Comecei a ler The War of Art, de Steven
Pressfield. Esse livro foi uma forte indicação de Robert McKee, a quem
fui assistir o workshop em NY. Ele é o consultor de roteiros mais bem sucedido dos
Estados Unidos e também tem um livro interessante pra quem quer escrever, se interessa etc, Story. O livro de Pressfield fala sobre os obstáculos à criação, de forma geral e como atravessar as armadilhas e seguir em frente em seu processo.
O caso é que estava aqui lendo o prefácio – do próprio McKee
– e lembrei umas coisas do seminário, em que falava que devemos ter garra e
paciência, que uma boa história não surge do nada, mas de muito esforço, tempo para errar e acertar, para desenvolver, amadurecer as ideias. Ele fala
que a primeira ideia normalmente nem é essa coisa incrível que pensamos quando
vamos desenvolvê-la. Aí vemos que realmente, outros caminhos se
formam e surge um produto muito mais bonito, bem acabado, interessante. Que talento, eu diria agora, é a arte de seguir em frente após a suposta grande ideia e encontrar um resultado bom, depois de uma longa jornada.
Pois bem.
Essa noite fui ao teatro, ver um musical sobre Frank
Sinatra. Há muitas semanas sem ver nada, surgiu o convite e fui lá. Confesso que
sou resistente com teatro, não é a minha arte, meu negócio é com cinema e
literatura, no máximo com TV. O teatro me quebra um pouco a ilusão que o cinema traz quase gratuitamente, e normalmente as
peças razoáveis me parecem muito ruins. Mais ruins do que filmes ruins. Não sou estúpida também: as peças boas que já assisti me marcaram profundamente e seguem comigo como referências de arte para a vida.
Em todo caso, era
uma estreia e era Sinatra e eu tinha voltado da NY de Sinatra, achei que
valeria lembrar os momentos do passeio. O que importa disso tudo é que
no final, o diretor nos informou que a peça foi montada em 28 dias. Isso é
menos que um mês. É Fevereiro, que nem é um mês de verdade, mas um carnaval,
véspera de ano novo. Eu não sei o tempo de desenvolvimento de um espetáculo,
mas 28 dias para consolidar uma história, com um ‘roteiro’ bem escrito,
diálogos interessantes, afinação entre os atores e o texto, atores e atores,
atores e músicos, atores e música... é muito pouco, não?
É óbvio que a resposta é sim. E isso fica claro no primeiro
diálogo, sem exagero, em que somos obrigados a
saber que ali Sinatra tinha 45 anos e que não tinha se casado com ninguém, de forma gratuita, como uma resposta a uma pergunta que ninguém fez. Um texto introdutório, forçando sua
biografia e depois uma sequência sem fim de músicas mal interpretadas, como um
cover preguiçoso. Pior do que tudo isso: não havia história. Era
como ouvir um cd ruim, daquelas versões piratas distorcidas de um cantor bom.
As quatro bailarinas atrizes que
acompanhavam o Sinatra da vez, coitadas, sobrou quase nada para elas, além de uns passos
de sapateado e meia dúzia de falas. Do meio pro final nem isso tem, um Sinatra
caído pelos cantos, invadindo a plateia com uma pronúncia esquisita – e mais uma vez lembro McKee
contando algo sobre o cantor e sua dicção perfeita (vale prestar atenção) – emendando um
hit atrás do outro.
Orgulhosos de seu rebento, o diretor, elenco e equipe
estavam felizes. Natural, faz parte do show, é justo. Mas se vangloriar de uma peça montada nas coxas, não tem condição. Se ao menos
houvesse uma história legal... as mulheres de Sinatra, interpretadas de relance
pelas meninas bailarinas, se perdem no meio do caminho... e logo elas, que foram mulheres esplêndidas! Deveriam ter feito uma
introdução ao público com um folheto, informando que não esperem muito, justificando essa ausência de estrutura - não por opção estética, mas quase como uma desculpa. Mas, de novo, sem tempo. E mais: a peça não foi escrita em 28 dias - imagino eu. O texto deveria ser a única coisa pronta - já que ele é o ponto de partida para qualquer obra - e ninguém notou que estava faltando algo? Pelo menos a banda de jazz, ao fundo, era boa.
