5 de fevereiro de 2016

Maravilhosidades da Netflix - Especial de Carnaval!

Semana de Carnaval é sempre uma loucura, né? Quem viaja pra curtir a festa não pensa em outra coisa, quem curte na própria cidade, também. Tem os sortudos que trabalham na véspera e aceitam sua condição, esperando os minutos passarem em contagem regressiva para o feriadão. Tem gente que está no meio do caminho, que queria o Carnaval ideal – no meu caso, o de Salvador – e se não tem, meio que qualquer coisa serve: vira um feriadão para aproveitar um pouco da festa da cidade, ir a praia, beber com os amigos e recuperar o tempo perdido dos filmes em cartaz nos cinemas, dos VODs da vida e de nossa maravilhosa Netflix.

Não, não ganho um centavo para fazer a propaganda, só acho que a empresa teve uma ótima sacada e que funciona muito bem para ela e para o consumidor. Neste mesmo feriadão apareço aqui novamente com as críticas de Carol e Spotlight, que estão quase prontas e talvez mais alguns do Oscar. Enquanto isso, fiz essa listinha especial com 10 filmes para passarmos o tempo, darmos um intervalo nas festas, curarmos a ressaca ou simplesmente, ficarmos de preguiça:

Embriagado de Amor (2002, Paul Thomas Anderson) – 95 min
Se você é desses que tem preconceito com Adam Sandler, só porque ele fez (fez mesmo) um monte de filme besta, assiste esse. Embriagado é um filme lindo em muitos sentidos: é engraçado, mas inteligentemente engraçado. Acho que você não vai gargalhar, mas vai rir da sutileza das coisas. O filme é lindo também porque mostra um relacionamento entre duas pessoas muito diferentes, diferentes entre si, diferentes do que costumamos ver. É lindo porque a fotografia é...um negócio. E o roteiro é muito bom. Acho que este é um desses filmes subestimados e que passam batido pela maior parte das pessoas, mas vale muito a pena. Ah, já ia esquecendo, o diretor é ninguém menos que Paul Thomas Anderson, o cara que fez Boogie Nights (1997), Magnólia (1999), Sangue Negro (2007) e O Mestre (2012). E ainda leva junto: Emily Watson e Phillip Seymour Hoffman. Agora já era, né? Tem que ver.

Janela Indiscreta (1954, Alfred Hitchcock) – 112min
Hitchcock, gente. Esse é aquele filme incrível que James Stewart é um fotógrafo profissional que está se recuperando em casa de uma perna quebrada. De frente para sua janela há outros prédios, como eu, ele mora de fundos e consegue dar uma olhada na vida da vizinhança nesses momentos de tédio. Lá pelas tantas, acha que testemunha um crime, logo em frente, em uma dessas janelas. Grace Kelly é seu par romântico e co-protagonista na história. Ela é a mocinha independente que gosta e cuida deste “namorado” e vai ajuda-lo a descobrir o que está acontecendo. Muito voyeurismo, grandes diálogos e, é claro, suspense. Presta atenção: em algum momento Hitch aparece, mas sempre discretamente.

Quero ser grande (1988, Penny Marshal) – 108 min
Anos 80, Tom Hanks, comédia. Só isso já vale o filme, né? Esse filme é daqueles de magia, que de súbito você tem outra idade e tem que lidar com essa realidade alternativa, sabe? Muito bom! Nos anos 80, onde tinha aquela ingenuidade e algumas brincadeiras sérias demais para crianças, mas que nessa década, de alguma forma, poderiam acontecer. Saímos desse filme super leves, querendo ser crianças novamente (sempre quero) e viver essa vida mansa sem grandes preocupações. Vai fundo!

Gilbert Grape: aprendiz de sonhador (1993, Lasse Hallström) – 113 min
Parece que agora vai, né? Finalmente Leonardo di Caprio vai ganhar o tal do prometido Oscar. Ganhando todos os prêmios que aparecem pela frente com seu O Regresso (do mestre Iñárritu), o ator é dono de uma carreira sólida desde muito cedo. Neste filme de Lasse Hallström, Leo interpreta Arnie Grape, irmão mais novo de Gilbert (Johnny Depp) em um drama familiar adaptado do livro homônimo de Peter Hedges. Aqui, Gilbert é nosso protagonista, ele quer sair dessa vida, mas precisa cuidar de Arnie, seu irmão que vive com alguma deficiência cognitiva e sua mãe obesa, que nunca sai de casa. Com a família nas costas, vê seus sonhos de mudança cada vez mais distantes. Se você perdeu esse filme na ‘sessão da tarde’ ou naquele ‘domingo maior’, aproveita e assiste. É engraçado, terno, duro, triste e muito muito bom. Foi aqui que Leo recebeu sua primeira (de seis) nomeação ao Oscar – pra quem leva isso muito a sério.

Fargo (1996, Joel Coen e Ethan Coen) – 96min
Um crime mórbido e planejado. Personagens cruéis e algo dá errado. Uma investigadora grávida. Esse filme fantástico é como Cães de Aluguel pra mim, um dos melhores do gênero. Os irmãos Coen são responsáveis por algumas das melhores produções inteligentes do cinema americano das últimas décadas e esse, com certeza, está nesse rol. Com 69 prêmios e 2 Oscars, carrega ninguém menos que William H. Macy, Steve Buscemi, Frances McDormand em performances únicas. É engraçado, sórdido e inteligente. E meio cruel. Mas veja.

A vida de outra mulher (2012, Sylvie Testud) – 97min
Na linha de Quero ser grande, ninguém menos que Juliette Binoche é a protagonista desse romance diferente. Um dia, Marie Speranski acorda e se encontra com um perfil que não parece ser o seu, já que nesse despertar se passou uma noite desde os seus vinte e poucos e ela ainda era uma estudante sem grana. Agora, uma mega empresária com vista para a Torre Eiffel, ocupada e em um casamento em ruínas. Juliette contracena com Mathieu Kassovitz, um dos atores mais relevantes do cinema francês atual. Vale muito ver essa atriz se adaptando num duplo papel, em choque com sua 'nova' realidade.

