27 de julho de 2015

What happened, Miss Simone?

Achava que não conhecia nada de Nina Simone. Tinha até vergonha de falar, já que depois do documentário, todo mundo parecia saber dela há muito tempo e eu, pra variar, estava por fora. A sinopse instiga, perguntando o que uma mulher que conseguiu fama, riqueza e família poderia querer mais. Não teve jeito: uma pergunta dessas não dá pra ignorar.

Agora posso dizer que sei e sabia mais ou menos quem foi Nina Simone. Descobri não sei quantas músicas dela e outras interpretadas inesquecíveis e sensacionais. Descobri que essa mulher negra nascida no sul dos Estados Unidos na década de 30 não veio a passeio e deixou sua marca cedo, quando queria ser uma musicista e tocar piano clássico no Carnegie Hall. Não saber muito sobre ela até hoje, mas conhecer suas músicas só foi possível com esse novo e sensível documentário produzido pelo Netflix e Radical Media.

Há duas coisas a serem ditas – há mais, mas comecemos por duas. A primeira é sobre o próprio Netflix, cuja diversidade de produções vem crescendo absurdamente e agora estamos saindo dos blockbusteres e dos filmes cult conhecidos e investindo em coisas mais bacanas como documentários e filmes independentes. Ainda não é aquela estante larga e variada de cinema de autor que tinha na locadora que trabalhei no século passado, mas está chegando lá. Meu desejo antigo e satisfeito de trabalhar ali hoje é parecido com a vontade de ser curadora desse portal mágico da felicidade. Ao mesmo tempo, estrear e ser uma produção Netflix significa (por enquanto) que não irá para o cinema, o que é uma lástima. Um filme desses numa tela maior, com toda a aura de uma grande sala, tem, necessariamente, outro impacto.
A segunda coisa a ser dita é sobre a própria natureza deste documentário. Robert Drew, no recém-lançado A verdade de cada um (org. Amir Labaki, diversos autores – ótimo), fala sobre sua visão documental e de como ela precisa se apropriar de uma veia dramática para ter interesse. E esse é o fator que diferencia um bom filme de outro razoável. Exposição de fatos é jornalismo, uma forma completamente distinta e superficial da narrativa densa da estrutura clássica de uma obra de ficção. Por mais controverso que pareça, para ser documentário, há que seguir da mesma forma, estabelecendo tempos narrativos de distensão, clímax, pontos de virada, resoluções de conflitos. E Liz Garbus faz isso muito bem. Esta documentarista que acabo de conhecer com Miss Simone, tem outro filme na plataforma, sobre Marilyn Monroe (Love, Marilyn, 1012) e um terceiro, também biografia, retratando o xadrezista, Bobby Fischer. Em Miss Simone, pelo menos, foi feliz na escolha do tema e da forma.

Voltando à cantora, só resta a confirmação de que meus amigos estavam certos: o filme é muito bom. Ele busca um pouco do que conhecemos do tradicional documentário americano com aqueles depoimentos de pessoas sentadas, mas isso funciona como ilustração e pontuação das transformações da protagonista. Há não sei quanto de duração de imagens de arquivo que se equilibram bem, entre festivais, programas de TV, shows e filmagens domésticas de infância até o ambiente familiar de então e descobrimos que quem achávamos ser uma figura ‘desconhecida’, foi também ativista de direitos civis, mãe, compositora, artista, mulher. É uma história de luta e redescobrimento de alguém que foi vivendo sem escolher onde pisar, se perdeu, se reergueu e aí sim, encontrou seu caminho.

Somos guiados pela música e por sua voz, em depoimentos de uma voz off quase sobrenatural, mas que não assusta: é bom ouvi-la ao invés de sempre esperar que falem por ela. Como com Tina Turner, ela também apanhava e era estuprada pelo marido que a obrigava a trabalhar além da conta e, da mesma forma suportava, sem saber exatamente por quê. E ao ouvi-lo falar e se mostrar para a câmera, o asco nos toma, nas atrocidades que narra não há arrependimento gerando um desconforto que se repete, quando ouvimos de sua filha relatos impressionantes sobre maus tratos agora vindo de sua mãe e de como, ela decidiu morar com o pai, após a separação. 
Se um filme documentário requer estrutura dramática, este faz com precisão. Quando descobrimos aquelas músicas que hoje são gravadas em outras vozes ali, naquela suavidade e força em Nina Simone, cada estrofe soa como uma grande surpresa. E a montagem dos depoimentos incomoda pouco – até por eles serem concisos e contarem gradualmente a efervescência, clímax e catástrofe de nossa heroína – entre seus diários ali recortados em trechos manuscritos que traduzem o íntimo de uma mulher conturbada que parecia nunca conseguir parar pra pensar. Ao mesmo tempo, senti falta de alguma história sobre seus pais e sete irmãos, de que pouco sabemos. Talvez tenha sido uma escolha da direção pela dificuldade de conseguir arquivos e depoimentos relacionados a eles, à exceção do que foi ali exposto.