Eu percebi que McKee me deixou ainda mais inconveniente. Mas convenhamos: fazer
arte assim, não é fazer por amor. Fazer com amor toma tempo, cuidado, carinho.
Não é só correria, calor e agonia. Foi a primeira vez que fui ao teatro e não
tinha nada pra contar depois. De repente esse livro de Pressfield me tira a
procrastinação e me leva de volta a meus filmes de boas histórias, às peças com
texto, a roteiros por vir, textos a escrever. Esse sinatra pobre me serviu para fazer ouvir o verdadeiro e maiúsculo, além de me incomodar o suficiente para me fazer escrever essas anotações - não pretendo ser crítica teatral - e isso, por si só, já vale agradecer.
Marcadores: Ficção, Frank Sinatra, História, Robert McKee, Roteiro, Steven Pressfield, Teatro
Os Miseráveis
desse ano é uma adaptação do musical de 1980 ainda em cartaz e, claro, do livro
de Victor Hugo, de 1862. Como toda versão, subtrai alguns personagens – o livro tem 5
volumes e inúmeras figuras menores em histórias que orbitam Jean Valjean e Javert – a fim de manter o
ritmo da narrativa fílmica. Ainda assim, poderia ter-se cortado um pouco mais.
Jean Valjean e Javert (Russel Crowe) se atraem e repelem
todo o filme, e esse cabo de guerra cansa; da mesma forma que Lincoln se
arrasta por quase três horas em busca do clímax, aqui, mesmo com uma montagem
mais dinâmica – o ritmo de um musical se dá como uma correnteza de canções que nos
embala até o fim – a repetição beira a monotonia. Somos salvos pela fluidez das
tramas paralelas, dos outros personagens que completam a história. Assim,
temos o romance da juventude – a esperança em um amor puro; a insurreição
estudantil que transformará a nação e salvará os miseráveis do fim – como uma
utopia e a redenção, que encerra a trama.
As músicas são – claro – a melhor parte. De início
estranhamos Russel Crowe – me parecia sempre muito truculento para um musical –
e nos apaixonamos, como dito, por Anne Hathaway. As músicas de revolução; na
prisão e nas barricadas, nos carregam e nos fazem, tímidos, cantar o refrão para dentro. Assim, somos carregados, como crianças ao dormir,
para um sono de aventura, drama, romance, tragédia e alguma vitória. O filme
traz de volta os musicais grandiosos que surgem de tempos em tempos com o
propósito de nos enternecer.O gênero é específico quando quase não há diálogo, mas as trocas são todas de sentimento em voz. Por isso, não há como produzir tantos musicais em sequência: o mundo real das brutalidades não permite e a inocência não se sustenta por muito tempo. Nos permitimos poucas doses de grande ilusão de cada vez, como as pequenas e raras gentilezas que nos surpreendem em um dia qualquer. Saímos contaminados com a força de um filme que fala de povo, de infelizes, de alguma preocupação política que devemos ter. Mas saímos também como se tivéssemos visto um blockbuster de Hollywood (esse aqui é inglês), embasbacados pela grandiosidade da produção, entregues à imensidão de uma multidão que trabalhou em conjunto para expor essa tragédia mundo afora. Victor Hugo retornou às livrarias reeditado, impulsionado pelo sucesso do filme. Se a história reduzida já satisfaz, complementá-la com nossa imaginação do que foi omitido pode ser um prazer ainda maior. Com mais de vinte adaptações de apenas um texto, algo precioso nos aguarda.
