Comecei a ler The War of Art, de Steven Pressfield. Esse livro foi uma forte indicação de Robert McKee, a quem fui assistir o workshop em NY. Ele é o consultor de roteiros mais bem sucedido dos Estados Unidos e também tem um livro interessante pra quem quer escrever, se interessa etc, Story. O livro de Pressfield fala sobre os obstáculos à criação, de forma geral e como atravessar as armadilhas e seguir em frente em seu processo. 

O caso é que estava aqui lendo o prefácio – do próprio McKee – e lembrei umas coisas do seminário, em que falava que devemos ter garra e paciência, que uma boa história não surge do nada, mas de muito esforço, tempo para errar e acertar, para desenvolver, amadurecer as ideias. Ele fala que a primeira ideia normalmente nem é essa coisa incrível que pensamos quando vamos desenvolvê-la. Aí vemos que realmente, outros caminhos se formam e surge um produto muito mais bonito, bem acabado, interessante. Que talento, eu diria agora, é a arte de seguir em frente após a suposta grande ideia e encontrar um resultado bom, depois de uma longa jornada.

Pois bem.

Essa noite fui ao teatro, ver um musical sobre Frank Sinatra. Há muitas semanas sem ver nada, surgiu o convite e fui lá. Confesso que sou resistente com teatro, não é a minha arte, meu negócio é com cinema e literatura, no máximo com TV. O teatro me quebra um pouco a ilusão que o cinema traz quase gratuitamente, e normalmente as peças razoáveis me parecem muito ruins. Mais ruins do que filmes ruins. Não sou estúpida também: as peças boas que já assisti me marcaram profundamente e seguem comigo como referências de arte para a vida.

Em todo caso, era uma estreia e era Sinatra e eu tinha voltado da NY de Sinatra, achei que valeria lembrar os momentos do passeio. O que importa disso tudo é que no final, o diretor nos informou que a peça foi montada em 28 dias. Isso é menos que um mês. É Fevereiro, que nem é um mês de verdade, mas um carnaval, véspera de ano novo. Eu não sei o tempo de desenvolvimento de um espetáculo, mas 28 dias para consolidar uma história, com um ‘roteiro’ bem escrito, diálogos interessantes, afinação entre os atores e o texto, atores e atores, atores e músicos, atores e música... é muito pouco, não?

É óbvio que a resposta é sim. E isso fica claro no primeiro diálogo, sem exagero, em que somos obrigados a saber que ali Sinatra tinha 45 anos e que não tinha se casado com ninguém, de forma gratuita, como uma resposta a uma pergunta que ninguém fez. Um texto introdutório, forçando sua biografia e depois uma sequência sem fim de músicas mal interpretadas, como um cover preguiçoso. Pior do que tudo isso: não havia história. Era como ouvir um cd ruim, daquelas versões piratas distorcidas de um cantor bom. As quatro bailarinas atrizes que acompanhavam o Sinatra da vez, coitadas, sobrou quase nada para elas, além de uns passos de sapateado e meia dúzia de falas. Do meio pro final nem isso tem, um Sinatra caído pelos cantos, invadindo a plateia com uma pronúncia esquisita – e mais uma vez lembro McKee contando algo sobre o cantor e sua dicção perfeita (vale prestar atenção) – emendando um hit atrás do outro.

Orgulhosos de seu rebento, o diretor, elenco e equipe estavam felizes. Natural, faz parte do show, é justo. Mas se vangloriar de uma peça montada nas coxas, não tem condição. Se ao menos houvesse uma história legal... as mulheres de Sinatra, interpretadas de relance pelas meninas bailarinas, se perdem no meio do caminho... e logo elas, que foram mulheres esplêndidas! Deveriam ter feito uma introdução ao público com um folheto, informando que não esperem muito, justificando essa ausência de estrutura - não por opção estética, mas quase como uma desculpa. Mas, de novo, sem tempo. E mais: a peça não foi escrita em 28 dias - imagino eu. O texto deveria ser a única coisa pronta - já que ele é o ponto de partida para qualquer obra - e ninguém notou que estava faltando algo? Pelo menos a banda de jazz, ao fundo, era boa.

