemporal, do quilate de Kubrick, Scorsese, Godard, Capra, Allen, Kurosawa, Glauber. Dá muita vontade de escrever mais sobre ele, passar horas lendo seus livros e artigos, vendo seus filmes ou, simplesmente, enchendo o saco dos amigos com essas conversas. J

***Livro:  O prazer dos olhos – François Truffaut. Editora Zahar.

9 de agosto de 2015

Dia dos Pais


Hoje é um daqueles dias que escolhemos para homenagear alguém. Agora é a vez de nossos pais, co-responsáveis por nossa existência, com sorte por nossa educação, formação e o que mais for possível.

Eu fui muito feliz nesse quesito. Tenho um pai que não poderia amar mais, simplesmente porque não cabe. Como minha mãe, ele me deu educação, caráter, aqueles conceitos de bom e mal, certo e errado que vêm junto com a bagagem de vida dele(s), e que funcionaram bem comigo.

Meu pai teve a mim e a minha irmã, duas meninas e ainda assim, não nos mimou para sermos princesas, quiçá para esperar príncipes em carruagens. Ao contrário, nos criou como seres humanos, dotados de inteligência e curiosidade, responsabilidade, cuidado e respeito pelo outro, quem quer que seja. Colocamos a mão na massa para o que for necessário: na saúde e na doença, nas tristezas e alegrias. Somos um núcleo separado geograficamente, mas sólido como aqueles seres unicelulares da biologia. Sabemos lavar, passar e cozinhar, fazer mercado, pagar contas, ler, escrever e pensar. Graças a eles. Nossa bagagem cultural é diversa por formação, tamanha a diferença entre as famílias materna e paterna, mas é uma boa mistura – dá uma diluída nas realidades de cada contexto e nos deixa mais críticas e paradoxais. Como toda grande família, a nossa também é um caos.

Somos quatro partes de um todo, inseridos em círculos maiores, mas concentrados na velha unidade familiar. Tenho sorte de ter esse jovem ao meu lado, de contar piadas, de vê-lo contando outras não engraçadas e rir assim mesmo, porque é engraçado só de ouvir. É bom falar com ele sobre política, é interessante ouvir as opiniões sobre os filmes que eu gosto e que ele não vê o porquê e trocamos argumentos, é sempre um desafio gostoso indicar filmes e é maravilhoso quando acerto. É massa viajar e contar para ele como foi, ele esquecer tudo e meses mais tarde, depois de ver um documentário na tv, me indicar o lugar pra ir. É bom sair pra almoçar, quase esperando dar errado, pra ouvir ele falar ‘que nunca mais bota os pés ali’ e mais oitocentas histórias que valem contar mais tarde, pra uma turma bem menor do que essa, na verdade.

Meu pai é médico e quando eu era criança, era como ter um super-herói em casa. Ele era e é estressado com um monte de coisas, com o planeta, com o Brasil, com todas as injustiças e, como nós, está cansado dessa maluquice toda. Mas é porque ele tem um coração imenso – como minha mãe e minha irmã também, nossa família é toda coração – e sofremos juntos com as barbaridades. Mas ele, agora pensando, continua herói e pai não só meu, mas de muita gente e não das histórias em quadrinhos, mas da vida, é uma referência de pessoa que carrego sempre comigo e cujas lições procuro manter e seguir.

Meu pai odeia redes sociais. Por isso, para arrumar mais um motivo para colocá-lo em todos os lugares, trago junto um curtinha de 3 minutos, sobre o cara que deu origem a esse ômi, meu avô, Walter Ferreira. É de um festival de cinema de arquivo que teve aqui no Rio, o Recine, no ano que desembarquei, 2008. Fruto de um workshop de cinema de arquivo, o curtinha me rendeu, ainda que seja bem simples, o prêmio de melhor roteiro. É uma homenagem a um outro pai que ficou na minha memória infantil, cujos detalhes fui resgatando com a ajuda de minha avó, minha prima, meus pais. É uma brincadeira com o acervo do Arquivo Nacional brasileiro e algumas fotos de família.



Feliz dia dos pais, espero que gostem e é claro que estou com saudades.

27 de julho de 2015

What happened, Miss Simone?