Taxi Driver (1976, Martin Scorsese) – 113 min
Tem uns filmes que nem dão vontade de escrever nada. Dá vontade de dizer apenas: vá ver e depois a gente conversa. É o que acontece com esse aqui. Taxi Driver é sensacional. Acho que eu o vi mais nova e revi há uns poucos anos e ficou na minha cabeça de uma forma...que comprei o dvd e assisto algumas vezes por ano. É a melhor fase de Scorsese, um desses diretores que sempre acompanhamos. Para quem não liga o nome aos bois, Scorsese é diretor de Touro Indomável (1980), Alice não mora mais aqui (1974), Depois de Horas (1985) sem falar nos novos que são também bons, mas esses aí moram no meu coração há mais tempo. Robert De Niro é Travis, um motorista de táxi entediado, veterano do Vietnã, vivendo em NY, achando tudo aquilo de uma sujeira moral e física avassaladoras. Em um desses dias, se depara com Betsy (Cybill Shepherd) que lhe causa uma comoção pela beleza da moça. Mas as coisas não andam bem e Travis começa a se descontrolar. Durante o filme ainda vemos Jodie Foster fazendo uma prostituta adolescente e Harvey Keitel como seu cafetão.

Um método perigoso (2011, David Cronenberg) – 99 min
Cronenberg é conhecido por fazer filmes estranhos. Não simplesmente “cults” ou “alternativos”, mas que transmitem uma sensação de bizarro, de estranheza mesmo. Neste filme ele segue muito mais sóbrio do que no início de carreira, trazendo uma história baseada em fatos reais que conta o início do relacionamento entre Freud (Viggo Mortensen) e Jung (Michael Fassbender) e o desenvolvimento da psicanálise. No meio disso tudo, surge Sabina Spielrein (Keira Knightley), uma paciente de Jung com distúrbios psicológicos e que depois se torna, ela mesma, uma das primeiras psicanalistas. Bem construído, com Keira se contorcendo enquanto paciente em agonia – sendo ela talvez a estranheza – nos sentimos no filme como observadores de um momento único na história moderna, evidenciando o velho clichê de que de perto ninguém é normal, mas participando das discussões nos diálogos rápidos e bem construídos sobre as teorias de cada um e como elas se contrapõem às suas vidas. Parece sério demais, mas pense que quem fez este, fez também A Mosca (1986), Mistérios e Paixões (1991), Cosmópolis (2012) e Mapa para as Estrelas (2014). De narrativa o rapaz entende.

Mad Men (2007-2015, Matthew Weiner) – 50min/episódio
Se você quiser ser agressiva(o), tem essa grande opção de série, 7 temporadas, que encerrou oficialmente ano passado me deixando órfã e triste. Mad Men trata da vida de uma agência de publicidade de Nova York que sai dos anos 50 e entra na era de transformação das comunicações, a década de 60. Tem histórias reais da propaganda, interação com marcas de verdade e as vidas no trabalho e pessoais daquela equipe, com um elenco de peso: Jon Hamm, Elisabeth Moss, Vincent Kartheiser, Joan Harris, John Slattery e tantos outros. Vencedora de não sei quantos Emmys ao longo de suas temporadas, a série é maravilhosa. O roteiro te deixa sem querer respirar e há uma complexidade de personagens pouco vista hoje, junto com o tratamento histórico real da época. Tem tudo: drama, comédia, romance e muita emoção. Direção de arte, fotografia, figurino, trilha sonora, o final de Mad Men foi, como diz seu último slogan the end of an era. É uma das melhores séries já feitas. Finalmente uma crítica! :)


Promises (2001,  B.Z.Goldberg, Justine Shapiro e Carlos Bolado) – 106 min
Para encerrar essa maratona, um documentário que traz alguma esperança. Promessas de um novo mundo (título em português) eu vi tem bastante tempo. De 2001, o filme acompanha a vida de sete crianças judias e palestinas em Jerusalém e como elas se percebem, percebem o outro e convivem. Nestes três anos, vemos as mudanças por que passam essas crianças, a inocência que vai se perdendo e como em cada família os ideais e visões políticas podem ser tão distintas. O filme é incrível porque parte do olhar da infância até uma parte da adolescência e percebemos as ingenuidades se fragmentando, ainda que permaneçam nestas idades. É um olhar que busca o complexo, sair da dicotomia de que quem se considera certo e errado em questões bastante delicadas e elas também, complexas. Fundamental.

30 de janeiro de 2016

Maravilhosidades da Netflix - 3a Semana!

Não sei a de vocês, mas a minha semana foi muito corrida. Nem consegui escrever as críticas, mas chegou a bendita sexta-feira e tudo vai acabar bem! Amanhã tem bloco de Carnaval em Paquetá e tenho que acordar bem cedo, mas de tardinha já vale para assistir alguma coisa, né? Por isso, as pérolas dessa semana serão de impacto, desses filmes que não saem da cabeça, criam conversas de bar e, com sorte, alguma polêmica. Não tem essa de 'estava cansada, acabei dormindo'. Nestes aqui, não tem como! 

Noivo neurótico, noiva nervosa (1977, Woody Allen) – 133 minutos. 
Sétimo filme de um diretor de nada menos que 46 longa metragens, é sem sombra de dúvidas, um dos melhores de sua carreira. Woody Allen, com toda a polêmica bizarra sobre sua vida – fico pensando sobre ética e sobre gostar tanto de sua filmografia e não pensar ou tentar não associar isso a sua vida pessoal (um pouco como Polanski, sendo esse caso pior, ou até Michael Jackson, sendo talvez melhor) – e sobre o que muita gente pensa de sua atuação: “é sempre a mesma coisa” ou “ele nem é tão engraçado assim”, esse filme ultrapassa barreiras. É um romance entre Annie Hall (Diane Keaton jovem e complexa, em uma personagem sob medida) e Alvy Singer (Woody), duas pessoas que se conhecem por acaso e vivem uma história de amor como qualquer outra, não fossem os personagens extremamente bem construídos e os diálogos tão deliciosos e pautados na vida real. 