Marcadores: Anne Hathaway, Anos 2010, Cannes, Drama, França, Hugh Jackman, Inglaterra, Livros, Musical, Oscar, Russel Crowe, Tom Hooper, UK, Victor Hugo

As prévias do Oscar já começaram e os filmes mais cotados são lançados simultaneamente no país. São tantos que, para dar conta destes e dos outros que seguem em circuito, temos que aproveitar as sessões durante a semana. Entretanto, nem tudo são flores e fico pensando por que alguns filmes seguem como favoritos.
Lincoln, de Spielberg é um deles. O filme, apesar da presença de Daniel Day-Lewis, não faz jus às 12 categorias que concorre: é chato.
Não conheço a história do presidente americano em detalhes, mas sua fama vem da luta pela abolição da escravatura com a aprovação da 13ª emenda. Associado a isso, o fim da Guerra de Secessão. Num cenário com potencial dramático, Spielberg perde a mão e nos traz uma fábula exagerada, o herói mítico sem ritmo. Logo na primeira cena vemos dois militares negros conversando com o presidente. Enquanto um é subserviente e concorda com todo o pensamento do líder, o outro assume uma postura crítica diante dos objetivos da guerra e da igualdade de cor. Em paralelo, o presidente atencioso com o primeiro e reflexivo com o segundo e já tiramos daí nossas primeiras conclusões da apresentação do personagem: é, realmente, um cara legal. A primeira escorregada também está aí: outro soldado, agora branco, aparece, conversam e ele cita um trecho de seu discurso mais importante, mas não consegue encerrá-lo. Quando sai de cena, o soldado crítico negro encerra o discurso se provando tão bom e preocupado com a nação quanto seu colega. Por que?
Talvez esteja aí a raiz problemática da trama: um roteiro que concorre ao “maior prêmio de cinema” sequer apresenta uma estrutura coerente. Nos princípios básicos de construção de personagem – especialmente sendo ele o protagonista da obra – sabemos que deve ser apresentado, sofrer alguma transformação e crescer, de qualquer forma. São essas elevações e declives que moldam a estrutura fílmica, garantem os ápices e anticlímax que nos prendem a qualquer enredo. O mais próximo disso que assistimos é Lincoln e os seus comprando votos no Congresso para aprovar sua emenda ou o dilema entre protelar a guerra em prol da alteração da constituição. Se fosse no Brasil, um país historicamente corrupto e levando em consideração a nobre causa que o dignifica, comprar votos ou negociar um estratagema para resolver o conflito, seriam problemas pequenos. Talvez por isso não nos surpreenda tanto quanto as críticas sobre o filme feitas por lá.
Ainda vemos Sally Field como a mãe de família participativa, primeira dama que sofre a perda de um filho e agora um menor risco de perder outro – que decide ir para a guerra. Histérica, como os surtos de sua personagem em Brothers and Sisters, apresenta uma das falhas históricas, em que aparece no Congresso para acompanhar os debates e a votação final da emenda. Imagino que se à época era inimaginável, uma piada, pensar na mulher enquanto eleitora, que dirá ocupando uma cadeira lá – ainda que de ouvinte. Joseph Gordon-Levitt faz um personagem tão de escanteio que não careceria tanto sua participação no filme. Ele é o filho mais velho do presidente, esquecido, isolado. Seu momento de glória é quando decide ir para a guerra, trazendo o drama familiar para o filme. Ainda assim, a supressão de seu personagem não faria tanta falta na história.
O fato é que Spielberg é um romântico ou, ao menos, patriota. A construção disso é clara e parte sobretudo de seu protagonista, da trilha sonora – que faz brilhar o letreiro de Hollywood, tamanha ênfase – e do final com o clímax e posterior conclusão. As derrapadas históricas, concordo com o diretor, fazem parte da construção artística de um fato e doem muito pouco no público. Encantados com Daniel Day-Lewis e seus movimentos limitados, olhar e voz transformados, vemos mais uma vez, um ator completo. Estive me questionando sobre o personagem e, partindo disso, há que se fazer uma retrospectiva de sua carreira para nos darmos conta de que ele não erraria. Olhando fotos no site do filme e o trailer, revivo algumas cenas, olhares do protagonista, ações, postura. Como Joaquin Phoenix em O Mestre, Daniel Day-Lewis justifica a indicação nesta categoria.