Achava que não conhecia nada de Nina Simone. Tinha até vergonha de falar, já que depois do documentário, todo mundo parecia saber dela há muito tempo e eu, pra variar, estava por fora. A sinopse instiga, perguntando o que uma mulher que conseguiu fama, riqueza e família poderia querer mais. Não teve jeito: uma pergunta dessas não dá pra ignorar.

Agora posso dizer que sei e sabia mais ou menos quem foi Nina Simone. Descobri não sei quantas músicas dela e outras interpretadas inesquecíveis e sensacionais. Descobri que essa mulher negra nascida no sul dos Estados Unidos na década de 30 não veio a passeio e deixou sua marca cedo, quando queria ser uma musicista e tocar piano clássico no Carnegie Hall. Não saber muito sobre ela até hoje, mas conhecer suas músicas só foi possível com esse novo e sensível documentário produzido pelo Netflix e Radical Media.

Há duas coisas a serem ditas – há mais, mas comecemos por duas. A primeira é sobre o próprio Netflix, cuja diversidade de produções vem crescendo absurdamente e agora estamos saindo dos blockbusteres e dos filmes cult conhecidos e investindo em coisas mais bacanas como documentários e filmes independentes. Ainda não é aquela estante larga e variada de cinema de autor que tinha na locadora que trabalhei no século passado, mas está chegando lá. Meu desejo antigo e satisfeito de trabalhar ali hoje é parecido com a vontade de ser curadora desse portal mágico da felicidade. Ao mesmo tempo, estrear e ser uma produção Netflix significa (por enquanto) que não irá para o cinema, o que é uma lástima. Um filme desses numa tela maior, com toda a aura de uma grande sala, tem, necessariamente, outro impacto.
A segunda coisa a ser dita é sobre a própria natureza deste documentário. Robert Drew, no recém-lançado A verdade de cada um (org. Amir Labaki, diversos autores – ótimo), fala sobre sua visão documental e de como ela precisa se apropriar de uma veia dramática para ter interesse. E esse é o fator que diferencia um bom filme de outro razoável. Exposição de fatos é jornalismo, uma forma completamente distinta e superficial da narrativa densa da estrutura clássica de uma obra de ficção. Por mais controverso que pareça, para ser documentário, há que seguir da mesma forma, estabelecendo tempos narrativos de distensão, clímax, pontos de virada, resoluções de conflitos. E Liz Garbus faz isso muito bem. Esta documentarista que acabo de conhecer com Miss Simone, tem outro filme na plataforma, sobre Marilyn Monroe (Love, Marilyn, 1012) e um terceiro, também biografia, retratando o xadrezista, Bobby Fischer. Em Miss Simone, pelo menos, foi feliz na escolha do tema e da forma.

Voltando à cantora, só resta a confirmação de que meus amigos estavam certos: o filme é muito bom. Ele busca um pouco do que conhecemos do tradicional documentário americano com aqueles depoimentos de pessoas sentadas, mas isso funciona como ilustração e pontuação das transformações da protagonista. Há não sei quanto de duração de imagens de arquivo que se equilibram bem, entre festivais, programas de TV, shows e filmagens domésticas de infância até o ambiente familiar de então e descobrimos que quem achávamos ser uma figura ‘desconhecida’, foi também ativista de direitos civis, mãe, compositora, artista, mulher. É uma história de luta e redescobrimento de alguém que foi vivendo sem escolher onde pisar, se perdeu, se reergueu e aí sim, encontrou seu caminho.