Em cada volta do parafuso da vida de Nina Simone há uma busca de razão, prazer, força, felicidade e justiça, e que por fim encontra algum equilíbrio, entre a bipolaridade com a medicação que a controla va e reprimia, a aceitação em não ser a pianista clássica, mas a cantora e pianista que atravessou grandes estilos da música norte-americana, se tornou uma das maiores vozes de seu país, deixou de ser só a cantora para ser também a ativista dos direitos dos negros americanos e que morreu cedo demais, sem aceitar que tudo tinha era tudo o que queria.

E agora deu vontade de ver tudo de novo.

26 de julho de 2015

10.000km


A primeira sequência do filme vem sem cortes, introduzindo a intimidade de um apartamento de um casal jovem, uma luz de manhã entre janelas, um ambiente de cotidiano e familiaridade. Parece que estamos diante de uma história real, de um casal real. Poderia ser, poderia ser a história de qualquer um que tenha vivido um relacionamento a distância.

Quando vi o trailer na internet, o filme não havia sido – e não foi – lançado nos cinemas. Encontrei no Netflix e me tomou um tempo para assistir, já que é um reencontro com as semelhanças de uma história pessoal, passada. Namoro a distância é um desafio difícil, um jogo em que todas as regras parecem existir para dificultar a permanência, testando persistentemente o amor que há ali.

Então, neste primeiro plano-sequencia vemos de uma cena de sexo buscando uma gestação, ao motivo do drama: Álex (Natalia Tena) recebeu um e-mail com uma proposta de ser fotógrafa bolsista em Los Angeles. Álex e Sergi (David Verdaguer) vivem juntos em Barcelona. Eles se amam e depois de alguma discussão, decidem o óbvio – a proposta era boa demais para ser negada e é apenas um ano, eles são fortes, sobreviverão a esses 10.000km de distância e empurrarão pra frente o filho prometido.

Como a marcação da passagem do tempo em 500 dias com ela, com a literal contagem e exibição de alguns dias, aqui acontece o mesmo, mas linearmente. Assim, vemos a transformação dos dois personagens tal qual da relação, o que era saudade vira cobrança e carência, de um lado fica a memória física, os itens do apartamento, os amigos em comum, Barcelona cheia de lembranças de Álex para Sergi, cuja vida parece ter parado no tempo, enquanto a primeira segue reinicializando tudo do outro lado do Atlântico, decidindo quem quer ser, o que quer fazer. O filme todo se cerca dos apartamentos dos dois protagonistas em diálogos mediados por celular, whatsapp, skype, e-mail e ali também estão todas as etapas da distância, o sexo por vídeo, o desejo interrompido. A ausência de contato físico se converte no excesso de verbalização, tudo é motivo de conversa, mas sempre sobre eles mesmos e aí, o esgotamento é inevitável. As vidas compartilhadas em ligações não são, claramente, as vividas em separado e é essa distinção o grande teste para o casal e o trunfo do filme. Para os atores, grande desafio, visto que só há eles na trama - a proposta do diretor de focar no casal é acertada e as sutilezas dos diálogos e olhares e situações entre dois apartamentos nos deixa quase claustrofóbicos em alguns momentos, sufocados como os personagens daquele confinamento voluntário. Estamos falando de Barcelona e Los Angeles, cidades óbvias de interesse e turismo, com suas belezas e culturas extremamente distintas e que os influencia até na tomada de decisões, mas que não vemos, não fazem parte do argumento do filme, apenas suas localizações. E aí, nossa concentração se volta toda para suas trocas e a riqueza com que tratam em detalhes íntimos e sinceros sua história. As exceções de cenas fora do apartamento são as fotos tiradas por Álex, fazem parte de seu projeto de fotografar espaços urbanos vazios, estranhos – causando ainda mais estranhamento e vazio falar do que está fora, distante do outro, de quem não pode participar – as fotos aparecem para Sergi e para nós, como uma cidade fantasma, quase sem vida, cujos rostos de Google Earth - únicas imagens de outras pessoas, estão esfumaçadas para preservar seu anonimato e insignificância na narrativa. 
Enquanto Álex parece ser uma espécie de ‘culpada’ por tudo aquilo, na verdade a situação imposta é apenas um catalisador para um incômodo velado – ela não sabe mais sobre seu futuro com Sergi, o que quer pra si. A gravidez que nunca vinha e agora adiada é um ponto importante e definidor para a mulher. Ela está num momento de clímax profissional, fazendo exatamente o que sempre quis – e também é o momento de decidir se esse filho virá e adiará seus objetivos. O filme que parece simples e envolto na sobrevivência do relacionamento, se complexifica e enriquece, com um dilema da mulher de hoje, sem julgamentos, mas impondo decisões. Há, da mesma forma, como o homem se relaciona com essa postura e Sergi não é machista, mas ele precisa se reconhecer e entender seu papel ali, entender se ele também se adequa aos interesses da amada e se vale a pena continuar com esta Álex em transformação.