Feito em 1977, antecede Manhattan (outra obra prima, por mais estranho que seja chamar muitas obras de ‘primas’) e faz parte da longa fase New York do diretor. Pra quem adora comédia romântica, é um dos fundamentais, como Harry e Sally.


Making a murderer (2015, Moira Demos e Laura Ricciardi) – 60 min/episódio
Série documental sobre um homem aparentemente acusado erroneamente de ter cometido crimes bárbaros nos Estados Unidos. Condenado duas vezes à prisão perpétua, sendo inocentado pelo primeiro crime 18 anos depois de detido, passamos a conhecer a história de Steven Avery nesta primeira temporada de 10 episódios que nos deixa com vontade de ver mais. Dá muita raiva perceber as injustiças cometidas e o por vir, mas vale a pena. É interessante ver o peso da mídia em influenciar a opinião pública e como as forças locais (polícia e justiça) trabalham em conjunto e decidem por si sobre a vida de alguém pelo que parece ser pura implicância. Não suficiente, a construção da série – produção Netflix, o que significa uma preocupação forte no que diz respeito à narrativa – funciona como um crescente de expectativas e frustrações, mas sempre alimentando nossa curiosidade. Como sou compulsiva com séries, vi em uma semana.


Kramer vs Kramer (1979, Robert Benton) – 105 min
Sim, outro filme dos anos 70. E sim, outro filme sensacional. Kramer vs Kramer foi um dos filmes listados para assistir antes de ir ao curso de roteiro que fiz em NY. Sim, até eu fico pensando que foi em outra vida de tão distante, mas aconteceu, em 2012 e foi muito legal. Voltando ao filme, encontramos Dustin Hoffman e Meryl Streep, como um casal em crise. Joanna Kramer decide sair de casa e deixa Ted Kramer com a tarefa de conciliar o trabalho, a vida doméstica e a educação do filho ainda criança. O filme joga com essa relação homem x mulher, poderes e deveres, relações machistas e readaptação. É muito mais complexo do que um drama de divórcio e muito mais interessante também. Já vi mais de...sei lá, 6 vezes desde que fui ‘obrigada’. É um dos melhores filmes feitos e é muito despretensioso, o que o torna mais especial. E convenhamos: Meryl Streep e Dustin Hoffman juntos não poderiam fazer um filme ruim. Levou os principais prêmios do Oscar de 1980.


A caça (2012, Thomas Vinterberg) – 115 min
Esse é tenso. Um solitário professor de jardim de infância que está tentando conseguir a guarda de seu filho adolescente é acusado de molestar uma garotinha que acontece de ser filha de seu melhor amigo. O clima é pesado e complicado, a trama se desenvolve como uma aula de roteiro e temos Mads Mikkelsen, o novo Hannibal – da série – como aquele que é caçado. O filme levou nada menos que 35 prêmios, além de outras 62 indicações. Dinamarquês, Thomas Vinterberg tem uma forma especial de filmar, baseada um pouco no dogma, mas explorada adiante em grandes filmes, com mais experiência e dinheiro, claro. Vale do início ao fim, só não vale piscar enquanto estiver assistindo.


 Up – Altas Aventuras (2009, Peter Docter e Bob Peterson) – 96 min
E pra aliviar a barra depois dessa agonia toda que A Caça provoca, vai ter desenho! Up é uma comédia para toda a família, mas é divertida de verdade e não é babaca. Ela faz parte da geração das novas animações que conseguem, com um roteiro criativo e inteligente, servir a um grupo diverso de espectadores. O filme conta a história de um senhor que decide ir a Paradise Falls, realizar um antigo sonho e leva meio sem querer um escoteiro muito animado junto. Terno e inteligente, é imperdível mesmo. E, claro, feliz e inocente, como os filmes infantis precisam ser, para dar alguma esperança a essa humanidade.

E aí, gostou? Deixa uns comentários aqui, para eu ver se estamos no caminho certo?! :)

22 de janeiro de 2016

Maravilhosidades da Netflix - 2a Semana!

E chegamos aos indicados da segunda semana! Aqui no Rio estamos vivendo um verão digno de... Gramado?, com uma frente fria que não nos deixa. Claro que com isso não temos praia, aquela vida ao ar livre, correr no calçadão, reclamar do calor dos 40 e não sei quantos graus. Reclama-se da chuva, de roupa molhada e dos incômodos de sempre, mas com certeza estamos dormindo melhor e não ligar o ar condicionado todos os dias é um ganho imenso – a companhia de luz deve estar chateada. O friozinho é sensacional para aquele momento de recolhimento, café quente e preto na caneca, edredon, televisão ligada e não sei quantos filmes e séries que nos deixam felizes confortáveis.

Segue a nova listinha que embala essa preguiça maravilhosa:

What happened, Miss Simone? (2015, Liz Garbus) – 101 minutos.
Você pode até achar que não conhece Nina Simone e ter vergonha de falar isso por aí, já que a mulher ficou muito famosa (de novo) depois desse doc lançado ano passado. Ela reapareceu rapidinho na mídia nos últimos dias porque foi divulgado que David Bowie lhe ajudou em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Quando você assistir esse documentário, vai descobrir não só que a conhece, como a vida conturbada e difícil que esta mulher de voz maravilhosa, inteligência e força levou. Tinha seus problemas e mais dificuldades do que boa parte de nós por sofrer de uma doença mental, mas nada disso a impediu de se tornar uma diva no melhor sentido não-celebridade-fútil pode ter. O filme nos transporta para sua vida e acompanhamos seus dramas, sucessos, felicidades, tragédias e renascimentos. Concorre este ano ao Oscar de melhor documentário. A crítica está aqui!