Eu percebi que McKee me deixou ainda mais inconveniente. Mas convenhamos: fazer arte assim, não é fazer por amor. Fazer com amor toma tempo, cuidado, carinho. Não é só correria, calor e agonia. Foi a primeira vez que fui ao teatro e não tinha nada pra contar depois. De repente esse livro de Pressfield me tira a procrastinação e me leva de volta a meus filmes de boas histórias, às peças com texto, a roteiros por vir, textos a escrever. Esse sinatra pobre me serviu para fazer ouvir o verdadeiro e maiúsculo, além de me incomodar o suficiente para me fazer escrever essas anotações - não pretendo ser crítica teatral - e isso, por si só, já vale agradecer.


Os Miseráveis entrou em cartaz. Sábado de sol, sala lotada, o filme de quase três horas ganhou aplausos no final da sessão. Mesmo sem entender muito o porquê – normalmente fazemos isso em festivais, quando alguém da equipe está presente – se notava o contentamento geral.
Presos puxam longas cordas de um navio para o porto. Lá do alto, um inspetor de polícia, Javert, fiscaliza o trabalho. Em condições sub-humanas, os miseráveis cantam em coro a força e resistência que os mantém vivos em tempos de guerra e peste, no século XIX. A câmera se aproxima de um deles, Jean Valjean, que olha com ódio para Javert. Imundo e fino, quase não reconhecemos o Wolverine, Hugh Jackman. Essa música forte, ritmada, já ganha o público: trancados, imundos e sem expectativas, guardam apenas rancor, a raiva que os sustenta a cada dia. Foi quando eu entendi que precisava ler o livro.

Os Miseráveis desse ano é uma adaptação do musical de 1980 ainda em cartaz e, claro, do livro de Victor Hugo, de 1862. Como toda versão, subtrai alguns personagens – o livro tem 5 volumes e inúmeras figuras menores em histórias que orbitam  Jean Valjean e Javert – a fim de manter o ritmo da narrativa fílmica. Ainda assim, poderia ter-se cortado um pouco mais.
Uma sequência me prende até hoje, dias depois do filme: cotada para o Oscar de melhor atriz coadjuvante, Anne Hathaway é Fantine, uma mulher que trabalha na fábrica de Jean Valjean – quando já é prefeito sob outro nome – para sustentar sua filha, que vive sob cuidados de uma família oportunista, os Thénardier. Fantine é despedida e sua tragédia se anuncia: se prostitui, perde sua beleza ao vender parte de si – cabelos e dentes – e só lhe resta a desgraça. Aqui, sofremos até seu fim, no primeiro terço do filme, com pena de perder a personagem tão bem construída. Em pouco mais de 3 minutos nos apaixonamos por sua voz, no ápice de seu sofrimento. Fantine espreme nosso coração com a música que transformou uma senhora comum da Inglaterra em uma das vozes mais emocionantes do planeta, I dreamed a dream, então por Susan Boyle. Extremamente afinada e impecável em cena, Anne Hathaway, nos faz sofrer em sua miséria sem saída. Com uma voz forte e inesperada, conjuga interpretação e desespero. Continuo achando que é um dos melhores momentos do filme. A câmera se aproxima de seu rosto delicadamente em poucos cortes, exibindo sua magreza, mostrando sua transformação. Em pouco tempo, sai a mulher de rosa, limpa e de cabelos compridos, entra o nada, escória e lixo parisiense. O Oscar lhe é devido.
Jean Valjean e Javert (Russel Crowe) se atraem e repelem todo o filme, e esse cabo de guerra cansa; da mesma forma que Lincoln se arrasta por quase três horas em busca do clímax, aqui, mesmo com uma montagem mais dinâmica – o ritmo de um musical se dá como uma correnteza de canções que nos embala até o fim – a repetição beira a monotonia. Somos salvos pela fluidez das tramas paralelas, dos outros personagens que completam a história. Assim, temos o romance da juventude – a esperança em um amor puro; a insurreição estudantil que transformará a nação e salvará os miseráveis do fim – como uma utopia e a redenção, que encerra a trama.
Tom Hooper equilibrou o exagero patético dos musicais e a atuação marcada do teatro com a linguagem cinematográfica. O diretor de O Discurso do Rei retorna com Helena Bonham-Carter como par de Sacha Baron Cohen, o caricato Borat de outro tempo, como os Thénardier. Aqui eles são a comédia da maquiagem e trejeitos exagerados para a proximidade da câmera, que nos remetem ao circo, com uma edição rápida como a farsa que precisam montar para surrupiar moedas e bens de seus clientes do bar e ainda explorar a então criança, Cosette. Levada pelas grandes emoções que os musicais procuram explicitar na tela, não são meus momentos preferidos, apesar de terem seu público cativo. Ao mesmo tempo, o par Cosette adolescente–Marius, do amor romântico fica com pouco tempero. Cosette é Amanda Seyfried e sua atuação não diz muito, mas os momentos se salvam por Eddie Redmayne. Fazendo mais um papel de mocinha, a atriz parece presa à forma de seu personagem, não dominando-o, mas cerceada, como se a direção tendesse a formatá-la. Já Marius sustenta o olhar doce, aquele mesmo que encontramos em Marilyn, do apaixonado perdido.
As músicas são – claro – a melhor parte. De início estranhamos Russel Crowe – me parecia sempre muito truculento para um musical – e nos apaixonamos, como dito, por Anne Hathaway. As músicas de revolução; na prisão e nas barricadas, nos carregam e nos fazem, tímidos, cantar o refrão para dentro. Assim, somos carregados, como crianças ao dormir, para um sono de aventura, drama, romance, tragédia e alguma vitória. O filme traz de volta os musicais grandiosos que surgem de tempos em tempos com o propósito  de nos enternecer.