Enquanto mulher que saiu de casa para morar em outro estado – numa distância muito menor que 10.000km – e deixou alguém ‘a esperar e ver o que acontece’ para seguir sua carreira, a identificação foi imediata. Há uma sinceridade e não me esquivo de pensar se o diretor e roteirista Carlos Marques-Marcet também não teve essa vivência – ou, no mínimo, a pesquisa foi muito bem feita. A construção da intimidade destes dois atores, a verdade que eles passam e que já é a abertura do filme, nos levam por um mesmo caminho de reflexões e escolhas. Intenso, com atuações impressionantes, este é um filme de dois atores que não cansa, é honesto e lindo em sua construção, com uma trilha sonora que dói e é magnífica e me fez reviver algumas situações até o final  - e aqui eu gostaria de usar 'mais sincero e coeso impossível', que fez a obra levar 17 prêmios e 22 indicações em diversos festivais.

2 de julho de 2015

Enquanto somos jovens

Enquanto somos jovens é o tipo do filme que te deixa em dúvida quando você passa pelo cartaz. Naomi Watts e Ben Stiller parecem um casal improvável para o cinema, ele meio bobo, ela, uma atriz de peso maior. Não suficiente, Amanda Seyfried quase nos faz desistir de vez – não fosse um filme de Noah Baumbach (dos lindos A Lula e a Baleia e Margot e o Casamento) chamando novamente Adam Driver – tudo estaria perdido.

Exageros à parte e explicando melhor o diretor e seu pupilo: os dois estiveram juntos em Frances Ha, outro filme sobre maturidade, sensível, amoroso, engraçado, em p&b e com uma trilha sonora genial. Frances Ha surpreende em mil e um aspectos e nos mostra como é difícil tornar-se adulto quando se é uma alma criativa e delicada em uma cidade grande – as oportunidades chegam na gradação dos desafios.
Ben Stiller é Josh, um documentarista que não consegue terminar seu novo filme. Em anos de preparação e montagem – e algumas regravações – a insegurança em produzir algo o impede de entregar a obra e ele se divide entre a postergação e as aulas que ministra na universidade. Lá, descobre Jamie (Adam Driver), um aluno aficionado por seu trabalho, lhe oferecendo o carinho no ego e assim, a vaidade de Josh volta à tona como um filho sempre elogiado pelos pais. Naomi Watts é Cornelia, casada com Josh e produtora dos documentários do pai, então um diretor renomado, que tenta sempre ajudar o genro. A amizade de Jamie – e Darby (Amanda Seyfried), a namorada – com Josh e Cornelia são o cerne da trama. A graça toda começa aí e admito logo que o filme parece que foi feito pra mim – assumo o egocentrismo – tratando de documentário, verdades e mentiras na realização de uma obra, os mestres do ‘gênero’ citados, analogias sobre o que é verdade e simulacro, a ética na produção artística, o refinamento da comédia – ainda que esbarre em alguns exageros – maturidade e o mais importante: a brincadeira com esse novo personagem das metrópoles – o hipster.

