26 de outubro de 2014

É pra ter fé...

Vou te falar, coração, é difícil.

Hoje tiveram as eleições no Brasil e ganhou Dilma, de esquerda. Quem perdeu foi Aécio, de direita. Mais uma vez criou-se uma dicotomia de que a esquerda é intelectual, pró-povo, assistencialista, corrupta, incompetente, ignorante. Do outro lado estava a elite, também corrupta, com intelectuais inexpressivos que se consideravam a força pensante da nação, a representação da inteligência e progresso, que arrastavam não sei quantos estados nas costas. Isso tudo são preconceitos e estupidezes, com seus ideais superficiais que eliminam qualquer verdade de qualquer lado. Ok. 

Não entrando no mérito dos partidos e representantes, o ‘povo’ fez pior. O povo das redes sociais, minhas não sei quantas centenas de amigos com suas outras centenas de amigos destilando ódio, preconceitos de todo o tipo, venenos a escorrer pelos lábios corroborados por outros venenosos. Dos dois lados. Há uns, como eu, que preferem não se envolver. Assisto em meu camarote particular e privilegiado os discursos, fico no conforto de evitar qualquer embate de qualquer tipo para qualquer lado, uso a linha “não voto, justifico”, e se fosse votar? Acho que seria Dilma, e não vou nem me explicar, discuto política não muito além do que sei, aprendo ainda mais e sou aberta o suficiente para ouvir os dois lados sem precisar agredir nenhum. Não fico em cima do muro, só não entendo de política como acho que entendo um pouco mais de outras coisas e evito julgamentos precipitados. 

E, na verdade, esse desabafo é sobre isso... sobre os velhos julgamentos e a intolerância nossa de cada dia. Moro no Rio de Janeiro há seis anos. Trabalho numa grande empresa. Sou baiana. Sou baiana e amo ser baiana com todos os orgulhos e vergonhas. Gosto do Rio de Janeiro e tolero também seus inúmeros defeitos porque, afinal de contas, escolhi e gosto de morar aqui. Faço bem o meu trabalho, estudo sempre, procuro me envolver com outras coisas, crescer, me tornar maior pra mim mesma. Gosto de axé, forró e rock, acarajé e feijoada, vivo a diversidade e a possibilidade de conhecer gente e culturas – o máximo e mais díspares, sempre que posso. 

Na minha rede social tem gente de tudo quanto é canto. Gosto de gente, de falar, de conviver, de entender porque somos diferentes e em que nos identificamos. Só que tem uns tipos específicos que se tornaram agressivos e perversos. Ainda não os eliminei desse convívio virtual porque eles servem como um alerta para o que está por aí, eu acho. Não são os amigos de fé ou os mais ou menos amigos, ou qualquer coisa nessa linha. São pessoas da contingência, de conhecer por contexto, momento de vida, história. E são pessoas que se dizem acima de outras pessoas. Infelizmente, pelo que pude acompanhar, a maior parte delas é a que reside por aqui, pelo Sudeste. 

A gente tenta relevar o tempo inteiro esse preconceito que temos, de que o sudeste se acha desenvolvido, melhor do que qualquer região do país, mais inteligente, mais rico – e é, sem dúvida, se pensarmos em dinheiro – e que tem essa certeza de que eles são a força motriz do país, que viveriam muito bem sem o restante e que acham que representamos o atraso e marasmo, a preguiça reinante, a ignorância e o descaso pelo país,que acreditamos ser o assistencialismo a tábua de salvação e enriquecimento da classe menos favorecida e de como somos acomodados e nunca trabalharemos, porque tem quem faça por nós. E você chega animada, vindo de um estado maravilhoso – pobre, lascado, com seca, mas com pessoas de coração aberto, trabalhadoras, batalhadoras, sobreviventes e que ainda estampam um sorriso no rosto e fazem graça da própria desgraça, porque é o que tem pra hoje – e você vira uma caricatura. Por você ser simpática e ter seu sotaque e defender o que acha certo e o que lhe moldou, se transforma num apelido, que vejo como carinho mesmo e adoro, mas que imediatamente lhe identifica como quem vem de fora e você até acha graça e ri, afinal ser baiano é realmente muito bom. 

Só que chegam as eleições e já no fim do primeiro turno começaram as verdades da rede social. As elucubrações que essas pessoas desenvolveram, seu alto índice de conhecimento e reflexão em ofensas e graves agressões que até saíram do seguro universo virtual e tomaram as ruas. Foram dias intensos e longos para esse pessoal. Horas gastas em discussões, declarações de votos e juras como se seus candidatos fossem, cada um, a salvação para um país agonizante, para o mundo, para sempre. Aconteceu um fanatismo como o futebol, uma loucura desenfreada que me lembrou a final da copa do mundo, quando um homem de meia idade, negro, com uma camisa do flamengo gritou perto de mim em alto e bom som, Heil Hitler, num bar, torcendo para a Alemanha. 