O gênero é específico quando quase não há diálogo, mas as trocas são todas de sentimento em voz. Por isso, não há como produzir tantos musicais em sequência: o mundo real das brutalidades não permite e a inocência não se sustenta por muito tempo. Nos permitimos poucas doses de grande ilusão de cada vez, como as pequenas e raras gentilezas que nos surpreendem em um dia qualquer. Saímos contaminados com a força de um filme que fala de povo, de infelizes, de alguma preocupação política que devemos ter. Mas saímos também como se tivéssemos visto um blockbuster de Hollywood (esse aqui é inglês), embasbacados pela grandiosidade da produção, entregues à imensidão de uma multidão que trabalhou em conjunto para expor essa tragédia mundo afora. Victor Hugo retornou às livrarias reeditado, impulsionado pelo sucesso do filme. Se a história reduzida já satisfaz, complementá-la com nossa imaginação do que foi omitido pode ser um prazer ainda maior. Com mais de vinte adaptações de apenas um texto, algo precioso nos aguarda.


As prévias do Oscar já começaram e os filmes mais cotados são lançados simultaneamente no país. São tantos que, para dar conta destes e dos outros que seguem em circuito, temos que aproveitar as sessões durante a semana. Entretanto, nem tudo são flores e fico pensando por que alguns filmes seguem como favoritos.

Lincoln, de Spielberg é um deles. O filme, apesar da presença de Daniel Day-Lewis, não faz jus às 12 categorias que concorre: é chato.