O hipster é o cult amplificado. Antes era tudo sobre filmes estrangeiros, tatuagens, rock e cabelos compridos. Agora é uma categoria, um acumulado de percepções que mistura toda a superficialidade de ser alternativo – o hipster continua como o cult, lendo as primeiras páginas de todos os livros, cultuando bandas que ninguém ouviu falar, odiando hollywood, indo pra exposições de arte contemporânea e performances de artistas desconhecidos, usando o mesmo uniforme, criticando o que lhes é alheio em festas estranhas com gente esquisita. Com todo o exagero que uma redução assim traz, o filme traça o paralelo entre essa turma e aqueles que passaram por ela e veem nessa juventude, uma espécie de espelho distorcido de um passado glorioso.
O novo dá lugar ao retrô ao mesmo tempo que a instantaneidade é a marca dessa geração. Tudo deve acontecer ao mesmo tempo, tudo tem que ser registrado, tudo é audiovisual, tudo serve, é arte. Se quando lançaram a franquia BBB, incomodava a invasão da vida alheia, a exposição de intimidades na tv, hoje fazemos gratuita e voluntariamente nas redes sociais – não espanta a redução da audiência dos programas (sem mencionar a qualidade). Ao mesmo tempo, o estímulo dessa forma de registro encontra a alimentação na vaidade e carência e aí Josh se perde, confunde seu papel de mestre como o de alguém que deve ser ovacionado e faz de tudo para continuar jovem, afinal, são um casal de meia idade sem filhos, então, com a liberdade garantida para se manterem assim – em oposição ao casal de quem se afastam, da mesma idade: são amigos que acabam de ter um filho, passam a lidar com o nascimento da família e vêem o fim das fantasias e aventuras de então.

O filme percorre os conflitos e diferenças entre as gerações, em um roteiro rico de comparações mordazes em dores e alegrias que os casais dividem. Mais uma vez, não consigo ver muito aprofundamento em Amanda Seyfried, mas Adam Driver é o perfil exato – como Woody Allen em seus filmes, sempre o mesmo e sempre bem – da caricatura do jovem antenado, enquanto Ben Stiller e Naomi Watts se esforçam – em ótimas performances – para alcançá-lo, se perdendo sem perceber. Em paralelo ao tratamento da maturidade – tema frequente nos filmes do diretor – vemos uma homenagem ao cinema com um esboço de uma discussão teórica bem inserida no contexto do filme – a ética na construção de uma obra esbarrando no caráter de quem a fez. E aí é debate sem fim, cuja solução encontrada aqui é apenas uma das possibilidades – e que já levanta polêmicas.

Comédia leve e despretensiosa que de 'boba não tem nada', não chega a ser um Frances Ha, mas consegue nos deixar pensando – especialmente se você está entre os dois casais – sobre crescer, sobre até onde vai o jovem que ansiamos ser eternamente e em que momento encontramos – sem maiores tragédias – a maturidade. Ainda que o final da história se atrapalhe num clichê, é garantida a diversão neste filme para ver depois de um longo dia de trabalho.

25 de junho de 2015

Segunda Chance

Comecei a prestar atenção no trabalho de Susanne Bier a partir de Em um mundo melhor, de 2010 que levou o Oscar de Filme Estrangeiro. O filme contava a história de um médico europeu em missão na África que precisava decidir se salvaria a vida de um ditador desses que trucida mulheres em todos os níveis e assassina a oposição. Em paralelo, mistura-se o profissional e o privado, à medida que sua família desmorona no outro continente com uma crise conjugal e um filho adolescente que se torna amigo de um garoto problemático. A obra consegue nos tornar permeáveis ao que se passa e nos colocamos na posição do protagonista – e aí a coisa muda de figura e entendemos porque além do Oscar, levou o Globo de Ouro e outros 10 prêmios pelo mundo.

Antes disso, em 2007, mas com menos impacto, ela já tinha feito Coisas que perdemos pelo caminho sobre o luto e a reconstrução da vida – também com uma questão a ser resolvida aqui. O filme bom, com atuações impressionantes de Benício Del Toro e Halle Berry já identificava o tema das perdas em nossas vidas – mas não havia me chamado à atenção para a direção.
Este ano estreou Segunda chance. Outro dilema moral, aqui a história está centrada no policial Andreas (Nikolaj Coster-Waldau – Jamie Lannister, de Game of Thrones), casado, que de repente encontra seu filho de um ano morto em casa. Em desespero ao ver sua mulher Anna (Maria Bonnevie, de Reconstrução de um Amor) em uma crise irreversível, revisita a casa onde havia feito uma batida policial e cuidara de um bebê com sinais de maus tratos, deixa o corpo de seu filho e pega a criança viva, acreditando que o casal viciado em drogas entenderá que o bebê morreu de alguma forma e que eles não teriam condições de salvá-lo. Esse é o trailer de um filme que nos deixará tensos até o último minuto.