Cães de Aluguel (1992, Quentin Tarantino) – 99 minutos
Tarantino está em cartaz nos cinemas com seu novo Os oito odiados. Surgiu outra lenda na mídia que indica que todos os seus filmes teriam uma conexão – mas para confirmarmos, temos que revê-los, não é mesmo? Cães de Aluguel para mim é um dos melhores. Eu, inclusive, prefiro estes do início de carreira, que são menos ‘de ação’, têm roteiro com ótimos diálogos e elenco. Aqui, seis ladrões interpretados apenas por: Tarantino, Harvey Keitel, Tim Roth, Steve Buscemi, Edward Bunker e Michael Madsen acabaram de assaltar uma joalheria e alguma coisa dá muito errado. Depois de todo o planejamento, o que se desconfia agora é de que um deles é um policial infiltrado. Tenso, engraçado, inteligente e ácido – além de violento, como não poderia deixar de ser – é a lição número um para conhecer a fundo a filmografia do diretor.  

Tomboy (2011, Céline Sciamma) – 82 minutos.
Em 2014, assisti Girlhood (Garotas) no Festival do Rio. Fui ver sem saber nada do trailer, apenas porque li o nome da diretora e lembrei que era a mesma de Tomboy. Girlhood não está na Netflix, mas espero que chegue algum dia, é sensacional e confirma minha intuição de que é um presente acompanhar a carreira dessa mulher. Tomboy conta a história de Laure (Zoé Haren), de 10 anos, cuja família acaba de se mudar para uma nova casa. Aqui ela terá que se adaptar ao novo bairro, aos novos amigos. Tudo é muito recente, inclusive suas descobertas e transformações. O filme é uma delícia de assistir, é feliz e dramático ao mesmo tempo, é incrível a naturalidade da protagonista em um papel tão complexo e como a direção aborda o tema, com um olhar que nos permite desvendar e acompanhar sua trajetória. Para deixar tudo mais tranquilo nas locações e na dinâmica com atores mirins, Céline chamou os amigos reais de Zoé para participarem – o que funciona muito muito bem. Vale a pena demais. Tem crítica também!!

A delicadeza do amor (2011, David e Stéphane Foenkinos) – 111 minutos.
Como não poderia faltar, tem romance também. A delicadeza do amor é uma comédia romântica francesa que traz Audrey Tautou (Amélie Poulain) e François Damiens (O Novíssimo Testamento) numa parceria digna do melhor café que possa existir. Natalie está se adaptando ao luto, perdeu seu marido, melhor amigo, amor da vida. No trabalho, tenta se livrar das investidas de seu chefe sem noção e, de uma forma inusitada, se encontra com Markus, um sueco sensível que trabalha alguns andares abaixo, no mesmo prédio. Não quero falar mais nada, mas para quem busca um filme engraçado, sensível, fofo e romântico sem dar enjoo, é esse.

 Chef (2014, Jon Favreau) – 114 minutos.
Quem ainda não viu esse filme está perdendo uma das melhores comédias de 2014. Dirigido e protagonizado por Jon Favreau, esse filme independente de elenco estelar (Scarlett Johansson, Sofia Vergara, Robert Downey Jr, John Leguizamo e Dustin Hoffman) é tão divertido e despretensioso quanto literalmente gostoso. Após pedir demissão do restaurante em que trabalhava como chef, Carl (Favreau) resolve montar um food truck (bom e velho podrão que virou gourmet) de comidas maravilhosas. Essa proposta o faz repensar sua forma de viver e se relacionar com seus amigos e familiares. É um filme que dá pra ver com família, amigos, enfim, com qualquer entidade que esteja do seu lado. Arranja uma comida gostosa e senta, porque vale o ingresso!

21 de janeiro de 2016

O novíssimo testamento

Os cristãos radicais que se preparem, vem muita piada pela frente. Que abram seus corações e permitam imaginar uma brincadeira criativa como esta, rodada na Bélgica. Já adianto: vale a pena até o último segundo.

Deus é mau humorado, perverso e cria leis arbitrárias para perturbar a paz de apenas toda a humanidade. Vivendo com sua filha Ea, de 10 anos, sua mulher, uma deusa que tolera as loucuras do marido e aguardando o retorno de JC – sim, Jesus Cristo – ele trabalha incessantemente em um computador, testando nossa paciência com catástrofes naturais, elaborando tragédias pessoais e leis esdrúxulas tão conhecidas entre nós, como a da torrada, que sempre cai com o recheio para baixo. A ideia aqui é que de fato, odiemos o rapaz.
Assim que Ea é espancada por ter entrado no escritório do pai, foge de casa para viver em liberdade. Aconselhada pelo irmão e a um toque no computador, informa a todos os viventes quanto tempo terão de vida e assim, como o próprio Deus assume, agora não precisariam mais dele e levariam suas vidas como bem entendessem. Essa comédia é fantástica em todos os aspectos; sob o olhar literário, a ideia de deus, os milagres, a família, nos remetem a Borges e Cortázar, que criam universos fictícios e nos prendem em seus sistemas de coerências, tornando os absurdos verossímeis. Filmes como Delicatessen (1991, Marc Caro, Jean-Pierre Jeunet), O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001, Jean-Pierre Jeunet) e Quero ser John Malkovich (1999, Spike Jonze) também fazem parte deste grupo. A fundação deste mundo fantástico se dá aqui no conjunto da obra: os cenários na casa de Deus, a forma como chegar à Bruxelas, a ambientação de época. A crítica à religião e sua história seguem o mesmo rumo, nos levando para o território seguro da comédia inteligente – jamais sairemos inertes desta sessão.