Levando em consideração seus concorrentes ao melhor filme, dificilmente ganharia por mérito próprio. A Academia não se baseia somente em qualidade artística e um filme pró-americano, de Spielberg se torna lugar comum. O austríaco-francês Amor e também americano O lado bom da vida são muito mais interessantes e ricos. O peso aqui está na representatividade do tema, no que agrega, na questão racial (olha, há um presidente negro por lá) e na grandiosidade da produção. Não é uma categoria para se levar tão a sério – melhor contar com Filme Estrangeiro, Animação e Documentário – aí sim, costumam fazer boas seleções - mas para entender porque e o que move a indústria cinematográfica americana atualmente e ajudar na escolha do que assistir por aqui.
Marcadores: Anos 2010, Daniel Day-Lewis, Drama, Ficção, Globo de Ouro, Steven Spielberg
Marcadores: Anos 2010, Cannes, Darius Khondji, Drama, Emmanuelle Riva, Ficção, França, Globo de Ouro, Michael Haneke, Oscar, Romance
Na Alemanha de Barbara já não havia guerra escancarada. Era uma situação estabelecida, sob pressão de um país dividido. A liberdade existia até a página dois, quando parávamos de concordar com o sistema. As restrições de cultura e comportamento acabavam por moldar o pensamento, transformando alguns em indivíduos amedrontados e outros em vigias permanentes de um descuido alheio, como câmeras de segurança. Assim, mesmo não sabendo a história prévia de nossa heroína (Nina Hoss), nos afiliamos a ela que, com a frieza da resistência e de quem traça uma meta estampada no rosto, contrasta com o carinho que cede aos seus pacientes. Barbara é o oposto de seu chefe, Andre (Ronald Zehrfeld), um homem atencioso por natureza, que guarda a distância saudável de quem atende.
Marcadores: Alemanha, Anos 2010, Festival de Berlim, Ficção, Guerra Fria, Suspense
Bebês é um documentário de 2012 que acompanha o primeiro ano da vida de 4 bebês espalhados no mundo. Mongólia, Japão, Estados Unidos e Namíbia são os extremos escolhidos por Thomas Balmès a partir de uma ideia do ator Alain Chabat. O objetivo fica claro com o dispositivo: encontrar famílias com histórias completamente diferentes umas das outras e criar um paralelo entre as culturas através desses pequenos personagens.
O cartaz diz everybody loves babies. Mesmo não gostando da propaganda estranha, é difícil encontrar alguém que os deteste. As imagens do pôster já nos mostram como é impossível não amá-los: crianças lindas com aquele olhar penetrante e fofo. Essa atração irresistível que eles exercem em nós nos transporta para fora do mundo duro e real das notícias de jornais, nos deixa esperançosos e bobos, com vozes estranhas e jeito infantil. A docilidade, ternura e inocência são cativantes e aqui intensificadas pela ausência de diálogo. O diretor disse estar fazendo um filme animalista, mas talvez seja mais correto entender como uma etnografia mesmo, daqueles filmes de antropólogos do audiovisual.