O que parece o início de uma trajetória difícil é só a ponta do iceberg de um dilema moral em que, novamente, a diretora consegue nos atingir fundo. Sofremos com Andreas e Anna – entre o luto e a aceitação de uma segunda chance de felicidade – se é que existe a possibilidade, sofremos com Sanne (a modelo-agora atriz, May Andersen), mãe da criança que insiste em dizer que aquele cadáver não é seu de filho, e só não sofremos com Tristan (Nikolaj Lie Kaas, também de Reconstrução de um Amor) porque ele realmente é um cara complicado e garante algum humor ácido. Com um elenco estelar do cinema dinamarquês e uma tensão que não nos permite piscar, não sabemos o que esperar do final de uma história tão intensa.

Uma amiga escreveu sobre o filme tratando da dramaticidade da história, de como as perdas e o tema forte pesaram nela. Para mim e também para Camila – a comadre das sessões semanais de cinema – a percepção foi outra: o roteiro é tão bem construído e a diretora já tem em si o olhar de mostrar a vida como ela é ao invés de criar uma trilha sonora e construção de cenas que enfatizassem a lá novela a trama e o drama, que a ânsia era em ver o desfecho e entender – como consegui minutos antes da dissolução – como a história se fecharia. E saímos satisfeitas – se a palavra for essa e perplexas com o que vimos.

Além da estrutura narrativa ter seu peso comprovado em atuações impecáveis – como ver os olhares de pânico e choque de Maria Bonnevie se transformando, o desespero do personagem Andreas e até a relação que mantém com o veterano Ulrich Thomsen (Em um mundo melhor) como Simon, seu amigo e colega de trabalho que também convive com seus demônios, a fotografia e as locações reforçam a obra. É interessante entender o contexto cultural – é quase bizarro ver a mãe levando o filho que chorava em passeios noturnos para acalmá-lo. Ela caminhava de sua casa – num bairro deserto – tarde da noite, levando o filho num carrinho de bebê no acostamento das ruas na tranquilidade de um domingo no parque. Só em ver a cena, o público brasileiro já imagina que alguma tragédia acontecerá, mas não: é o dia-a-dia de uma cidade muito mais segura do que as nossas. A própria residência – cujas luzes da fachada reforçavam a delicadeza da fotografia – ressaltavam o afastamento do centro urbano. A ideia era deixá-los isolados, evidenciando tanto uma necessidade de se manter a paz e felicidade familiares (ou até o desespero nas cenas seguintes), como uma vida perfeita em oposição ao apartamento entulhado, sujo e desorganizado do casal ‘bandido’. 

Lançado internacionalmente ano passado, resta saber se terá fôlego para mais alguma premiação além do título em San Sebastian e outras quatro indicações. De qualquer forma, este tem o mesmo peso de Em um mundo melhor e ainda deixou a vontade de ver o restante da filmografia da diretora. A certeza da evolução estética e narrativa é um fato, nos dando a quase certeza de que bons filmes dessa diretora nos aguardam.

16 de junho de 2015

Streetwise

I love to fly. It's just you're alone, there's peace and quiet, nothing around you but clear blue sky. No one to hassle you. No one to tell you where to go or what to do. The only bad part about flying is having to come back down to the fuckin' world.
Rat.


Comecei a levar o cinema a sério quando era adolescente. Na verdade, não sei se foi sem querer ou que tipo de
vocação e indicações me apareciam, mas assistia tudo o que me apresentavam e
comecei a prestar mais atenção nos filmes diferentes. Acho que é uma
curiosidade insaciável de viver tudo e conhecer tudo e os filmes são um grande
facilitador, como uma janela para vários mundos e experiências.

Então, meio sem saber direito o porquê e acho que na mesma época, assisti Kids (1995), Christiane F. (1981), Diário de um Adolescente (1995) e Laura Palmer (1992). Todos causaram impacto absurdo, mas acho que Kids me aterrorizou mais, porque parecia mais próximo. Na época lembro que não tinha gostado muito, acho que não tinha compreendido direito e fiquei com uma impressão de que aquilo tudo era um exagero, um filme sem necessidade. Mas, na verdade, estava realmente assustada. Aqueles jovens de classe média, vivendo na rua, usando drogas e se entregando a riscos e descaso em meio às descobertas de si e do mundo era algo que me deixava perplexa, porque eles também eram adolescentes e ainda tinha uma protagonista tão inocente quanto eu, mas menos medrosa – e talvez eu me visse nela. A narrativa, que parecia acompanhar um grupo real de jovens, tirava a tinta da fantasia e nos deixava a todos, os de verdade e os da ficção, no mesmo mundo.