Somos guiados pela música e por sua voz, em depoimentos de uma voz off quase sobrenatural, mas que não assusta: é bom ouvi-la ao invés de sempre esperar que falem por ela. Como com Tina Turner, ela também apanhava e era estuprada pelo marido que a obrigava a trabalhar além da conta e, da mesma forma suportava, sem saber exatamente por quê. E ao ouvi-lo falar e se mostrar para a câmera, o asco nos toma, nas atrocidades que narra não há arrependimento gerando um desconforto que se repete, quando ouvimos de sua filha relatos impressionantes sobre maus tratos agora vindo de sua mãe e de como, ela decidiu morar com o pai, após a separação. 
Se um filme documentário requer estrutura dramática, este faz com precisão. Quando descobrimos aquelas músicas que hoje são gravadas em outras vozes ali, naquela suavidade e força em Nina Simone, cada estrofe soa como uma grande surpresa. E a montagem dos depoimentos incomoda pouco – até por eles serem concisos e contarem gradualmente a efervescência, clímax e catástrofe de nossa heroína – entre seus diários ali recortados em trechos manuscritos que traduzem o íntimo de uma mulher conturbada que parecia nunca conseguir parar pra pensar. Ao mesmo tempo, senti falta de alguma história sobre seus pais e sete irmãos, de que pouco sabemos. Talvez tenha sido uma escolha da direção pela dificuldade de conseguir arquivos e depoimentos relacionados a eles, à exceção do que foi ali exposto.

Em cada volta do parafuso da vida de Nina Simone há uma busca de razão, prazer, força, felicidade e justiça, e que por fim encontra algum equilíbrio, entre a bipolaridade com a medicação que a controla va e reprimia, a aceitação em não ser a pianista clássica, mas a cantora e pianista que atravessou grandes estilos da música norte-americana, se tornou uma das maiores vozes de seu país, deixou de ser só a cantora para ser também a ativista dos direitos dos negros americanos e que morreu cedo demais, sem aceitar que tudo tinha era tudo o que queria.

E agora deu vontade de ver tudo de novo.

26 de julho de 2015

10.000km


A primeira sequência do filme vem sem cortes, introduzindo a intimidade de um apartamento de um casal jovem, uma luz de manhã entre janelas, um ambiente de cotidiano e familiaridade. Parece que estamos diante de uma história real, de um casal real. Poderia ser, poderia ser a história de qualquer um que tenha vivido um relacionamento a distância.

Quando vi o trailer na internet, o filme não havia sido – e não foi – lançado nos cinemas. Encontrei no Netflix e me tomou um tempo para assistir, já que é um reencontro com as semelhanças de uma história pessoal, passada. Namoro a distância é um desafio difícil, um jogo em que todas as regras parecem existir para dificultar a permanência, testando persistentemente o amor que há ali.

Então, neste primeiro plano-sequencia vemos de uma cena de sexo buscando uma gestação, ao motivo do drama: Álex (Natalia Tena) recebeu um e-mail com uma proposta de ser fotógrafa bolsista em Los Angeles. Álex e Sergi (David Verdaguer) vivem juntos em Barcelona. Eles se amam e depois de alguma discussão, decidem o óbvio – a proposta era boa demais para ser negada e é apenas um ano, eles são fortes, sobreviverão a esses 10.000km de distância e empurrarão pra frente o filho prometido.