A construção do filme os acompanha do nascimento até o primeiro ano, passando pelo primeiro ‘mamãe’, engatinhar, ficar de pé e finalmente, andar. Comemoramos cada vitória nos sorrisos, choros, banhos e xixis das crianças, junto ao carinho que emana de seus pais. Por não haver palavra – linguagem limitadora numa produção multinacional – vemos todos como iguais e as diferenças culturais nos aproximam, aumentando nossa curiosidade e nos fazendo tender a gostar dos mais distantes. Assim, Ponijao é uma delícia de bebê da Namíbia que vive basicamente com sua mãe, outras mulheres e um rebanho de crianças, mama de outros peitos que não os seus e vive a natureza com uma intensidade só comparada a Bayar, seu respectivo na Mongólia. Este, um bebê explorador é o mais encantador de todos. Acostumado a ficar sozinho em casa, amarrado a um tecido para sua proteção – seus pais precisam trabalhar fora ou ausentar-se constantemente – emana uma tranquilidade ao conviver com diversos animais e uma curiosidade que nos gruda um sorriso na cara, como apaixonados pela primeira vez. Esse acompanhar da câmera e sua equipe não desperta tanto a curiosidade das crianças, lhes permitindo agir naturalmente, reforçando mais uma característica de filmes etnográficos, quando a equipe se torna invisível para seus protagonistas.
Hattie, nos Estados Unidos e Mari no Japão não ficam atrás. O detalhe é que por viverem em grandes capitais, com hospitais, tecnologias e urbanidade pulsante, se tornam mais comuns para nós. Continuamos vibrando com suas fofuras, mas as novidades são poucas. É até mais gostosa a identificação pela diferença que temos por Bayar e Ponijao, por perceber formas de viver alternativas, cujo nosso sanitarismo e senso de perigo jamais seriam permitidos aceitar, mas que não deixamos de concordar com eles ainda assim. A força da cultura, imponência do ambiente e da simplicidade, a rotina nessas comunidades ermas – porque são residências isoladas, com muito pouco de tudo ao redor, exceto a natureza – garante uma liberdade, a construção da independência e a vida com pouco se torna muito mais rica aos nossos olhos romantizados.
Com uma fotografia que equilibra grandes paisagens distintas e seus personagens em planos aproximados, temos os bebês e suas famílias de todas as formas possíveis. Em ângulos fechados, acompanhando suas intimidades com um olhar não invasivo, participando da vida de todos sem necessariamente alterá-las. Tudo isso sempre com aspas, já que a mera presença de uma câmera transforma a percepção que temos da realidade filtrada por ela.
O filme foi feito com muito carinho e isso é sentido em toda a sua construção, confirmado no making of, com as famílias se vendo e vendo as demais na tela do computador. A montagem acompanha os quatro em igual medida, nos dando prazer em assistir, querendo sempre mais. Ao mesmo tempo, mais não é possível. Pensar numa série que os acompanhe seria ótimo se não fosse tão voyeurista e invasivo. No fim, vivemos mais ou menos da mesma forma, especialmente quando somos muito pequenos. O filme me apareceu num momento especial; com tantos bebês de amigos perto de mim, é uma delícia ver seu crescimento entre as viagens para Salvador. Quando chego lá, em média a cada 3 meses, é notável a evolução, como se desenvolvem rápido e como encontro nesses Bebês de Balmès e Chabat os meus sobrinhos. Continuam um mistério para mim e à medida que crescem, as linguagens se desenvolvem e participamos mais da vida um do outro, mas o desvendar, o entendimento através do olhar e o sorriso puro, gostaríamos que ficassem para sempre.
Marcadores: Anos 2010, Crianças, Documentário, França, É Tudo Verdade
Take this Waltz ou ridiculamente em português Entre o Amor e a Paixão é um romance. A ficção dirigida por Sarah Polley em 2011 e lançado este ano, trata da jovem Margot (Michelle Williams) dividida entre o amor pelo marido Lou (Seth Rogen) e a paixão inesperada pelo vizinho Daniel (Luke Kirby). Depois de Stories, resolvi levar a diretora/atriz a sério. Sarah entrou para a direção apostando alto e resultando em ótimos filmes, em ficção e não ficção. Canadense, consegue fugir do padrão americano raso sem absorver a suposta profundidade do cinema europeu; os filmes sustentam um equilíbrio de ter algo a dizer e entreter a larga audiência. O próprio documentário já assegura isso com uma linguagem tranquila, trazendo ‘pessoas comuns’ para frente da câmera, mostrando sua insegurança, estranhamento e posterior familiaridade com o equipamento. É como se nos víssemos no lugar deles ao sermos entrevistados e, como é um filme de família, lembramos a nossa própria, rindo das piadas internas e do carinho íntimo que transparece na tela. Neste novo filme, por outro lado, há mais do que uma comédia romântica, mas um filme de personagens sensíveis, onde todos são complexos e categorizar como mocinho ou bandido fica impossível.