Christiane F. e Diário de um Adolescente mesmo sendo bastante diferentes, tinham uma roupagem que me deixava mais distante deles. Não tinha amigos que usavam as drogas, a própria Christiane F. era viciada em heroína e eu nem sabia direito o que era. Na minha adolescência, o máximo que se ouvia falar era de um vizinho mais velho da rua da casa de meus avós que fumava maconha e isso era quase um sinônimo de “pessoa muito assustadora, nunca fale com ele”. Então, ainda que estes filmes trouxessem histórias tristes e difíceis, especialmente Christiane, por ser baseado em uma história real, era mais um aprendizado do que algo que assustasse de fato. Por fim, Laura Palmer, meu primeiro David Lynch. Como vinha de um seriado cuja existência eu desconhecia, entrei no meio da história dessa adolescente que buscava uma diversão mais arriscada numa cidade pequena e muito bizarra. Na verdade, exceto pela questão da prostituição e das fantasias – não era um filme permitido para menores – senti uma atração absurda por aquela forma de direção, a bizarrice surrealista, um humor macabro e uma trilha sonora e fotografia sedutoras me ganharam e nunca mais fui a mesma. Mas esse é o mais distante dos três outros.

Este mês morreu Mary Ellen Mark, uma grande fotógrafa americana desconhecida pra mim. Depois de começar a estudar fotografia, um dos meus interesses é conhecer o trabalho dos ícones pela mesma razão que vejo filmes de tudo quanto é canto. Assim, fiquei feliz de não conhecê-la ainda e depois um pouco triste dela ter morrido. Descobri que tinha produzido um documentário em 1984 e que seu marido o dirigiu, Streetwise. Sem saber nada sobre, fui atrás - o filme tinha alguma grande referência onde buscava e vi que algo importante tinha ali. Até parei de pesquisar as incríveis fotografias e o encontrei completo na internet.  Semana passada, Kids, Christiane F., Laura Palmer, Diário de um Adolescente e até Taxi Driver vieram juntos  e de vez em mim, com esse filme impecável.
E implacável. Streetwise conta a história de um grupo de adolescentes que vive nas ruas de Seattle e sua rotina consiste em drogas, furtos, prostituição, sobrevivência, mendicância, violência e algum carinho, amor e cuidado. Eles estão ali um pouco por opção, por virem de famílias desestruturadas, por achar que aquele é o melhor ou único meio que têm ou por uma conclusão que varie das anteriores. O filme é feito nos moldes do cinema direto, acompanhando a vida de 9 personagens, quase sem intervenção. Ao mesmo tempo, há momentos de depoimentos que se intercalam com a rotina, mas quase não se ouvem perguntas, tampouco se vê o câmera ou o diretor. Ficamos perplexos com a franqueza daqueles jovens subnutridos de feições infantis e discurso firmado em um presente que nos deixa sem esperança ou até 'permissão' de imaginar qualquer tipo de futuro.

A protagonista é Tiny (Erin Blackwell) uma prostituta de 14 anos – e incomoda muito descrevê-la assim. Sua mãe alcoólatra acredita que a jovem está passando por uma fase e aceita sua escolha, como se todos vivêssemos em um mundo de contrários, onde a distorção é regra. Tiny nos conta, com uma consciência tranquila e precoce, como costuma se dar bem nas ruas, porque muitos homens têm taras em meninas muito novas, ou como quando anuncia para mãe a possibilidade de estar grávida. Ao mesmo tempo que segura essa independência familiar, mantém um relacionamento amoroso com Rat, outro garoto da mesma idade que nos conta como ela já quer se casar sendo tão jovem. Essa sinceridade permeia todos os personagens; não há vergonha em falar de si, de como se vive, do que se faz. Ficamos nos perguntando se tudo isso não faz parte de uma encenação deles mesmos, como uma defesa quando se provoca alguém ou simplesmente ao ligar a câmera, mas não. A consistência e o credo no que dizem e vivem confirmam cada sentença.

O filme foi feito com o intuito de evidenciar que até em Seattle – considerada na época uma das melhores cidades americanas para viver – existia crianças e adolescentes que sobreviviam nas ruas. Kids veio direto à mente nos primeiros 5 minutos, talvez pela displicência com que vivem, transmitindo um realismo angustiante, muito pior que a ficção. Em Taxi Driver, é impossível  não relacionar a personagem de Jodie Foster a Tiny, ainda que pareça ser mera coincidência.