Deus é Benoît Poelvoorde o já consagrado ator de Românticos Anônimos (2010, Jean-Pierre Améris) e Coco antes de Chanel (2009, Anne Fontaine). Irritante e desengonçado, tem arroubos de grosseria que nos fazem querer amassar seu crânio, mas a falta de jeito com a própria vida e os azares que a cidade lhe propicia já o fazem pagar pelo que nos deve e rimos de sua desgraça. Yolande Moreau é a mulher de Deus e também uma deusa. Submissa ao marido, aceita todo tipo de violência moral para si e para sua filha. Com um ar inocente e, ao mesmo tempo, indiferente e ingênuo, ela nos remete àquele tipo que aceita tudo por entender que a vida é assim mesmo. Isso irrita, mas há um fundamento. E Yolande o faz magistralmente. Além deles, ainda vemos a esperta Ea (Pili Groyne) e ninguém menos que Catherine Deneuve e François Damiens (A delicadeza do amor e A família Bélier) como os novos apóstolos.
Comédia leve, inteligente e fácil de assistir, é um adendo ao que há de melhor no cinema belga hoje. A  perseguição de Deus corre em paralelo com as transformações da população e as histórias dos apóstolos valem como episódios de um seriado. Há alguns exageros, mas nada que incomode tanto - são mais fruto de simbolismo do que escracho. Quinta ficção de Jaco Van Dormael, a fantasia já se faz característica em seus filmes. Candidato ao Globo de Ouro esse ano como filme estrangeiro, levou outros 6 prêmios e 4 indicações em outros festivais. Imperdível.

20 de janeiro de 2016

O fio de Ariane


Ariane Ascaride (A delicadeza do amor, 2011) é a protagonista da nova comédia de Robert Guédiguian (Marie Jo e seus dois amores, 2002 e As neves do Kilimanjaro, 2011) que está nos cinemas. A atriz é também mulher e musa do diretor que lhe entrega este filme como uma homenagem. A história está centrada no dia de seu aniversário, em que espera e se prepara para receber o marido e os filhos e, por um acaso infeliz, nenhum deles pode comparecer. Ela então resolve sair de casa e fazer do dia, uma aventura.

Na mitologia há uma Ariadne, cujo fio ajuda Teseu, seu amado, a encontrar a saída do labirinto em que estava o Minotauro, metade animal, metade homem que precisava matar. O fio de nossa Ariane é uma guia invisível que a transforma em um amuleto da sorte para quem a encontra. Para além da sorte alheia, é o mesmo fio e narrativa condutora do filme, que lhe permite uma jornada de autoconhecimento e percepção de seu lugar no mundo. A ficção corre nesta direção, orientando a protagonista, lhe transformando numa mestre e aprendiz frente seus novos desafios.

Filme de verão francês, os diálogos são sua graça, mas enquanto estrutura deixa a desejar. Os caminhos que Ariane percorre nesta viagem mudam sua vida de tal maneira e velocidade, que se transformam em uma espécie de sonho, confirmado com a tartaruga, que ganha o status de personagem quando passa a conversar com a protagonista. Nada disso seria um problema se não faltasse um aprofundamento maior nos personagens, cujas histórias particulares e ótimas atuações, em particular dos atores Jean-Pierre Darroussin (taxista) e Gérard Meylan (Denis, dono do restaurante), acenam para um algo mais que não se desenvolve. Ficamos na superfície de histórias grávidas, como contos que acabam rápido demais. 

Mãe de uma família carinhosa, Ariane se é um emblema – o que torna a homenagem ainda mais bonita – de boa pessoa, em um símbolo com missões a resolver, para facilitar a vida de todos e, quem sabe assim, se reencontrar, após sair do labirinto que criou para si. De presente para nós, ainda a vemos cantar e a encontraremos em sua própria Fontana de Trevi, relembrando o clássico felliniano A Doce Vida (1960). De qualquer maneira, o filme acende questões caras ao povo francês, como tolerância, imigração, generosidade e o cuidado com o outro, de forma leve e brincalhona, como um filme razoável para uma tarde de domingo. 

15 de janeiro de 2016

Maravilhosidades da Netflix

Um dos meus programas preferidos era ir uma tarde na videolocadora do bairro, circular pelas estantes, escolher não sei quantos filmes e me internar em casa. Sempre morei perto de Itapuã, em Salvador, e as locadoras do bairro acabaram se tornando pequenas demais, então eu zerava as prateleiras e precisava partir para uma loja maior. Me encontrei na extinta GPW, a maior videolocadora de Salvador, a mais maravilhosa, com a maior variedade. Quando entrei na faculdade de cinema, fiz estágio lá, acabei sendo cliente e funcionária. A vida não poderia ser melhor.

Existia um cargo de indicador de filmes, que era o que todo mundo ali queria ser. Seu trabalho, como diz o título, era sugerir filmes para o público que ficava perdido entre as estantes. Então eu ‘peruava’, assistia algumas indicações, depois conversava com os indicadores. Outras vezes, buscava minhas próprias cobaias, vítimas esquecidas nos corredores, para me meter em suas vidas e sugerir filmes.

Aqui a ideia é a mesma, nossa maior locadora atual, a Netflix, deixa muitos amigos meus perdidos e aí resolvi me meter a indicadora e sugerir 5 por semana, dos imperdíveis da vida. E os primeiros são:

Feitiço do Tempo (1993, Harold Ramis) – 101 minutos.
Bill Murray e Andie McDowell protagonizam essa comédia de erros, com cara de boba, com um roteiro engenhoso e original para a época. Harold Ramis, dirigiu também Ghostbusters, Férias Frustradas e Máfia no Divã. Essa é a base de sua comédia, leve, inteligente, satírica na dose certa, não apelativa. Levou 5 prêmios e outras 8 indicações entre melhor ator, atriz e roteiro.