As pessoas se entregam às suas recentes convicções e carregam suas bandeiras sem perceber que o tecido atrapalha a visão e os mastros batem em quem está ao redor, machucando. Hoje, agora que as eleições acabaram, vi minha família mais calma – feliz e triste ao mesmo tempo – mas mais calma, aceitando o destino trágico e esperançoso (tem de tudo na minha casa) que vem pela frente. Vi, por outro lado, alguns sudestinos da minha rede se mostrando com indignação e raiva tão grandes que chegam a assustar. Escarrando seus preconceitos em notas vulgares, vomitando suas amarguras, frustrações e grosserias de tal forma que chegam a machucar esse pobre coração e minha vontade fica oscilando entre discutir e desistir. E tanto ódio pra quê, gente? Essa certeza ingênua de que são tão especiais e inteligentes é sim o que podemos chamar – ao contrário de nomear Estados inteiros – de ignorante. 

Vamos estudar mais, conhecer melhor o país, olhar para os lados e até abaixar um pouco a cabeça, sair do salto e dessa postura altiva, ver quem está ao redor, ser mais humildes, visitar o que se critica fora das festas, ir além das praias maravilhosas e de águas quentes das férias, das pessoas simpáticas e calorosas, das comidas que não se encontram em todos os lugares, das frutas, da natureza, de tudo que também significa esse país gigante. Eu achei que a grande piada do dia seria a do Acre, o último estado a fechar suas urnas. A ironia define a grandeza do país: por mais esquecido que sejamos em alguns pontos, somos fundamentais por nossa união. 

Mais amor, por favor.

20 de outubro de 2014

Jessy

Acabei de ver Jessy, de Rodrigo Luna, Paula Lice e Ronei Jorge. O curta deixou, como as grandes histórias, uma vontade de continuar e um sorriso de satisfação, o prazer de ver um filme com um tema grávido de interpretações em uma forma estruturada que nos faz querer mais, ao mesmo tempo entendendo que o que está ali é suficiente.

Escolhi não ler a sinopse por já conhecer Luna e Ronei, parte da equipe e saber dos talentos de cada um, mas fiquei com algumas dúvidas e talvez por isso, gostei mais. Não sabia se era uma ficção, um documentário. Sabia que a protagonista era uma atriz, Paula Lice, mas o contexto das cenas e dos outros participantes deixaram tudo suspenso. Foi uma boa confusão, trouxe a elegância dos grandes documentários. Hoje dá pra dizer que nesse gênero, o país conseguiu desenvolver um estilo híbrido, que se vê nos maiores diretores, com uma linguagem própria e madura que se liberta dos estereótipos que transformam a não ficção em reportagem e filme chato. Essa liberdade nada mais é que a negação de um mito que obriga os documentários a mostrarem um mundo real que não existe diante de uma câmera. O que há é a verdade de um documentário, do que existe porque a câmera está ali registrando e como interpretamos este registro - é aqui que reside a riqueza dessas obras.

O filme conta a história de uma atriz que se prepara para sua performance como a transformista Jessy, numa casa de shows no Beco dos Artistas, em Salvador. Ela ensaia e é dirigida por artistas experientes que trabalham ali mesmo e a todo instante orientam, estimulam e a produzem. Enquanto vemos o ensaio, nos encantamos com nossa protagonista sem saber direito se ela faz uma personagem-atriz que está criando um personagem ou se é a atriz de verdade ensaiando um personagem – esta encenação se contamina com o cenário real, em enquadramentos como o cinema direto, com a mínima interferência do que acontece diante das lentes.

A construção de Jessy nos empurra para frente: para mim traz uma saudade pelo sotaque – essa baianidade que não me deixa – uma região que é pouco vista em filmes, apesar de fazer parte do circuito turístico alternativo da cidade, e aí seguimos imaginando uma pré-história daquele presente: quem são aquelas pessoas, a riqueza e o carinho com que se tratam, a preocupação em mostrar um bom trabalho, as performances em si, o ambiente do Beco, como é seu cotidiano. Há uma questão de gênero que não dá para deixar passar: o que se quer mostrar é a transformação, a preparação e o nascer do personagem, mas é impossível esquecer que estamos vendo uma mulher se transformando num transformista. Em um determinado momento, uma das pessoas que a orienta no ensaio pergunta: você quer fazer uma mulher? E é uma pergunta direta que faz todo o sentido na preparação para o personagem, e concluímos que é, na verdade uma mulher que está ali. Mas, a resposta não dada é: não. Ela não quer fazer uma mulher, ela quer outra coisa.

Além dessa complexidade, ainda há as encenações dos coadjuvantes: estes artistas estão encenando para a câmera? São eles mesmos ali porque já estão acostumados com os holofotes de suas personagens ou tem algo de querer se mostrar um pouco mais? E a protagonista que é uma atriz se preparando para um papel, o que vemos dela e o que vemos de construção para a câmera – quem é personagem e quem é pessoa? É uma metalinguagem que consegue ser, ao mesmo tempo, óbvia e sutil em pouco mais de dez minutos, que não precisa dizer mais do que o que está ali. De bônus, as gargalhadas deliciosas e ternas de uma mulher-profissional-atriz e tudo o mais que ela queira ser e que vamos concordar de imediato, porque  agora ela nos dominou.

Depois do filme fiquei parada, pensando. Nem tinha me tocado de que a sinopse estava na minha frente com algumas respostas, mas a melhor delas eu nem havia perguntado: há uma versão maior, que amplia essa história. Mesmo sem ser nada importante e estar distante do ritmo de produção e criação tão forte e delicioso que é fazer filmes, fiquei orgulhosa por serem amigos e poder encontrá-los nos festivais. Ainda mais depois de ver uma produção inteligente e delicada, em que a primeira cena se comunica com a última com uma força que transforma e esclarece seu sentido inicial. Agora entendemos aquela expressão silenciosa e aguardamos ansiosos por uma extensão que nos permita conhecer mais Jessy, Paula Lice e o que quiserem nos contar.