Imprescindível para quem estuda e gosta de documentários, o modelo do cinema direto é marcado sempre por registrar a situação com uma interferência clara – não se quer esconder que é um filme – mas que busca o registro sem interromper ou propor conclusões precipitadas. Estas acabam partindo de nós, espectadores. E ali, naqueles 9 personagens de uma história sem final (feliz, aparentemente), vemos um pouco de tudo o que acontece com muitos jovens em qualquer lugar do mundo em 1984, antes, hoje e amanhã. São como uma eterna uma geração marginal sem futuro, vivendo somente do agora. Não são inocentes, na medida em que podem tentar reverter suas vidas, mas são também inocentes, quando encontram ali sua razão de sobrevivência. Assassinatos, prostituição, suicídio, gravidez, dsts, violência, assaltos. E são tão crianças que não sabemos o que sentir, diante de uma falsa esperteza, uma malandragem ingênua que em uma confusão de sentimentos, percebemos mais pena do que raiva.
Streetwise é também um livro de fotografias de 1988 e Tiny teve sua vida acompanhada nos anos seguintes. Em 2005 Martin Bell e Mary Ellen Mark fizeram um curta de resgate sobre ela. Hoje, Erin Blackwell não é tiny, mas uma mãe de 10 filhos de diversos pais, casada. Streetwise ganhará uma sequência, com financiamento no kickstarter e em breve saberemos o futuro destes ex-jovens à margem, tendo certeza que destes, pelo menos 3 morreram ainda nos anos 80. Que Mary Ellen descanse em paz, sou grata por ter lhe descoberto, um pouco triste e eterna fã. 

22 de abril de 2015

Cidadão Quatro

Este foi provavelmente o filme mais impactante do É Tudo Verdade desse ano. Arrisco a afirmação quase como certeza, já que os 43 prêmios – incluindo o Oscar – e 16 outras indicações parecem concordar. Não que um filme precise de atestados de qualidade, mas Cidadão Quatro vai muito além de um documentário sobre espionagem.

O choque vem em grande parte do próprio tema: descobrimos que os Estados Unidos e mais alguns países, investigam cada espirro que qualquer pessoa no globo dá. Eles sabem o exato momento e local. O que de antemão não parece grandes coisas e uma teoria da conspiração já teria certeza disso há muito tempo, tem implicações maiores. Como o protagonista e principal agente da alegação reflete, o problema não está na simples invasão de privacidade, mas no que ela acarreta – em termos de violação da intimidade, diferenças de opinião, negociações entre grandes empresas, articulações políticas. Pensando de forma ampla: como você se sente livre, sabendo que um governo retem todas as informações a seu respeito? O quão à vontade você fica para se opor a ele, por exemplo? Para se manifestar contrário a qualquer conceito que a maioria apoie? O assunto aqui não é só sobre que sites você visita escondido na internet.

O que Edward Joseph Snowden, com então 29 anos, americano, morando no Havaí com uma conta bancária recheada, um trabalho exclusivo e uma namorada queria ao arriscar tudo em prol de nossa liberdade de restringir nossa privacidade a quem nos interessa? Talvez ele tenha percebido o alcance de seu trabalho, um prestador de serviços de alto escalão para a Agência Nacional de Segurança, com acesso irrestrito à vida privada de qualquer pessoa. De certa forma, o próprio Facebook já fornece boa parte das informações sobre nossas vidas – ou melhor, nós fazemos isso através dele – mas a permissão não dada a um governo de ter acesso indiscriminado a essas informações é a grande questão. Snowden conclui que o povo americano – e consequentemente todo o planeta – deveria pelo menos, saber o que está acontecendo com seus dados e opinar se deseja divulgá-los a quem quer que seja por quaisquer que sejam as razões. Então, ele viaja para Hong Kong em sigilo e aguarda Laura Poitras – a diretora do filme – e Glenn Greenwald – jornalista do The Guardian, para as entrevistas que mudarão a vida de todos nós.