Como a marcação da passagem do tempo em 500 dias com ela, com a literal contagem e exibição de alguns dias, aqui acontece o mesmo, mas linearmente. Assim, vemos a transformação dos dois personagens tal qual da relação, o que era saudade vira cobrança e carência, de um lado fica a memória física, os itens do apartamento, os amigos em comum, Barcelona cheia de lembranças de Álex para Sergi, cuja vida parece ter parado no tempo, enquanto a primeira segue reinicializando tudo do outro lado do Atlântico, decidindo quem quer ser, o que quer fazer. O filme todo se cerca dos apartamentos dos dois protagonistas em diálogos mediados por celular, whatsapp, skype, e-mail e ali também estão todas as etapas da distância, o sexo por vídeo, o desejo interrompido. A ausência de contato físico se converte no excesso de verbalização, tudo é motivo de conversa, mas sempre sobre eles mesmos e aí, o esgotamento é inevitável. As vidas compartilhadas em ligações não são, claramente, as vividas em separado e é essa distinção o grande teste para o casal e o trunfo do filme. Para os atores, grande desafio, visto que só há eles na trama - a proposta do diretor de focar no casal é acertada e as sutilezas dos diálogos e olhares e situações entre dois apartamentos nos deixa quase claustrofóbicos em alguns momentos, sufocados como os personagens daquele confinamento voluntário. Estamos falando de Barcelona e Los Angeles, cidades óbvias de interesse e turismo, com suas belezas e culturas extremamente distintas e que os influencia até na tomada de decisões, mas que não vemos, não fazem parte do argumento do filme, apenas suas localizações. E aí, nossa concentração se volta toda para suas trocas e a riqueza com que tratam em detalhes íntimos e sinceros sua história. As exceções de cenas fora do apartamento são as fotos tiradas por Álex, fazem parte de seu projeto de fotografar espaços urbanos vazios, estranhos – causando ainda mais estranhamento e vazio falar do que está fora, distante do outro, de quem não pode participar – as fotos aparecem para Sergi e para nós, como uma cidade fantasma, quase sem vida, cujos rostos de Google Earth - únicas imagens de outras pessoas, estão esfumaçadas para preservar seu anonimato e insignificância na narrativa. 
Enquanto Álex parece ser uma espécie de ‘culpada’ por tudo aquilo, na verdade a situação imposta é apenas um catalisador para um incômodo velado – ela não sabe mais sobre seu futuro com Sergi, o que quer pra si. A gravidez que nunca vinha e agora adiada é um ponto importante e definidor para a mulher. Ela está num momento de clímax profissional, fazendo exatamente o que sempre quis – e também é o momento de decidir se esse filho virá e adiará seus objetivos. O filme que parece simples e envolto na sobrevivência do relacionamento, se complexifica e enriquece, com um dilema da mulher de hoje, sem julgamentos, mas impondo decisões. Há, da mesma forma, como o homem se relaciona com essa postura e Sergi não é machista, mas ele precisa se reconhecer e entender seu papel ali, entender se ele também se adequa aos interesses da amada e se vale a pena continuar com esta Álex em transformação.

Enquanto mulher que saiu de casa para morar em outro estado – numa distância muito menor que 10.000km – e deixou alguém ‘a esperar e ver o que acontece’ para seguir sua carreira, a identificação foi imediata. Há uma sinceridade e não me esquivo de pensar se o diretor e roteirista Carlos Marques-Marcet também não teve essa vivência – ou, no mínimo, a pesquisa foi muito bem feita. A construção da intimidade destes dois atores, a verdade que eles passam e que já é a abertura do filme, nos levam por um mesmo caminho de reflexões e escolhas. Intenso, com atuações impressionantes, este é um filme de dois atores que não cansa, é honesto e lindo em sua construção, com uma trilha sonora que dói e é magnífica e me fez reviver algumas situações até o final  - e aqui eu gostaria de usar 'mais sincero e coeso impossível', que fez a obra levar 17 prêmios e 22 indicações em diversos festivais.

2 de julho de 2015

Enquanto somos jovens

Enquanto somos jovens é o tipo do filme que te deixa em dúvida quando você passa pelo cartaz. Naomi Watts e Ben Stiller parecem um casal improvável para o cinema, ele meio bobo, ela, uma atriz de peso maior. Não suficiente, Amanda Seyfried quase nos faz desistir de vez – não fosse um filme de Noah Baumbach (dos lindos A Lula e a Baleia e Margot e o Casamento) chamando novamente Adam Driver – tudo estaria perdido.

Exageros à parte e explicando melhor o diretor e seu pupilo: os dois estiveram juntos em Frances Ha, outro filme sobre maturidade, sensível, amoroso, engraçado, em p&b e com uma trilha sonora genial. Frances Ha surpreende em mil e um aspectos e nos mostra como é difícil tornar-se adulto quando se é uma alma criativa e delicada em uma cidade grande – as oportunidades chegam na gradação dos desafios.
Ben Stiller é Josh, um documentarista que não consegue terminar seu novo filme. Em anos de preparação e montagem – e algumas regravações – a insegurança em produzir algo o impede de entregar a obra e ele se divide entre a postergação e as aulas que ministra na universidade. Lá, descobre Jamie (Adam Driver), um aluno aficionado por seu trabalho, lhe oferecendo o carinho no ego e assim, a vaidade de Josh volta à tona como um filho sempre elogiado pelos pais. Naomi Watts é Cornelia, casada com Josh e produtora dos documentários do pai, então um diretor renomado, que tenta sempre ajudar o genro. A amizade de Jamie – e Darby (Amanda Seyfried), a namorada – com Josh e Cornelia são o cerne da trama. A graça toda começa aí e admito logo que o filme parece que foi feito pra mim – assumo o egocentrismo – tratando de documentário, verdades e mentiras na realização de uma obra, os mestres do ‘gênero’ citados, analogias sobre o que é verdade e simulacro, a ética na produção artística, o refinamento da comédia – ainda que esbarre em alguns exageros – maturidade e o mais importante: a brincadeira com esse novo personagem das metrópoles – o hipster.