9 de setembro de 2014

Sargento Getúlio

Eu já estava pronta pra dizer que esse é o melhor livro que li esse ano. O melhor de muito tempo, na verdade. E é mesmo... mas eu li outros muito bons em que não escrevi nada (o de Ingmar Bergman, Lanterna Mágica é impressionante, por exemplo... assim como Macbeth, assustador) que agora fiquei tímida de considerar esse tanta coisa assim e esquecer dos outros. Mas o fato é que esse é um dos melhores em muito tempo e que me surpreendeu. Não sou crítica de livros, mas acho que todo mundo deveria, pelo menos saber que existe uma coisa dessas no mundo.

Sargento Getúlio foi o primeiro livro escrito por João Ubaldo Ribeiro, felizmente baiano, infelizmente morto nesse ano cheio de perdas inacreditáveis e dolorosas. Com este, ele já se tornou um dos maiores escritores de sua geração... de qualquer geração. Isso porque ele traz o nordeste profundo, aquele que é ridicularizado, taxado de ignorante e analfabeto, de bruto e rude. E ele traz no texto o que há de mais honesto, no âmago, no coração, de Brasil mesmo.

Eu sou nordestina de litoral e capital, do que já foi – não sei se ainda é – a maior do nordeste, Salvador. Não é motivo de glória, é só pra falar de tamanho, apesar de amar ser baiana, soteropolitana e ter orgulho disso, com todos os defeitos e qualidades que surgem daí. O fato é que eu venho de uma cidade grande, cuja distância com a linguagem desse texto não é cotidiana, apesar de bem próxima.

João Ubaldo é baiano de Itaparica, quase um apêndice de Salvador, de tão próxima que a ilha é de nós. Não sei a biografia dele, mas imagino que tenha tido muito da vida urbana e deve ter feito uma pesquisa e prestado atenção em muita coisa pra chegar nesse livro. É uma delícia de ler principalmente quando já se ouviu João falar alguma vez. O homem tinha uma voz grossa e uma calma pra falar, um sotaque delicioso e conhecido que faz qualquer retirante – moro no Rio há seis anos – se derreter e mostrar um sorriso que é todo saudade. Ler esse livro trouxe uma mistura doida de sentimentos pelo assunto, pela forma e por conseguir imaginar as entonações, os ritmos da fala do protagonista.

Sargento Getúlio é um homem desses rudes, brabos, cabra macho mesmo de sertão. Ele precisa levar um preso de Paulo Afonso, na Bahia, para Aracaju, em Sergipe e isso é uma viagem bem longa, ainda mais se considerarmos que ele vai por terra. Então, nosso homem segue falando tudo o que lhe acontece, nos pormenores, explica toda a sua situação sempre no presente e vamos participando do seu dia a dia em uma fala sem fim, quase sem parágrafos, quase sem parar. E não conseguimos parar de ler também. E se odiamos esse homem por algumas ações que pratica e o achamos mais ruim que o demônio, em outras, ele é um ser humano, um homem-coração. Porque o nordestino é isso mesmo, é macho até onde pode, com ou sem machismo. É macho no sentido da coragem, de meter as caras e fazer valer. É macho de enfrentar a vida, nem que precise de um facão (ou peixeira, se preferir) do lado. É macho até pra amar, que vai lá no fundo da coisa e se entrega todo, nem que se rasgue todo de dor depois. E se somos brutos é porque somos brutos, não porque somos ruins ou ‘maleducados’. Somos brutos porque não somos finos, somos sinceros e diretos e imperativos, mas cuidamos e protegemos de quem gostamos como se fossem uma parte de nós, um membro de nosso corpo ou até mais que isso.

E por isso e tudo mais que é ser nordestino é que esse livro é fantástico. Porque ele nos faz adorar essa história e sofrer com as atrocidades e gargalhar em alguns momentos e morrer de fome e água na boca em outros e é sempre uma emoção diferente e sempre sentimos tudo e às vezes precisamos repetir a linha de cima porque não pegamos o ritmo da fala e é tão deliciosamente regional, que precisamos mesmo ler de novo pra entender... não sei se quem não é nordestino ou nortista pega o assunto inteiro, mas vale muito tentar. E vemos um mundo de cidades que nunca ouviríamos falar e de situações de um cotidiano pequeno e maravilhoso e é quando nos perguntamos o que queremos – o que eu quero em mais uma grande capital, ainda mais distante da minha. E isso tudo num livro de ficção, que nos desperta pra mil outras ideias e pensamentos. Meu pai me perguntou, sem ter lido o livro (mas estou atazanando todo mundo que passa por mim nesses tempos com ele, porque só falo desse bendito Getúlio agora) quando vão fazer o filme e eu acho que não combina. Mas dá em música.

E como me empolguei muito, resolvi colocar uns trechos aqui:

“Eu sou Getúlio Santos Bezerra e meu nome é um verso e meu avô era brabo e todo mundo na minha raça era brabo e minha mãe se chamava Justa  e era braba e no sertão daqui não tem ninguém mais brabo do que eu, todas as coisas eu sou melhor. Pode vim.”