De acordo com a filmografia da diretora e informações no filme, Cidadão Quatro é o terceiro filme da trilogia que a diretora fez sobre o Onze de Setembro (de 2001). Os outros filmes não chegaram aqui, mas por sinopse e estética do atual, notamos que busca no Cinema Direto uma aproximação de linguagem. Assim, vemos em tempo real as afirmações e acontecimentos quando da entrevista de Snowden e as repercussões na mídia, na vida de cada um envolvido no escândalo. Tememos por todos, eles se tornaram não ingenuamente os propagadores das verdades inconvenientes sobre os grandes sistemas secretos de vigilância do governo e sociedade mais paranoicos que existem. Essa tensão provocada diante das perseguições, possíveis ameaças, fuga de Snowden para lugares mais seguros, tentativas frustradas de exílio, perda de contato entre eles, nos deixa com os olhos grudados na tela em um suspense sem fim, digno do melhor Hitchcock. E é essa a grande sacada do filme: se formos pensar bem, já conhecemos e a história – é de 2013. Mas, independente de quando aconteceu, o filme consegue nos manter numa tensão como se fossem notícias de ontem ou de meia hora atrás. A graça do Cinema Direto é justamente essa: o retrato de uma situação presente, suas consequências, seu desenvolvimento. Não há reconstituições, imagens de arquivo retratando um passado, nada disso. Sofremos por imaginar uma potencial catástrofe na vida de nossos heróis, imaginamos o alcance da espionagem na vida de todas as pessoas, pensamos em nossa própria, no que queremos proteger e divulgar e, por fim, nos sentimos indefesos, diante da certeza de que tudo o que é nosso, agora pode ser de todo mundo.

A diretora aprofunda e dá um contexto ao presente: intercala as entrevistas e repercussões da delação de Snowden com entrevistas de Obama e outros funcionários da Agência, filmagens dos “centros de investigação”, as distâncias obrigatórias criadas entre eles e um final impressionante que nos deixa ainda mais curiosos e instigados a continuar ali, aguardando a sequencia deste Cidadão. Saí com a impressão de que era uma ficção, ao ver uma história tão bem construída, de como surpreendente e invasivo era aquilo tudo e de que parecia realmente uma versão inteligente, realista e apurada de um filme de espião. Agora é torcer para consequências menos drásticas a estes que já tiveram suas vidas alteradas em definitivo e esperar passarmos despercebidos por mais essa malha fina - agora do neurótico governo gringo imperialista.

Título Original: Citizen Four
Diretora: Laura Poitras
2014 EUA / Alemanha / Reino Unido

14 de abril de 2015

É Tudo Verdade 2015


Essa semana, em São Paulo e no Rio de Janeiro acontece a vigésima edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Dirigido e idealizado por Amir Labaki, o evento se consagrou como um dos mais importantes termômetros para avaliar as produções do gênero no mundo. Entre os destaques, uma mostra ao homenageado e incansável Vladimir Carvalho, um filme de seu irmão, fotógrafo e cineasta Walter Carvalho, a estreia do último filme de Eduardo Coutinho, Últimas Conversas e um panorama do que acontece no mundo e no Brasil em mostras competitivas de curtas e longas, bem como outras retrospectivas que homenageiam o gênero nesses 20 anos e seminários. Ontem, estivemos em duas sessões: Competitiva Internacional de Curtas e o longa nacional Sete Visitas, de Douglas Duarte. Como sempre, ficou claro que ainda há muito para ver até o dia 19 de abril e a mostra de curtas abriu o apetite e deixou a vontade de passar a semana inteira nos cinemas. O É Tudo Verdade é gratuito, acontece essa semana e na próxima em São Paulo e no Rio de Janeiro, seguindo depois para Belo Horizonte, Santos e Brasília. Mais informações sobre programação e salas do circuito em www.etudoverdade.com.br


Leia mais sobre o Festival e os primeiros filmes da Competitiva Internaiconal de Curtas no Blah Cultural!

7 de abril de 2015

Mad Men :: Blah Cultural

Essa semana é o início do fim de uma era. Como anunciada pela própria AMC, detentora dos direitos de exibição de Mad Men nos Estados Unidos, uma das maiores séries de todos os tempos chega ao fim. E não é daqueles finais de mentira, em que ano que vem mudam de ideia e produzem mais uma temporada. Essa termina mesmo. Mas por que uma série sobre os homens das agências de publicidade nos anos 60 em Nova York faria tanto sucesso agora?

Don Draper (John Hamm) é o diretor criativo da Sterling Cooper, uma agência de publicidade de Manhattan. Casado, família feliz no subúrbio e mulher perfeita, é o padrão do homem de negócios que vive uma vida dupla, com suas liberdades na cidade e o conforto de um lar sempre bem arrumado e disponível para lhe atender. Betty Draper (January Jones) é sua mulher, uma ex-modelo que largou a iniciante carreira para se casar com o homem dos sonhos. Ansiosa e começando a ter ataques de pânico, ficamos surpresos de já perceber uma complexidade em uma personagem que não parecia ser tão importante na trama. Ledo engano. Veja porquê, no Blah Cultural!