O hipster é o cult amplificado. Antes era tudo sobre filmes estrangeiros, tatuagens, rock e cabelos compridos. Agora é uma categoria, um acumulado de percepções que mistura toda a superficialidade de ser alternativo – o hipster continua como o cult, lendo as primeiras páginas de todos os livros, cultuando bandas que ninguém ouviu falar, odiando hollywood, indo pra exposições de arte contemporânea e performances de artistas desconhecidos, usando o mesmo uniforme, criticando o que lhes é alheio em festas estranhas com gente esquisita. Com todo o exagero que uma redução assim traz, o filme traça o paralelo entre essa turma e aqueles que passaram por ela e veem nessa juventude, uma espécie de espelho distorcido de um passado glorioso.
O novo dá lugar ao retrô ao mesmo tempo que a instantaneidade é a marca dessa geração. Tudo deve acontecer ao mesmo tempo, tudo tem que ser registrado, tudo é audiovisual, tudo serve, é arte. Se quando lançaram a franquia BBB, incomodava a invasão da vida alheia, a exposição de intimidades na tv, hoje fazemos gratuita e voluntariamente nas redes sociais – não espanta a redução da audiência dos programas (sem mencionar a qualidade). Ao mesmo tempo, o estímulo dessa forma de registro encontra a alimentação na vaidade e carência e aí Josh se perde, confunde seu papel de mestre como o de alguém que deve ser ovacionado e faz de tudo para continuar jovem, afinal, são um casal de meia idade sem filhos, então, com a liberdade garantida para se manterem assim – em oposição ao casal de quem se afastam, da mesma idade: são amigos que acabam de ter um filho, passam a lidar com o nascimento da família e vêem o fim das fantasias e aventuras de então.

O filme percorre os conflitos e diferenças entre as gerações, em um roteiro rico de comparações mordazes em dores e alegrias que os casais dividem. Mais uma vez, não consigo ver muito aprofundamento em Amanda Seyfried, mas Adam Driver é o perfil exato – como Woody Allen em seus filmes, sempre o mesmo e sempre bem – da caricatura do jovem antenado, enquanto Ben Stiller e Naomi Watts se esforçam – em ótimas performances – para alcançá-lo, se perdendo sem perceber. Em paralelo ao tratamento da maturidade – tema frequente nos filmes do diretor – vemos uma homenagem ao cinema com um esboço de uma discussão teórica bem inserida no contexto do filme – a ética na construção de uma obra esbarrando no caráter de quem a fez. E aí é debate sem fim, cuja solução encontrada aqui é apenas uma das possibilidades – e que já levanta polêmicas.

Comédia leve e despretensiosa que de 'boba não tem nada', não chega a ser um Frances Ha, mas consegue nos deixar pensando – especialmente se você está entre os dois casais – sobre crescer, sobre até onde vai o jovem que ansiamos ser eternamente e em que momento encontramos – sem maiores tragédias – a maturidade. Ainda que o final da história se atrapalhe num clichê, é garantida a diversão neste filme para ver depois de um longo dia de trabalho.

25 de junho de 2015

Segunda Chance

Comecei a prestar atenção no trabalho de Susanne Bier a partir de Em um mundo melhor, de 2010 que levou o Oscar de Filme Estrangeiro. O filme contava a história de um médico europeu em missão na África que precisava decidir se salvaria a vida de um ditador desses que trucida mulheres em todos os níveis e assassina a oposição. Em paralelo, mistura-se o profissional e o privado, à medida que sua família desmorona no outro continente com uma crise conjugal e um filho adolescente que se torna amigo de um garoto problemático. A obra consegue nos tornar permeáveis ao que se passa e nos colocamos na posição do protagonista – e aí a coisa muda de figura e entendemos porque além do Oscar, levou o Globo de Ouro e outros 10 prêmios pelo mundo.