“Mas não vou dizer a todo mundo que cortei a cabeça do tenente. Só digo ao chefe e calo a boca e cruzo os braços e boto o olho no vento. E quem quiser que bote o olho no meu. E pronto. E se ninguém quiser ir comigo, eu vou só, aviu Amaro? É, disse o padre, eu não sou esses machos todo.”

“(...)é isso mesmo, padre, é isso mesmo e esse troço já está me dando uma ingrizilha que eu não aguento, nunca tive tanta perturbação, não gosto dele. É como que me dá uma vontade de chorar, mas é de pena de mim.”

“Morrer é como que dormir e dormindo é quando a gente termina as consumições, por isso é que a gente sempre quer dormir. Só que dormir pode dar sonhos e aí fica tudo no mesmo. Por isso é que é melhor morrer, porque não tem sonhos, quando a gente solta a alma e tudo finda.”

E tem muito mais e mais bonito até, como o amor por Luzinete e todo o seu desenrolar. E todo mundo deveria ler. De verdade.

E obrigada, João. Me deixou muito feliz pelo livro e muito triste por não ser possível ler mais, mas vou catar a bibliografia inteira depois disso.

24 de agosto de 2014

Bistrô Romantique


O que  é mais complicado num relacionamento do que a construção da intimidade? Desde o início, tentamos exibir nossa melhor forma, acreditamos estar mostrando o melhor de nós, maquiando nossos defeitos e até os transformando em algum tipo de charme. Fingimos para nós mesmos que somos perfeitos até onde podemos, guardando no íntimo do lado direito do cérebro e em todo o coração aquela insegurança que fingimos não ter. É por isso que tantos filmes sobre relações são feitos, tamanha é a variedade de particularidades que tornam as histórias tão singulares quanto nossa identificação com elas.

O auge das expectativas é sempre o início. Talvez até seja no segundo encontro, depois daquele de improviso, sem conhecer a pessoa direito. Ou no primeiro, se for após conversas online – hoje mais do que comuns, que o digam os aplicativos para celular. O fato é que, enquanto alguns se divertem com a ideia de conhecer o outro aos poucos, sentir aquela agonia gostosa e uma curiosidade que se multiplica a cada dia, outros sofrem a angústia de não saber para onde vão, o que falar, como agir, torcendo para que essa fase siga na velocidade da luz e chegue finalmente no sofá de casa, usando a camisa do outro. Com mais ou menos intimidade, nunca sabemos o que pensam de nós, como nos veem, o quanto se identificam com nossas qualidades e aceitam nossos defeitos, não importa o tempo que se esteja junto.

Bistrô Romantique fala exatamente disso, da construção das expectativas e de seu choque com a realidade. A comédia romântica belga de 2012 que está em cartaz nos cinemas se passa toda neste restaurante, num jantar especial de dia dos namorados. Ali, diversos casais encontram-se, nos mostrando uma deliciosa mistura de ansiedade, alegrias, brigas, tristezas e pratos deliciosos, que nos deixam sofrendo com muita vontade de comer tudo o que aparece.
O filme todo é tão gostoso ou mais do que o trailer. Sem saber muito dos atores ou do diretor, nos resta confiar nesses três minutos de propaganda e na memória recente (e ainda curta) do cinema belga: Alabama Monroe, um drama sensacional onde a doença da filha culmina no desgaste do relacionamento intenso entre dois cantores de uma banda country. Fotografia deslumbrante, trilha sonora incrível, o filme nos envolve e transforma em um prazer duplo, o de se deixar levar pela história e nos permitir viver um pouco daquilo tudo e o outro, da certeza de ver um filme sem falhas. Há também a co-produção entre a França e a Bélgica, Ferrugem e Osso, com Marion Coitllard como protagonista, fazendo par com Matthias Schoenaerts, um ator que eu não conhecia e cuja qualidade só indica só que eu estava atrasada. Aqui outro drama, sobre a superação após um acidente de trabalho da personagem de Marion e a história linda e incomum construída entre eles. Digno de prêmio e merece capítulos à parte, como Alabama.

Bistrô é mais leve do que esses dois. Com ótimas interpretações, a de Mathijs Scheepers é especial, um homem atônito e tímido que vai encontrar pela primeira vez uma paquera virtual e sua ansiedade e nervosismo tornam esta uma das melhores sequências da trama. Pascaline (Sara de Roo), a dona do restaurante, cujo grande amor de sua vida reaparece depois de anos com uma proposta tão tentadora quanto preocupante. Um casal de meia idade vai celebrar a data, vemos que a mulher não está feliz e o homem está muito preocupado com ele mesmo para perceber. Uma jovem entra para passar sozinha a data no luto de um relacionamento interrompido. O interessante do filme é o conjunto de casos muito bem construídos, uma seleção de situações em relacionamentos que parecem traduzir grande parte do que vivemos ou conhecemos.

Não suficiente a grandeza e agilidade nos diálogos cortantes das discussões que atravessam as mesas e a cozinha, a montagem em velocidade crescente com os jogos de cena nos prepara para um fim que não queremos ver. Isso tudo, entre três ou quatro pratos e um aperitivo, nos obriga a pensar em nosso próprio jantar. Ainda que todas as histórias não encerrem um final feliz, é um filme leve que ainda deixa o que há de bobo nas comédias românticas passar longe. Ao mesmo tempo, nos traz a lembrança de todos os ‘filmes de comida’ que, como esse, nos faz sofrer, frustrados com a pipoca na mão e a certeza de que merecemos discutir o que vimos numa mesa farta e variada.