Michelle Williams, somando um filme bom a outro, se tornou referência para ir ao cinema. Seus personagens fortes encerram o perfil de recém-saída da adolescência – a primeira lembrança de sua carreira vem de Dawson’s Creek. Aqui, mais uma nuance dos relacionamentos é abordada: um casamento estável e recente entre dois jovens adultos perde sua base diante do novo. O dilema entre uma forte paixão que pode se tornar amor e um amor tranquilo, consolidado e também firme marcam a personagem. Seth Rogen é Lou, o marido tranquilo, uma ponta da corda. Aqui o ator deixa a comédia de lado e assume um homem comum, mas não menos interessante. Com ele não há mistério, Lou é franco, direto, aberto. É alguém que praticamente faz parte de nossa família. Da mesma forma, Sarah Silverman se destaca como sua irmã alcóolatra em remissão, também retraindo a veia cômica muito bem. Geraldine em sua sobriedade e intuição ajuda a cunhada, indicando que o vazio que ela pretende preencher é impossível, faz parte da vida. É o mesmo vazio que a faz procurar a bebida, como uma espécie de ansiedade e melancolia que nos pega desprevenidos de vez em quando.
A construção de Daniel é clara: ele é o ideal romântico, o desconhecido, interessante, artista, atencioso. É o personagem fácil de se gostar, é o que vem de fora, o que traz o novo. Daniel é a curiosidade. Ao mesmo tempo que ele desperta o interesse imediato de quase qualquer mulher, há outras razões para Margot ter se casado com Lou que não a estabilidade - provavelmente Lou foi esse mesmo mistério que ela busca em Daniel. Não há certo ou errado, em resumo. A montagem faz questão de explicitar as relações fora de casa nas escapadas de Margot e Daniel, aumentando a (nossa) ansiedade à medida que eles passam a se conhecer melhor; e dentro de casa com Lou, numa outra ótima situação doméstica e íntima, causando mais dúvidas e algum sofrimento em nossa complicada heroína.
O filme ainda surpreende quando vemos um Canadá fora do estereótipo. É verão e o clima quente imprime sensualidade na fotografia vibrante, cheia de primeiros planos, cores fortes, água e suor, vieses por janelas de vidro e cozinha. Vemos poucas roupas e até o toque dos personagens é carregado de tensão. É essa fotografia que nos prende, que alimenta o filme de forma que não percebemos, mas nos faz mergulhar na história aliviados por não sermos aqueles personagens e, ao mesmo tempo, querendo fazer parte do que vemos ali.
Uma amiga foi assistir comigo e disse ‘lá vem mais um filme sem final’. Acostumada às comédias românticas francesas e americanas, ela prefere aqueles filmes redondos, onde tudo que há pra ser dito é resolvido ali mesmo, na duração do filme. Mas se este se pretende mais próximo da realidade (à exceção da incomum profissão de Daniel), talvez ele não careça de um finalzinho redondo, mas de reticências, interrogações e alguma deixa para o futuro. Sarah Polley faz isso muito bem, talvez seja uma característica dela e não exclusiva da profissão, nas histórias que ajuda a construir, independente do gênero a que se dedica. A condição de permitir que participemos, que elas tomem nossos pensamentos quando saímos da sala, que nos faça discutir e imaginar ou que, pelo menos, tenhamos vivido umas duas horas de prazer, já valem o ingresso e a espera pelo próximo filme.
Marcadores: Anos 2010, Canadá, Ficção, Michelle Williams, Romance, Sarah Polley