Não conheço a história do presidente americano em detalhes, mas sua fama vem da luta pela abolição da escravatura com a aprovação da 13ª emenda. Associado a isso, o fim da Guerra de Secessão. Num cenário com potencial dramático, Spielberg perde a mão e nos traz uma fábula exagerada, o herói mítico sem ritmo. Logo na primeira cena vemos dois militares negros conversando com o presidente. Enquanto um é subserviente e concorda com todo o pensamento do líder, o outro assume uma postura crítica diante dos objetivos da guerra e da igualdade de cor. Em paralelo, o presidente atencioso com o primeiro e reflexivo com o segundo e já tiramos daí nossas primeiras conclusões da apresentação do personagem: é, realmente, um cara legal. A primeira escorregada também está aí: outro soldado, agora branco, aparece, conversam e ele cita um trecho de seu discurso mais importante, mas não consegue encerrá-lo. Quando sai de cena, o soldado crítico negro encerra o discurso se provando tão bom e preocupado com a nação quanto seu colega. Por que?

Com uma fotografia escura, em tons sempre frios que sinaliza o momento delicado da História americana, a luz, entretanto, nunca chega. À esperança de um final feliz – conseguimos a 13ª emenda! – a tragédia (quase clichê se não fosse real) do assassinato do herói. A montagem se arrasta presa por um roteiro de eterno vai-e-vem de explicações e justificativas para o fim – agradecendo a boa participação de David Strathairn e Tommy Lee Jones – a continuação da guerra e a importância de abolir a escravidão para o país. Em raros momentos, personagens isolados insinuam críticas ao sistema de governo e às ideias liberais, mas o objetivo é reforçar o mito, sustentar à repetição e de forma superficial a questão racial – ainda assunto delicado nos Estados Unidos – e desumanizar, no sentido exato do termo, a figura central do filme. O que resulta disso é literalmente uma maquiagem excessiva no ator: a impressão é que Daniel Day-Lewis tem 500 anos e que se move lentamente. É fato que os grandes presidentes perdem parte de sua saúde e juventude exercendo o cargo e Lincoln não era um garoto, mas não o extremo que assistimos. Independente disso, é ele quem sustenta a obra, nos surpreendendo com sua atuação. É ele, a justificativa para irmos ao cinema.

Talvez esteja aí a raiz problemática da trama: um roteiro que concorre ao “maior prêmio de cinema” sequer apresenta uma estrutura coerente. Nos princípios básicos de construção de personagem – especialmente sendo ele o protagonista da obra – sabemos que deve ser apresentado, sofrer alguma transformação e crescer, de qualquer forma. São essas elevações e declives que moldam a estrutura fílmica, garantem os ápices e anticlímax que nos prendem a qualquer enredo. O mais próximo disso que assistimos é Lincoln e os seus comprando votos no Congresso para aprovar sua emenda ou o dilema entre protelar a guerra em prol da alteração da constituição. Se fosse no Brasil, um país historicamente corrupto e levando em consideração a nobre causa que o dignifica, comprar votos ou negociar um estratagema para resolver o conflito, seriam problemas pequenos. Talvez por isso não nos surpreenda tanto quanto as críticas sobre o filme feitas por lá. 
Ainda vemos Sally Field como a mãe de família participativa, primeira dama que sofre a perda de um filho e agora um menor risco de perder outro – que decide ir para a guerra. Histérica, como os surtos de sua personagem em Brothers and Sisters, apresenta uma das falhas históricas, em que aparece no Congresso para acompanhar os debates e a votação final da emenda. Imagino que se à época era inimaginável, uma piada, pensar na mulher enquanto eleitora, que dirá ocupando uma cadeira lá – ainda que de ouvinte. Joseph Gordon-Levitt faz um personagem tão de escanteio que não careceria tanto sua participação no filme. Ele é o filho mais velho do presidente, esquecido, isolado. Seu momento de glória é quando decide ir para a guerra, trazendo o drama familiar para o filme. Ainda assim, a supressão de seu personagem não faria tanta falta na história.