19 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste

Numa aula de ética voltada para o trabalho, o professor falava que um certo filósofo entendia que só poderia considerar alguém ético, depois de sua morte. Aí faríamos um apanhado de sua vida, como um currículo pessoal, levantando seus dilemas e resoluções tomadas. Enão, poderíamos qualificá-lo como qualquer coisa. Assim, passamos a vida acima de qualquer suspeita, sem sabermos como definir-nos, mas com isso, carregando uma ‘culpa’ de estar sempre tentando fazer o bem, para que no fim, ganhemos um atestado de boa conduta post-mortem. 

Falo disso, porque tenho uma dificuldade em estabelecer ídolos. Grandes músicos, políticos, homens e mulheres das artes e esportes perderam um pouco desse glamour, dessa aceitação pelo que produzem e eu mesma fico pensando se aqueles que acho incríveis são realmente assim. Não sei se podemos chamar isso de perda da inocência, da ingenuidade que é essa facilidade em acreditar no outro, mas hoje contamos nos dedos quem admiramos fortemente. Pensando no cinema e nos diretores vivos, um que me ganhou e que espero que produza na mesma frequência de Woody Allen é Wes Anderson. 

Antes de O Grande Hotel Budapeste, houve Moonrise Kingdom, um filme delicioso sobre peripécias infantis de dois amigos que resolvem fugir de casa. Ali se concentra muito do que eu gosto de ver: narrativa bem elaborada, ótimos diálogos, um ‘tempo’ diferente, um cuidado especial com a fotografia e a direção de arte, ótima trilha sonora – características que a direção garante, mantendo um conjunto de referências presentes em toda a filmografia do autor, o identificando de cara nos primeiros planos, sem precisar ler os créditos. É esse conjunto de elementos que um colega meu de trabalho chamou de ‘estética’ e que as escolas de cinema entendem como ‘cinema de autor’, basicamente a mesma coisa. 

Em Grande Hotel, todo esse cuidado permanece, assim como o elenco de atores consagrados, cada vez mais numeroso nos filmes do diretor. Agora a história se centra num personagem que conta como se tornou o dono deste hotel grande e notório por abrigar a elite intelectual e solitária do mundo. A narrativa pausada e dividida em partes cansou dois de meus amigos, mas para mim só interessou mais: cada seção tem um título com um porque bem definido, não é uma questão enigmática e a graça é perceber como a construção de mundo é detalhada e perfeita, não temos mesmo do que reclamar. Talvez seja essa a graça dos filmes do diretor: o cuidado na elaboração dos diálogos e a construção toda em volta, cheia de detalhes e chaves e peculiaridades como uma espécie de jogo da vida, em que a cada jogada descobrimos mais regras e novidades – como uma nova sociedade que acabamos de visitar e passamos a conhecer sua cultura. 

Os filmes de Wes Anderson têm mesmo essa particularidade, o sistema de coerências como o professor de roteiro costumava nos ensinar, onde cada elemento da história tem fundamento, ainda que pareça surrealista se pensarmos em nosso mundo real. É um encadeamento de situações, detalhes, enfeites, regras e conversas onde tudo faz sentido, onde não ‘sentimos a cadeira’, ou que ‘a pipoca acabou’. É o cinema em que basta a garrafinha de água do lado e nada mais; toda a concentração vai pra tela que nos leva para essa deliciosa distração em cento e poucos minutos. É um filme que mantém essa aura de ingenuidade quase infantil, como contos de aventura mais uma vez, em que não ficamos satisfeitos com suas cinco partes, mas queremos mais cinco, pra ver que tipo de elaboração vai surgir a partir dali. 

Imagino que para os atores do filme, (Jude Law, Edward Norton, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Bill Murray, Ralph Fiennes, Mathieu Amalric, Adrien Brody, Willem Defoe, Jeff Goldblum, Tilda Swinton, Lea Seydoux e vários outros incríveis que o imdb pode completar aqui) foi muito divertido fazer. Alguns só fizeram pontas, papeis pequenos que funcionaram como um fôlego a mais, uma surpresa, porque nem o cartaz eu vi. Como nos filmes de Woody Allen, Almodóvar, Karim, Polanski e outros, não importa tanto sobre o que é ou quem está nele, muito provavelmente vai ser bom. Então, cada aparição era um presente, como deve ter sido o encontro dessa turma toda nos sets, quando contracenavam. Os diálogos merecem um estudo de caso, bem como a construção dos personagens principais; é o tipo do filme ‘independente’ que carrega tanta riqueza de detalhes que parece que estamos em Hollywood, só que melhor. Não dá pra seguir o que o filósofo que esqueci o nome diz. Não tem como esperar cada escorregada de um ídolo para tirar seu título. De repente precisamos mesmo baixar a guarda e acreditar, não importa que possível besteira eles façam no futuro. Polianamente falando, pode acontecer com qualquer um (vide Woody, Polanski, Hitchcock...mas isso é outra história...). 

Vamos seguir acreditando nas artes pelo menos, em gente como este diretor que prova a cada estreia um talento único para filmes engraçados, ricos, inteligentes e doces. Não à toa, Budapeste levou o grande prêmio do júri em Berlim. Que venham mais mundos, frutos ou não de adaptações literárias – essa veio inspirada por um texto de Stefan Zweig – mas com a criatividade que vai desde a escolha na fotografia, a planificação do roteiro até o site de divulgação. Como os textos de jornais costumam reduzir: imperdível.