A outra história americana (1998, Tony Kaye) – 119 minutos
Edward Norton é um ex-neonazista recém-saído da prisão por assassinar duas pessoas, se diz reformado e pronto para ajudar o irmão (Edward Furlong) e impedir que este repita seus erros do passado. Político, polêmico e violento, esse filme não nos deixa piscar um segundo. Edward Norton perdeu o Oscar para o inusitado Roberto Benini, de A Vida é Bela.

Harry e Sally – feitos um para o outro (1989, Rob Reiner) – 96 minutos.
Se fosse produzido nesta década, é um fato que a história viraria um seriado. Comédia romântica mais clássica e maravilhosa de todas, vale se você está apaixonado, se começou a namorar agora, se está casado há décadas, infeliz, se tomou pé na bunda, se não está com ninguém. Tem tudo aí dentro, sem falar nos diálogos excepcionais que Nora Ephron criou e a trilha sonora imbatível. Lançou de vez Meg Ryan e deixou Billy Crystal até charmoso. Levou 4 prêmios e 16 indicações, incluindo melhor ator, atriz, roteiro e filme.

Psicose (1960, Alfred Hitchcock) – 108 minutos.
Acho que não preciso falar desse. Suspense clássico, reconhecido por todos, um dos melhores filmes já feitos, de ninguém menos que Hitchcock, que inaugura nosso terror dos chuveiros com cortina branca. Anthony Perkins é Norman Bates, dono de um motel de beira de estrada que vive com sua mãe adoentada numa casa de colina. Em uma noite chuvosa, recebe Marion Crane (Janet Leigh), uma mulher em fuga que precisa descansar por uma noite. É nesse clima de abandono e tensão que tudo acontece. Esse filme é da categoria impossível deixar de ver. Tem tudo aí: romance, intriga, independência feminina, trapaça, crime, suspense, terror. Hitchcock ficava na porta dos cinemas e não permitia aos atrasados entrar na sala. Daí você imagina a relevância e o cuidado que o mestre tinha com o espectador e sua obra. Esse tem crítica!

Maidentrip (2013, Jillian Schlesinger) – 82 minutos.
O primeiro documentário da lista, conta a travessia que Laura Dekker, com apenas 14 anos, fez pelos oceanos do planeta. Seu sonho de vida era viajar o mundo em um barco e, com experiência cultivada na família, conseguiu autorização da justiça holandesa para enfrentar o desafio. Com câmeras no barco e se filmando todo o tempo, temos a impressão de participar de sua jornada, nas dificuldades e alegrias. Além de paisagens deslumbrantes, vemos a garota amadurecer e perceber que essa aventura é muito menos romântica do que lhe parecia. Ela carrega hoje o título de pessoa mais jovem a fazer a circum-navegação pelo planeta. Esse tem crítica!

13 de janeiro de 2016

Que viva Eisenstein! - 10 dias que abalaram o México

Um diretor de cinema virgem aos 33 anos, reprimido sexualmente encontra nesta situação sua válvula de escape para produções que transformam o olhar sobre o cinema no mundo. Ao viajar para o México a convite de um escritor americano que financia um grandioso projeto de cinema, se depara com o calor dos trópicos, a vida latina, sua sexualidade aflorada à base de pimenta e um modo de vida que desconhecia. Poderia ser uma ficção qualquer, um romance clichê se não fosse por alguns detalhes: a assinatura de Peter Greenaway e Sergei Eisenstein como seu protagonista.

Greenaway teve a ideia de retratar Eisenstein nos dez dias que passou na cidade de Guanajuato, durante as filmagens de seu novo filme. O projeto iniciado em 1932 nunca foi adiante, Eisenstein não teve acesso aos negativos para edição, foi obrigado a retornar à União Soviética e apenas em 1979, Grigori Aleksandrov monta o filme a partir dos storyboards, textos e anotações do diretor russo já falecido. Até aí, nenhuma questão, senão uma releitura sobre um grande personagem que pouco conhecemos em sua intimidade. 
Autor de O ladrão, o cozinheiro, sua mulher e o amante (1989), Livro de Cabeceira (1996), e outros que marcaram a cinematografia por sua inventividade e roteiros originais, Greenaway traz um jovem Eisenstein com o perfil de um gênio infantil, que ainda não se descobriu sexualmente. O autor de Encouraçado Potemkim (1925), Greve (1925) e Outubro (1928) é redesenhado perambulando pela cidade com seu guia e posterior amante Palomino Cañedo (Luís Alberti), descobrindo um modo de vida mais livre, perigoso e, em seu caso particular, com luxos que jamais teria em seu país.

Há aí dois pontos de inflexão: o primeiro é de que o filme é muito divertido. E muito bom, se não partirmos da ótica cinéfila que se ofende quando brincamos com os ídolos. Eisenstein é esse jovem histriônico, vibrante e de fala rápida, como se a velocidade do pensamento não acompanhasse a voz. A interpretação de Elmer Bäck é magnífica e abraça integralmente a proposta do filme; ele está à vontade no personagem bonachão, ultrapassa a semelhança física com aquele da vida real e ficamos esperando mais, como se essas quase duas horas não fossem suficientes para participarmos de suas aventuras e transformações. 
O segundo ponto é o de que Greenaway não quis fazer um documentário, um filme baseado em fatos reais ou uma cinebiografia como vem sendo alardeado por aí. Pode-se dizer que é um filme homenagem sobre um grande diretor que, muito provavelmente, boa parte do público sabe quem é de ouvir falar. Seus filmes de maior relevância remontam os anos 20, tratam da Revolução Russa e sim, são muito bons, mas nunca farão parte da cultura popular. Não são filmes fáceis, apesar de dinâmicos. Os três: Potemkim, Outubro e Greve, todos anteriores à viagem do México, trazem as bases teóricas de um autor de cinema completo, que trabalhava a prática e o pensamento acerca de sua arte. Figura obrigatória das escolas e fundador de uma das mais antigas escolas de cinema, o Eisenstein teórico lançou as bases da montagem de filmes de uma forma que ainda hoje poucos fazem bem.  Se por um lado, Greenaway criou um herói que jamais saberemos o quão fiel à realidade seria e aí há um risco apenas purista – e talvez até supérfluo – por outro, o resgatou para a contemporaneidade e estimulou a curiosidade do público sobre sua obra e vida. Eisenstein virou pop.
                                        