O fato é que Spielberg é um romântico ou, ao menos, patriota. A construção disso é clara e parte sobretudo de seu protagonista, da trilha sonora – que faz brilhar o letreiro de Hollywood, tamanha ênfase – e do final com o clímax e posterior conclusão. As derrapadas históricas, concordo com o diretor, fazem parte da construção artística de um fato e doem muito pouco no público. Encantados com Daniel Day-Lewis e seus movimentos limitados, olhar e voz transformados, vemos mais uma vez, um ator completo. Estive me questionando sobre o personagem e, partindo disso, há que se fazer uma retrospectiva de sua carreira para nos darmos conta de que ele não erraria. Olhando fotos no site do filme e o trailer, revivo algumas cenas, olhares do protagonista, ações, postura. Como Joaquin Phoenix em O Mestre, Daniel Day-Lewis justifica a indicação nesta categoria.
Levando em consideração seus concorrentes ao melhor filme, dificilmente ganharia por mérito próprio. A Academia não se baseia somente em qualidade artística e um filme pró-americano, de Spielberg se torna lugar comum. O austríaco-francês Amor e também americano O lado bom da vida são muito mais interessantes e ricos. O peso aqui está na representatividade do tema, no que agrega, na questão racial (olha, há um presidente negro por lá) e na grandiosidade da produção. Não é uma categoria para se levar tão a sério – melhor contar com Filme Estrangeiro, Animação e Documentário – aí sim, costumam fazer boas seleções - mas para entender porque e o que move a indústria cinematográfica americana atualmente e ajudar na escolha do que assistir por aqui. 