14 de maio de 2014

Prenda-me


Como fã de filmes de estradas, gosto destes filmes que me remetem às minhas passadas e futuras viagens, cenários que passam e se transformam diante de nós, histórias que mudam de fotografia às vezes apenas com a trilha sonora. É a evasão da melhor forma feita e é a que me ganha mais facilmente. Por outro lado, há os filmes de locação; personagens encerrados em um ambiente, restritos em movimentos e livres em diálogos. Esses filmes lembram um pouco o teatro pela restrição, mas o transcende em movimentos de câmera, riqueza de planos e cortes inteligentes.

No clássico 12 homens e uma sentença (1957), que todos deveriam ver, eles estão numa sala de júri decidindo o destino do réu. Os diálogos são o filme que se tornou dos mais importantes do cinema, com seus argumentos, réplicas e tréplicas, olhares e comportamentos desses atores que se imortalizaram em quatro paredes. Hitchcock em sua tentativa de filme sem corte (o impedimento era tecnológico, então o longa é um plano-sequência falseado em passagens da câmera por fundos escuros para escamotear as interrupções) faz um Festim Diabólico rico em detalhes, que nos deixa boquiabertos dentro de um apartamento. Isso em 1948. Outro na lista dos imprescindíveis, Repulsa ao Sexo traz Catherine Deneuve em um surto psicótico dentro de sua casa em 90% do filme, sozinha e quase sem diálogos. Só Polanski poderia ter explorado as capacidades da atriz com apenas 22 anos. O fato é: filmes de uma locação nos prendem numa tensão sempre crescente e o roteiro tem que estar amarrado de tal forma a não cansar, mas definindo esta condição como fundamental à trama.


Prenda-me traz a história de uma mulher, mãe de um adolescente que às vésperas da prescrição de um crime, assume a culpa. Ela havia empurrado o marido da varanda do apartamento, mas o assassinato foi solucionado como suicídio. Sophie Marceau aparentemente carregando um remorso católico sem fim chega a uma delegacia e se entrega. A delegada, ao ouvir sua história repleta de abusos cometidos pelo marido  – espancamento, estupro, roubo, humilhações – entende que o pecado já foi purgado e nada mais deveria residir na vítima-assassina. Com o impasse, ficamos com elas na delegacia e a presença ocasional de um funcionário menor, que assiste à delegada. O filme alterna os extremos das protagonistas e demoramos um pouco para entender o porquê da vitimização, dessa culpa imensa que nossa mártir leva consigo.

Quando vi o trailer, me interessou por se tratar de uma questão moral: prender uma que se diz criminosa diante de outros crimes de que foi vítima. O que vale mais? A justiça pelo assassinato de um homem execrável ou a condenação de uma mulher que o matou quase em defesa própria? O filme ultrapassa essa primeira questão do trailer e por isso leva créditos: chegamos num cenário em que a lei por si não é suficiente para fazer justiça; que a própria definição da palavra torna-se flexível e parece esticar-se para atingir onde a lei a interrompe.

O filme traz ainda outros pontos de metáforas que brincam com o surreal: o espaço fechado, alucinações, homens presos com capacetes de motociclistas que se mexem como abelhas cegas dentro de uma cela – não se veem rostos, apenas ruído e agitação. Algumas alternâncias de narrativa além dos flashbacks que contam a história pregressa da protagonista insinuam ainda uma relação entre as duas mulheres que vai se esclarecendo sutilmente, à medida que a história se fecha. E se quando estava assistindo o filme me perguntava se ele não se repetia em diálogos, agora acredito que estas cenas eram importantes para justamente enfatizar a angústia da protagonista ao perceber que sua última vontade não será realizada. E confiamos na delegada, da mesma maneira, de que a ré não deve ir presa.

Há muito que se discutir aqui em um filme simples de produção e execução complexa. A força das duas atrizes – Sophie Marceau e Miou Miou – o confinamento e a montagem nos levam para outra categoria de narrativa em que só desvendamos aos poucos, tirando suas camadas de significados dos olhares e diálogos. O mesmo vale para os planos, os cortes e movimentos de câmera: a vítima é sempre o olhar subjetivo, a câmera nervosa e trêmula porque está à espera do pior – que sempre vem. É o grande trunfo da obra que só se comprova à medida que vamos encerrando. Sentimos como se fôssemos vítimas da violência doméstica ali mostrada, em uma mistura de vergonha e humilhação que vai muito além da dor física. Em um papel secundário entregue aos flashbacks, vale ressaltar a grande atuação de Marc Barbé, como o vilão, aquele que sempre odiaremos por representar tão bem toda a maldade que pode ser direcionada a uma mulher. Não suficiente, o fechamento do filme ressalta a habilidade na construção do roteiro, em que se concluem as histórias particulares das personagens com um tapa na cara de todos. É inesperado, forte e nos deixa perplexos, como um soco no estômago. E praticamente em um só ambiente.