Antes disso, em 2007, mas com menos impacto, ela já tinha feito Coisas que perdemos pelo caminho sobre o luto e a reconstrução da vida – também com uma questão a ser resolvida aqui. O filme bom, com atuações impressionantes de Benício Del Toro e Halle Berry já identificava o tema das perdas em nossas vidas – mas não havia me chamado à atenção para a direção.
Este ano estreou Segunda chance. Outro dilema moral, aqui a história está centrada no policial Andreas (Nikolaj Coster-Waldau – Jamie Lannister, de Game of Thrones), casado, que de repente encontra seu filho de um ano morto em casa. Em desespero ao ver sua mulher Anna (Maria Bonnevie, de Reconstrução de um Amor) em uma crise irreversível, revisita a casa onde havia feito uma batida policial e cuidara de um bebê com sinais de maus tratos, deixa o corpo de seu filho e pega a criança viva, acreditando que o casal viciado em drogas entenderá que o bebê morreu de alguma forma e que eles não teriam condições de salvá-lo. Esse é o trailer de um filme que nos deixará tensos até o último minuto.

O que parece o início de uma trajetória difícil é só a ponta do iceberg de um dilema moral em que, novamente, a diretora consegue nos atingir fundo. Sofremos com Andreas e Anna – entre o luto e a aceitação de uma segunda chance de felicidade – se é que existe a possibilidade, sofremos com Sanne (a modelo-agora atriz, May Andersen), mãe da criança que insiste em dizer que aquele cadáver não é seu de filho, e só não sofremos com Tristan (Nikolaj Lie Kaas, também de Reconstrução de um Amor) porque ele realmente é um cara complicado e garante algum humor ácido. Com um elenco estelar do cinema dinamarquês e uma tensão que não nos permite piscar, não sabemos o que esperar do final de uma história tão intensa.

Uma amiga escreveu sobre o filme tratando da dramaticidade da história, de como as perdas e o tema forte pesaram nela. Para mim e também para Camila – a comadre das sessões semanais de cinema – a percepção foi outra: o roteiro é tão bem construído e a diretora já tem em si o olhar de mostrar a vida como ela é ao invés de criar uma trilha sonora e construção de cenas que enfatizassem a lá novela a trama e o drama, que a ânsia era em ver o desfecho e entender – como consegui minutos antes da dissolução – como a história se fecharia. E saímos satisfeitas – se a palavra for essa e perplexas com o que vimos.

Além da estrutura narrativa ter seu peso comprovado em atuações impecáveis – como ver os olhares de pânico e choque de Maria Bonnevie se transformando, o desespero do personagem Andreas e até a relação que mantém com o veterano Ulrich Thomsen (Em um mundo melhor) como Simon, seu amigo e colega de trabalho que também convive com seus demônios, a fotografia e as locações reforçam a obra. É interessante entender o contexto cultural – é quase bizarro ver a mãe levando o filho que chorava em passeios noturnos para acalmá-lo. Ela caminhava de sua casa – num bairro deserto – tarde da noite, levando o filho num carrinho de bebê no acostamento das ruas na tranquilidade de um domingo no parque. Só em ver a cena, o público brasileiro já imagina que alguma tragédia acontecerá, mas não: é o dia-a-dia de uma cidade muito mais segura do que as nossas. A própria residência – cujas luzes da fachada reforçavam a delicadeza da fotografia – ressaltavam o afastamento do centro urbano. A ideia era deixá-los isolados, evidenciando tanto uma necessidade de se manter a paz e felicidade familiares (ou até o desespero nas cenas seguintes), como uma vida perfeita em oposição ao apartamento entulhado, sujo e desorganizado do casal ‘bandido’. 

Lançado internacionalmente ano passado, resta saber se terá fôlego para mais alguma premiação além do título em San Sebastian e outras quatro indicações. De qualquer forma, este tem o mesmo peso de Em um mundo melhor e ainda deixou a vontade de ver o restante da filmografia da diretora. A certeza da evolução estética e narrativa é um fato, nos dando a quase certeza de que bons filmes dessa diretora nos aguardam.