O que esperar de um filme que se chama Amor? Malmente se consegue definir a palavra por sentimento e aí está uma sequência de imagens e sons com o título. O que há no filme para ganhar algo tão almejado por todos? Em tantas músicas, filmes, peças de teatro e poesias, esse AMOR nos mostra mais do que emoção.
Truffaut diz que precisamos trair a realidade para fazer um filme. Essa traição é uma busca pela ilusão necessária do cinema. É preciso comprar o espectador, manipulá-lo, lhe garantir os minutos de alguma fantasia. E diz mais, que os diretores precisam sempre dizer não a alguma coisa para que, a partir desta recusa – ou do estabelecimento de seu dispositivo – buscar a forma de construir uma história. A forma porque cada um tem a sua, pessoal, intransferível – o olhar, nunca o tema (que pode se repetir). Neste filme, o dispositivo que temos é o apartamento. Quase toda a história se passa lá, a não ser por poucos momentos em que o casal indica uma vida social ativa, indo a um concerto. A reclusão é fundamental: a mulher (Anne) sofre um ataque e fica doente. Paralisada um lado do corpo, torna-se dependente de seu marido (Georges) à menor das necessidades enquanto definha. Tendo lhe prometido nunca mais levá-la a um hospital, sua vida se resume a fornecer o conforto para a mulher que ama, a vendo desaparecer diante de seus olhos.
Michael Haneke tem uma forma de fazer cinema. Seu olhar inquisidor parece sempre exigir mais de nós. Violência Gratuita, Caché, Violência Gratuita (remake) e A Fita Branca encarnam temas polêmicos em estruturas que nos obrigam a pensar, nos tirando do lugar comum. Haneke nos engravida de ilusão, por mais realista que seja a obra. E quando as luzes se acendem - sempre se acendem bruscamente em seus filmes - ficamos lá, deslocados com a realidade, ressaltando força e inteligência o que acabamos de ver. Nunca saímos como antes. Amor não é diferente. Confinados no apartamento durante quase toda a duração, não vemos nada além de Georges cuidando e acompanhando o fim de Anne. Ao mesmo tempo, a reclusão os esvazia de realidade, o tempo se perde numa rotina de dias parecidos, numa família que não vê televisão. O contato com o mundo está nas compras que o porteiro faz, nas visitas esporádicas da filha Eva (Isabelle Huppert), sempre culpada por sua ausência e (des)compromisso familiar. É esse isolamento que impõe àquele cotidiano uma gravidade maior, nos preparando para o futuro.
Amor fala do envelhecimento europeu. Com a alta perspectiva de vida, além da previdência social, há a questão de o que fazer com os mais velhos. Uma casa de repouso é a resposta de Eva. Morando em Londres, ela não vê alternativa e não acredita na força do pai. À recusa deste em atender, a solução foi contratar enfermeiras. É esse realismo que a história imprime, a espera diante de um final infeliz firmado num dia-a-dia longo e exaustivo que o afasta do melodrama. Sofremos por conceito, pelo que vemos, mas com uma distância imposta pela ausência de trilha sonora e diálogos firmes. A fotografia de Darius Khondji reforça a frieza do ambiente. Planos fixos, ausência de câmara na mão e aparência natural procuram não enfatizar qualquer caráter emotivo à história já trágica. Ela parece nos dizer 'veja, é assim que se passa a história, preste atenção em como a vida acontece'. Em um filme em que todos os personagens são ligados à música, só a ouvimos quando ela participa enquanto objeto de cena, em momentos específicos. Não há a trilha sonora vinda do espaço, o tema que arrasa corações e nos deixa em lágrimas.
Emmanuelle Riva (Hiroshima, mon amour, Alain Resnais) se despe de qualquer vaidade e enfrenta uma doença da velhice a reduzindo numa senhora frágil e senil, cujo corpo não reage ou se sustenta e o pensamento regride. Assistindo ao filme, fiquei pensando em como uma atriz nos seus oitenta anos se sentiria interpretando uma senhora que está morrendo nos seus oitenta anos. A relativização entre a vida real e seu personagem, ao tempo que não a imuniza de situação semelhante, lhe prepara para um talvez futuro não tão longínquo. Jean-Louis Trintignant (Z, Costa Gavras), por outro lado, segue como se seu personagem dependesse disso, prepará-la para o fim. É dele a prova de amor, o mais profundo, de vida inteira. O carinho no olhar, as confissões inéditas que lhe faz só confirmam que havia ainda muito o que viver e trocar. Mas, ao tempo que Annie deixa de ser, o sentimento se transforma. Agora Georges é também pai. Seu desespero inicial toma o lugar de uma ternura que perde terreno para a paciência e a estafa. Todos os bons sentimentos estão ali, mas até quando, até quanto se pode suportar, até onde é amor?
Deixando o espectador abandonado no cinema, Haneke mais uma vez nos impõe a reflexão. Uma sala grande e lotada saiu calada, cada um pensando em seu futuro ou no presente de alguém próximo. Pensando nesse amor, em Anne e Georges como gente que conhecemos – guardados os excessos ficcionais – em Anne e seu fim, em George e seu fim. Não é um filme tranquilo, é uma representação honesta de um sentimento difícil, sem romantismos ou melodrama e por isso não choramos, não entramos numa catarse, não expiamos nossas dores. Saímos com uma história que não nos pertence, mas nos atinge de forma profunda, como as ações de Georges, como Anne, nas primeiras e importantes sequências do filme. E aí entendemos todas as premiações e, de novo, a força e inteligência do cinema de autor.

Terminei de ler Liberdade hoje. O livro de Jonathan Franzen tem 600 páginas e uma grande história sobre uma família americana. No começo ainda não tinha me encantado, mas investi e em 3 dias terminei o livro, concentrada e naquela agonia das boas histórias que precisamos perseguir. O problema, como eu previ parágrafos antes, está em um detalhe no final da história que me irritou por ser uma saída fácil para um de seus personagens. O que parecia original, com todos os seus dilemas, trama interessante e bem tecida, perdeu um pouco da glória que esbanjava, desatando um nó de forma óbvia. É um livro bom, mas o clichê me entristeceu. Vale a pena ler, mesmo com o movimento em falso.