10 de maio de 2014

Entre Nós

Filmes de volta no tempo tendem a ser pessimistas, como as ficções científicas ou até as comédias sobre crianças que querem ser adultos. Em Entre Nós somos levados por amigos de classe média alta, felizes e com vinte e poucos anos cheios de ideias e planos para o futuro. É nessa idade que criamos expectativas de carreira, relacionamentos, de vida. O que vem depois raramente chega perto do que se espera, ainda mais quando nossas decisões são graves o suficiente para impedir tantas realizações e alegrias.

O filme conta a história de um grupo de jovens aspirantes a escritores, que se reúne para passar férias numa casa de campo. O ano é 1992 e juntos decidem se escrever cartas e enterra-las para serem abertas depois de dez anos. Nesta viagem, dois deles sofrem um acidente e um morre, deixando um livro pronto enquanto o outro ainda estava escrevendo seu primeiro romance.
O mote usado não incomoda: o sobrevivente assume a autoria do livro que se torna um sucesso. Recentemente vimos outros com a mesma ideia, de Woody Allen Você vai conhecer o homem dos seus sonhos e As Palavras, com Bradley Cooper no elenco. Quando os amigos se reencontram para abrir as cartas, confrontam anos de um passado cheio de alegrias, mas que começou trágico. Os personagens amadurecidos e um tanto amargos pelo tempo se encaram para uma tarefa agora não tão prazerosa, afinal, cada um sabe o que se prometeu e as ideias de um futuro melhor ficaram apenas no papel. Não apenas isso, é uma década de transição política e econômica para o país. A alusão não é gratuita: os Morelli fizeram questão de pegar o período e enquadrar aí jovens que já estivessem em idade de analisar criticamente tanto suas vidas quanto o contexto.

Há alguns incômodos de roteiro e atuação; espera-se que o personagem de Caio Blat tome atitudes que não se concretizam, ficamos presos em cenas de suspense que se esvaziam com uma trilha sonora que se perde em ênfases gratuitas. Maria Ribeiro também deixa a desejar, como se estivesse sempre esperando seu momento – a impressão que nos passa é que ela não segue fluida, como Carolina Dieckmann. Esta surpreende juntamente com Paulo Vilhena nos dois momentos do filme, particularmente nas cenas de ‘2002’. Rodado quase todo em uma locação, participamos dos jogos de cena e das sequências de suspense e romances frustrados – ainda frágeis, mas boas tentativas – enriquecidas com uma trilha sonora oscilante, que ganha com Caetano Veloso, nostálgico e doce em Na asa do vento.


O drama é um diferencial nesse atual cinema brasileiro. O filme conseguiu sair da comédia escrachada televisiva e dos filmes violentos – mesmo com o carimbo Globo Filmes, o que pode ser uma abertura para novos olhares – vemos uma estrutura narrativa com cara de cinema, brasileiro, bem construído, com uma montagem que sustenta uma trama psicológica em que as ações estão mais concentradas em trocas de olhares, falas e silêncios. Ao mesmo tempo, a fotografia intensifica a tensão em planos fechados nos rostos dos atores, enquanto define o isolamento psicológico de cada personagem diante de uma paisagem explorada em planos abertos. Dirigido por Paulo Morelli – de Cidade dos Homens e Viva Voz – com co-direção de seu filho Pedro, esperamos que a partir deste possamos ver mais filmes ‘grandes’ menos televisivos em salas comerciais, que abordem temas e classes distintas das favelas e estereótipos do restante do país. O cinema brasileiro carrega uma gama considerável de bons filmes, mas por falta de recursos e apoio na distribuição, são vistos em festivais para tentar alcançar público e visibilidade e acabam em poucas semanas de circuito comercial. Com Entre Nós talvez ocorra diferente com o apelo dos atores, uma distribuição pesada e uma produção de qualidade. É esperar o público participar e perceber que podemos fazer filmes diferentes dos gêneros já estabelecidos no país.

12 de abril de 2014

Ela


Uma pesquisa recente diz que checamos nossos telefones em média 100 vezes por dia.

Todos os dias ela acorda com o despertador do telefone. No tato, silencia o aparelho. Minutos depois, pega os óculos e checa o que pode haver mudado em menos de oito horas, porque sua noite não chega a tanto. Passa o dia com o aparelho por perto, recebe recados, tenta atender a todos. Trabalha em um computador e se divide entre tarefas longe dele, o celular, o telefone do trabalho. Em casa, vê televisão, programa o despertador, lê um pouco – quando ‘dá tempo’ – checa o aparelho pela última vez. Conversa com alguém e dorme. São sempre pessoas reais, ela se defende. Mas não há uma sequer, a seu lado. Dorme afogada em travesseiros.

Em Her, Theodore é um homem que mora sozinho e quase não tem vida social, exceto por um casal de vizinhos que visita ocasionalmente. É redator numa empresa que recebe encomendas para escrever cartas pessoais, de amor. Separado da mulher, seus dias funcionam ao redor de máquinas: celular, computador, videogame. Até que ele conhece Samantha, um sistema operacional novo que promete organizar sua vida virtual e acaba fazendo muito mais do que isso.