De resto, está tudo aí: o diretor, como sempre, brinca com a linguagem, apresentando nosso protagonista diversas vezes entre fotos reais e imagens do ficcional, ao mesmo tempo o relacionando a uma semelhança física e remarcando o território da ficção. Outros terão a mesma apresentação: o fotógrafo e seu produtor – que apenas são pontuados na obra, assim como Diego Rivera e Frida Kahlo. A divisão da tela em três partes, repetição de planos e sobreposição são tanto uma tentativa de homenagear o russo, quanto a liberdade de um diretor já estabelecido. Os movimentos de câmera especificamente no quarto de hotel onde Eisenstein se hospeda marcam um trabalho complexo de toda a equipe, em planos que parecem tomar os 360 graus do ambiente em uma discussão com os financiadores e não chegamos a ficar tontos, mas é surpreendente ver o preparo dos atores, a coreografia da cena, a criação de um clima cada vez mais tenso e dramático – ainda que sempre sarcástico. A fotografia é um deleite à parte e, de novo, outra marca desta cinematografia junto com o trabalho do departamento de arte. Os contrastes, o terno branco de Eisenstein – o único que tinha – se opõe às roupas escuras e elegantes de seu guia. A aura dourada da suíte, com banheira e chuveiro com canos dourados, o piso claro e translúcido, uma cama imensa traduzem um luxo impossível para o soviético.
O filme foca no relacionamento de Cañedo e Eisenstein e suas diferenças culturais, além de reafirmar a impossibilidade de conclusão do projeto mexicano. As causas para o fracasso foram tanto de cronograma quanto orçamento e é estranho pensar desta maneira quando não era o primeiro filme de um diretor conhecido por sua competência. A inferência é de que Eisenstein teria se desconcentrado naquele país ao se descobrir enquanto homem, se permitindo viver uma história de amor impossível na União Soviética – ou na Rússia contemporânea – sendo crime, o relacionamento homossexual. Mas, novamente, são interpretações baseadas na história da produção e na criatividade deste diretor. Por fim, o filme é tão rápido e cheio de nuances, que dá vontade de rever, para retomar alguns diálogos e planos. Mas calma, não deve ser levado tão a sério pelos fãs do soviético. Greenaway investiu tanto nesta experiência que seu próximo filme está em produção e traz novamente nosso herói, agora encontrando as personalidades do mundo que cruzaram seu caminho. Estamos aguardando.

10 de janeiro de 2016

10 melhores de 2015

O Blah Cultural, revista de cultura virtual em que escrevo algumas críticas de cinema, solicitou a mim e aos outros colaboradores uma lista dos nossos melhores filmes do ano. É um negócio bem complicado esse, porque são muitos os aspectos a considerar, além do gosto que, claro, é um grande motivador. Assim, a revista traçou a média dos colunistas e a matéria final está aqui, nesse link. Por outro lado, achei legal deixar minha listinha aqui, que considera apenas os filmes que vi – o que significa que podem haver filmes ainda melhores que estes da lista, eu só não tive o prazer de experimentá-los. 

FORÇA MAIOR, de Ruben Östlund

Escrevi a crítica. O filme é grandioso sob muitos aspectos: o apuro estético e uniforme, quase matemático do figurino contrastando com a fotografia e os enquadramentos. Estes valem por si só e seu sentido é explicitado através da montagem, com o crescimento de uma tensão silenciosa que nos acompanha e é potencializado a cada sequência. Um roteiro que nos brinda com a chegada de uma família aparentemente perfeita e feliz – como muitas o são quando vistas a uma certa distância – para uma semana de esqui em um grande resort. Em certo momento, uma catástrofe se anuncia e o resultado disso impactará gravemente em cada um. Ainda assim, o filme não sai hermético, mas consegue sustentar um humor refinado e brutal. Esse é um daqueles filmes que podem ser vistos várias vezes.

O JULGAMENTO DE VIVIANE AMSALEM, de Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz

É um dos que devo a crítica ainda. Vi já no final do ano e é um filme que surpreendeu pelo longo tempo que ficou em cartaz. Viviane Amsalem vive em Israel e solicita o divórcio a seu marido, que lhe nega incontáveis vezes. A batalha dessa mulher na corte para conseguir o seu direito esbarra num código que, mais uma vez, favorece o homem, quando apenas com o consentimento dele – e não uma decisão judicial imparcial – é possível conseguir a separação. O filme se passa quase todo numa mesma sala, a corte, com os mesmos personagens e praticamente o mesmo diálogo, deixando claro, mas não cansativo para o espectador, o absurdo da situação. Ronit Elkabetz é Viviane e também a diretora da obra, persistente e paciente até o limite da razão. Prometo que é o oposto do tédio.

ÓRFÃOS DO ELDORADO, de Guilherme Coelho

Com certeza o melhor filme brasileiro do ano. A crítica está aqui e ainda fiz uma entrevista com o diretor. Baseado no livro homônimo de Milton Hatoum e primeira ficção do diretor, com Dira Paes e Daniel de Oliveira em um drama rodado no Pará. Uma história em que amor, família, herança e mistério caminham juntos com uma fotografia que deixa qualquer um que já visitou a região morrendo de saudades. Se no início somos seduzidos pelo encontro dos dois protagonistas, até o final seremos sugados não só por eles, mas por uma busca insana que Arminto (Daniel de Oliveira) precisa fazer para conseguir viver. Não dá pra falar mais do que isso, sem tirar a graça.