Hoje um livro, ontem um filme. Fui ao cinema ver o novo alemão que desembarcou aqui. Barbara – título da produção e da protagonista – é uma pediatra de Berlim oriental que após a prisão é enviada para trabalhar num hospital de uma pequena cidade. Barbara tem ódio, não consegue se imaginar vivendo com tantas restrições e é permanentemente vigiada. Enquanto sua casa rotineiramente recebe visitas da Stasi que acompanha seus passos, vasculha sua casa e corpo em busca de evidências subversivas, ela aproveita pequenos momentos de liberdade para tramar sua fuga ao lado do namorado, que consegue circular pelo país e ocasionalmente a encontra. Ao mesmo tempo, conhece e se envolve com a vida local, as crianças que atende e seu chefe no hospital.
No livro vemos o conceito de liberdade tomar proporções pouco imaginadas e passamos a perceber a noção de responsabilidade que a palavra carrega. É uma família de classe média nos Estados Unidos – dos subúrbios de casas iguais com gramados na frente e cerca baixa – nos anos de Bush filho, da política imperialista e anti-terror pré e pós 11/09. As liberdades individuais entram em conflito, reforçando as fragilidades de cada um, a cada escolha que faz. O livro migra nossa atenção entre os personagens os deixando um por um, por alguns momentos, como protagonistas. Assim, pontos de vista diferentes são expostos, realidades individuais, o conceito amplo e pessoal do título se dilui e diversifica, sem perder o eixo narrativo principal. É a era da liberdade total nos Estados Unidos (pra quem é americano), onde o poder é tanto que se pode construir uma guerra sob falsos pretextos, inclusive libertários.
Na Alemanha de Barbara já não havia guerra escancarada. Era uma situação estabelecida, sob pressão de um país dividido. A liberdade existia até a página dois, quando parávamos de concordar com o sistema. As restrições de cultura e comportamento acabavam por moldar o pensamento, transformando alguns em indivíduos amedrontados e outros em vigias permanentes de um descuido alheio, como câmeras de segurança. Assim, mesmo não sabendo a história prévia de nossa heroína (Nina Hoss), nos afiliamos a ela que, com a frieza da resistência e de quem traça uma meta estampada no rosto, contrasta com o carinho que cede aos seus pacientes. Barbara é o oposto de seu chefe, Andre (Ronald Zehrfeld), um homem atencioso por natureza, que guarda a distância saudável de quem atende.
Segundo Setaro, o clichê é um movimento determinado que impulsiona a narrativa. Se usado com exagero se torna previsível e determina uma 'queda' no tecido dramatúrgico ou, mesmo, um 'enchimento' desnecessário. Se este é a pedra no caminho que me incomoda no livro, no filme funciona bem. A história de Bárbara se cruza com a de outros personagens, determinando o rumo da trama, alterando seu percurso planejado. Esses encontros a transformam também; aos poucos ela se permite oferecer migalhas de intimidade em pequenos sorrisos e trocas de olhares. É um filme tenso à medida que sabemos o que nossa heroína quer, vemos seu planejamento e ficamos aguardando, ansiosos, sua liberdade, com uma trilha sonora hitchcockiana. O suspense está ali, como um clichê moralista final, e que até nos deixa com alguma esperança de reviravolta que não acontece e não desagrada.
Filmado em ordem cronológica – surpresa indicada pelo imdb – é acertado o crescimento no tom agressivo e nervoso que carrega. Os personagens ficam mais à vontade uns com os outros à medida que nos aproximamos do desfecho, quase tapando os olhos diante de cada decisão de nossos protagonistas. A fotografia do filme colabora, se aproveita de paisagens lindas e bucólicas, traduzindo o espaço numa cidade em que aparentemente nada acontece. Planos fechados de Barbara e Andre traduzem uma aparente frieza dela e curiosidade dele, sempre contida. A mal entendida passividade de Andre evolui para pequenas imposições quase nunca atendidas pela independência de Barbara, mas ainda assim, com posicionamentos éticos reafirmados à sombra de qualquer dúvida.
O filme é mais um da leva de produções alemãs que tratam de sua história recente. Como no Brasil, Argentina e Chile, rever o passado é fortalecer o ideal de nunca repeti-lo. Adeus, Lênin! e A Vida dos Outros, sobre o período da Guerra Fria e A Queda, A Onda e Uma Mulher contra Hitler já mais próximos da Segunda Guerra são grandes exemplos, todos da última década. Talvez Barbara se destaque por trazer uma história de resistência focada numa personagem forte, desafiadora. Ainda assim, como costumam ser as grandes histórias, essa também cede ao apelo moral e a figura feminina se torna um tanto materna, mas nada que a reduza, apenas a naturaliza num ambiente estéril. Abrindo espaço onde não há liberdade e com poucas saídas satisfatórias, Barbara é um filme completo. Em seus clichês bem preenchidos, retrata uma história que poderia ser muito comum, se não verdadeira e saímos do cinema boquiabertos com Nina Hoss e o equilíbrio na direção de Christian Petzold. Vale as 14 indicações, os 7 prêmios nos festivais europeus e americanos em que competiu e a nossa ansiedade deixada pra trás ao fim da projeção.