Nessa correria tecnológica, ela quase não tem tempo pra si, mas isso também parece mudar. Uma desconexão lenta e gradual parece acontecer com o cansaço das redes sociais, os mesmos assuntos, as mesmas pessoas, mesmas publicações. É tudo o mesmo, as diferenças e novidades do início de carreira no mundo virtual se foram. Hoje se conversa sobre o dia a dia, mantendo uma atualização dispensável e frívola. Voltou a ler, a correr, a tentar falar menos (e menos de si) nesses aparelhos e mais ao vivo, a cores e sobre outros assuntos. Theodore fez o caminho inverso. Ao se deparar com um tédio, a velha preguiça de quem é solteiro e tem por obrigação sair, conhecer pessoas, ter experiências para então não ser mais solteiro ou se divertir como um inveterado, encontra em casa um refúgio e agora uma companhia: o software que conversa com você numa voz humana, feminina e sensual e que parece fabricar para si sentimentos em códigos binários a partir de cada nova conversa e atualização.
Spike Jonze busca em seus filmes uma estrutura dramática que, não importa a história, está sempre trabalhando pessoas complicadas em situações que mexem com nosso imaginário – basta lembrar Quero ser John Malkovich e Onde vivem os monstros. Aqui não é diferente: ouvimos a voz sensual de Scarlet Johansson e a fragilidade de um homem sensível e sozinho que, apenas no olhar, notamos em Joaquin Phoenix. Os dois personagens evoluem quando estreitam seu relacionamento. Samantha se humaniza a partir das necessidades de Theodore: uma das perguntas-chave do início do filme é sobre seu relacionamento com a mãe e quando ensaia uma resposta, é cortado pelo sistema que se reinicia sob a voz feminina, sexy e até maternal de nossa personagem. Scarlet é apenas voz e ainda assim - por sua reconhecida imagem de símbolo sexual é impossível confundi-la - imprime toda a carga de uma personagem física, com crescente formatação de sentimentos e alterações - atualizações de si mesma à medida que a história avança. Já Theodore cresce ao redor dela: enquanto Samantha nutre suas carências afetivas e lhe faz companhia como nenhuma pessoa conseguiria, o protagonista passa a se relacionar melhor com as pessoas próximas, mas firmado numa segurança que lhe parece real e, por isso, seus amigos aceitam.

O filme fala sobre solidão no fim das contas e de como buscamos, agora que um chat vale mais do que um abraço, uma resposta imediata para nossos anseios e angústias. Com isso, criamos nestas pessoas virtuais sentimentos verdadeiros plantados em ilusões, em um conforto pela distância e também por ela, uma intimidade que seria conquistada com mais tempo em uma experiência ‘física’. Esse paradoxo é a marca maior do filme e reforça a transformação das relações sociais agora que precisamos das redes para nos comunicar.

É difícil sair dessa falsa zona de conforto que a internet formou em nós. Agora há uma necessidade de se fazer feliz virtualmente, de se mostrar bem, sempre presente e atualizado. Como se toda a nossa vida fosse interessante o tempo inteiro e neste mesmo instante devêssemos dividi-la com os nossos 700 amigos. Assim, qualquer pessoa que utilize minimamente estas redes provavelmente não passará incólume ao filme. O diretor leva o caso ao extremo, a hipérbole do relacionamento com uma máquina nada mais é do que uma grande sacada – além de um tapa na cara – para nos trazer à realidade. Hoje não se usa mais o telefone para fazer ligações. Estas voltaram a ser raras não por seu custo, mas porque nos aproximam mais da realidade, de alguma forma ganharam um misto de invasão, incômodo e intimidade. Assim, usamos a troca de mensagens instantâneas para qualquer situação, salvo para falar com nossos pais. Além de trabalhar com a internet, fazemos todo o resto, como lembra muito bem Medianeras. Compras, envio de currículos, rede social de amizades, de trabalho, de relacionamento, de jogos. Perdemos um tempo razoável publicando notícias sobre nós mesmos. Vamos a exposições para fazer check-in, a menos que seja proibido fotografá-las, aí somos obrigados a parar para ver. A ansiedade em compartilhar é tão urgente que não conseguimos prestar atenção no que está diante de nós e publicamos fotos de costas para o que fomos conhecer, porque na verdade, o objetivo é só dizer que estava lá. É como ler a orelha do livro e dizer que conhece a história, rezando para que não te perguntem nada. O que importa é estar por dentro.
Agora ela pensa em como pode ter 700 amigos e ainda se sentir sozinha de vez em quando. Diariamente fala com no máximo 7 deles e mesmo assim, não muito. Chega a ser assustador pensar que há 700 pessoas olhando seus movimentos, recados, fotos engraçadas. Ao mesmo tempo, acha inusitado que vejam o que escreve, não é uma pessoa desinteressante, acredita. É mais uma mistura de narcisismo e carência, mas sabe que seu caso não é dos mais graves e sabe que dentre estes 700, há aqueles que não ficam um dia sem acessar a vida virtual, sem atualizar, ainda que só queiram uma resposta para um ‘bom dia’, por falta de assunto.

O clímax do filme nos faz pensar em como são os relacionamentos a distância, como criamos neles uma dependência com nossas expectativas sempre frustradas e porque os evitamos - ou insistimos em manter. Eles são uma versão do que está na tela, numa montagem crescente e íntima - com uma trilha sonora delicada que nos acalenta sem percebermos - em que vemos Theodore mais feliz, melhorando como pessoa, mas seguindo por um caminho torto e sem saída, a menos que estejamos numa rara ficção científica otimista. E, se passamos o filme com pena de nosso herói em sua jornada a um provável fracasso, quanto tempo demoramos a abrir um chat com alguém, mandar uma mensagem, publicar sobre o filme, tirar uma foto assim que saímos dele?