SEGUNDA CHANCE, de Susanne Bier

O primeiro filme que vi da diretora foi Em um mundo melhor (2010). Filmado na África, conta a história de um médico que precisa decidir se salvará a vida de um terrorista local, cujo prazer consiste em estuprar e assassinar mulheres. O conflito ético resvala numa crise familiar de tal forma que sentimos a mesma dificuldade sobre que rumo tomar, caso estivéssemos naquela situação. Em Segunda Chance há outro conflito. Aqui um policial perde o filho ainda criança e precisa decidir se ficará com o bebê de um bandido, cuja família é incapaz de lhe oferecer uma vida melhor. Mais uma vez, a diretora nos deixa entregue à nossa moral. Tenso até o final e com atuações impecáveis, por favor, veja e vamos discutir! A crítica está aqui.

BLIND, de Eskil Vogt

Uma mulher cega em seu apartamento passa os dias ouvindo música sentada numa cadeira em frente a uma janela que tem vista para a rua. Assim conhecemos Eilin e sua condição é tanto ponto de partida quanto metáfora para si e demais personagens. O filme tem um roteiro intricado e original que nos prende nos dias sem fim da protagonista, nas experiências dos coadjuvantes e, mais importante, na forma de contar suas histórias. A marca mais forte é o aspecto sensorial, que nos faz chegar mais perto de Eilin, de sua condição, passamos a participar de seu tatear, de reconhecimento de espaços, de sua adaptação – ela não nasceu cega. Norueguês e primeiro longa do diretor, não temos a velocidade de um filme comum e nem precisamos. Merece ser visto.

EU SOU INGRID BERGMAN, de Stig Björkman

Primeiro documentário da lista, Ingrid Bergman é a atriz de Casablanca (1942, Michael Curtiz), para quem não se recorda. Essa mulher sueca e linda é vista aqui em seus filme de família, com depoimentos sobre sua trajetória fílmica e pessoal, suas correspondências, seus amores e filhos. A riqueza está tanto nas imagens de arquivo como em um reconhecimento ainda maior que daremos a essa atriz após saber mais dela. Não é um filme biográfico de fã que ressalta apenas as qualidades e sucessos do objeto de estudo, mas tenta dar um apuro humano, relegando a nós os julgamentos, questionamentos e qualificações. É um filme lindo, íntimo e pessoal sobre uma das maiores atrizes de todos os tempos. A crítica tá aqui!

ROGER WATERS – THE WALL, de Sean Evans e Roger Waters

Esse pode ser o Segundo documentário da lista, se não restringirmos muito o significado do gênero. The Wall foi a última turnê feita por Roger Waters – ex-Pink Floyd até agora e ele o transformou num filme grandioso – em todos os sentidos. Mistura de documentário, show, biografia, espetáculo, ficção, poesia e manifestação, merece ser visto na maior tela que você dispor, porque é um deleite para os olhos. O show em si, que está integral aqui, nos deixa morrendo por dentro por não termos ido, mas a captação foi tão bem arquitetada para áudio e imagem, que é a definição ideal de prazer para os olhos. Há que gostar do disco The Wall, mas imagino que não seja problema para a maioria das pessoas de lucidez. :) A crítica!

QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert

Outro nacional, Que horas ela volta? conta uma história sem novidades. Uma doméstica (Regina Casé surreal, porque não parece a do Esquenta!) pernambucana vive numa casa de classe média alta em São Paulo e recebe a notícia de que sua filha virá à cidade para prestar vestibular. Com o aval da família para quem trabalha, recebe sua filha que passará um tempo ali, no quartinho dos fundos que a mãe habita. Só que essa moça recebeu educação e senso crítico que lhe permitem questionar um sistema a partir de dentro, de seu funcionamento orgânico e esbarrará nas estruturas de poder e preconceitos vigentes. Vale cada centavo e, mesmo não sendo novidade, foi surpreendente. Conto mais aqui, mas não deixe de ver.

JIA ZHANG-KE – O HOMEM DE FENYANG, de Walter Salles

O Blah me encaminhou para assistir esse documentário sobre um diretor de cinema chinês de quem eu nunca tinha ouvido falar. Pensei: lascou, não tenho tempo para ver os filmes e gosto de estudar, saber de quem e o que estou falando. Mas fui em frente, por conhecer Walter Salles, estudar documentário e gostar de desafios. O filme é maravilhoso porque ultrapassa a superfície da cinematografia do diretor e expande para o pequeno universo das relações humanas, do progresso e futuro, do cotidiano em uma sociedade fechada, para os conceitos de família e vida, de escolhas. O filme consegue ser tanto pequeno, quando trata do dia-a-dia e da feitura dos primeiros filmes do diretor sem orçamento, para um olhar macro, que revela aos poucos a grandiosidade desse diretor jovem e extremamente sensível e inteligente. Pode ver sem medo, provo aqui. Vai ser bom.

ACIMA DAS NUVENS, de Olivier Assayas

Sim, é aquele filme com a menina de Crepúsculo. E sim, é possível que ela esteja atuando bem. Neste drama, Maria Enders (Juliette Binoche) é uma atriz que recebe uma proposta para fazer uma personagem mais velha de uma obra em que havia trabalhado décadas antes como a personagem mais nova. Valentine (Kirsten Stewart) é sua assistente pessoal que estará ao lado dela para o funcionamento de sua agenda e carreira e será um dos pontos de conflito, quando a relação entre elas ganha outras cores. É uma história dentro da história com tantas nuances que só não ficamos perdidos porque a direção e o roteiro são extremamente bem executados. É um thriller, drama, romance e algo de comédia ao mesmo tempo. E tem Juliette Binoche, precisa dizer mais?