Todo bebê é um mistério. Acho que até para os pais. Por não falarem, tudo o que sabemos deles vêm de suas expressões, choros, trejeitos. Como um filhote de animal ou como os animais de forma geral. Mesmo tendo sido bebês, é impossível recordar o período, o que nos deixa enternecidos, curiosos e cautelosos com os que fazem parte de nossa vida.

Bebês é um documentário de 2012 que acompanha o primeiro ano da vida de 4 bebês espalhados no mundo. Mongólia, Japão, Estados Unidos e Namíbia são os extremos escolhidos por Thomas Balmès a partir de uma ideia do ator Alain Chabat. O objetivo fica claro com o dispositivo: encontrar famílias com histórias completamente diferentes umas das outras e criar um paralelo entre as culturas através desses pequenos personagens.

O cartaz diz everybody loves babies. Mesmo não gostando da propaganda estranha, é difícil encontrar alguém que os deteste. As imagens do pôster já nos mostram como é impossível não amá-los: crianças lindas com aquele olhar penetrante e fofo. Essa atração irresistível que eles exercem em nós nos transporta para fora do mundo duro e real das notícias de jornais, nos deixa esperançosos e bobos, com vozes estranhas e jeito infantil. A docilidade, ternura e inocência são cativantes e aqui intensificadas pela ausência de diálogo. O diretor disse estar fazendo um filme animalista, mas talvez seja mais correto entender como uma etnografia mesmo, daqueles filmes de antropólogos do audiovisual.

A construção do filme os acompanha do nascimento até o primeiro ano, passando pelo primeiro ‘mamãe’, engatinhar, ficar de pé e finalmente, andar. Comemoramos cada vitória nos sorrisos, choros, banhos e xixis das crianças, junto ao carinho que emana de seus pais. Por não haver palavra – linguagem limitadora numa produção multinacional – vemos todos como iguais e as diferenças culturais nos aproximam, aumentando nossa curiosidade e nos fazendo tender a gostar dos mais distantes. Assim, Ponijao é uma delícia de bebê da Namíbia que vive basicamente com sua mãe, outras mulheres e um rebanho de crianças, mama de outros peitos que não os seus e vive a natureza com uma intensidade só comparada a Bayar, seu respectivo na Mongólia. Este, um bebê explorador é o mais encantador de todos. Acostumado a ficar sozinho em casa, amarrado a um tecido para sua proteção – seus pais precisam trabalhar fora ou ausentar-se constantemente – emana uma tranquilidade ao conviver com diversos animais e uma curiosidade que nos gruda um sorriso na cara, como apaixonados pela primeira vez. Esse acompanhar da câmera e sua equipe não desperta tanto a curiosidade das crianças, lhes permitindo agir naturalmente, reforçando mais uma característica de filmes etnográficos, quando a equipe se torna invisível para seus protagonistas.

Hattie, nos Estados Unidos e Mari no Japão não ficam atrás. O detalhe é que por viverem em grandes capitais, com hospitais, tecnologias e urbanidade pulsante, se tornam mais comuns para nós. Continuamos vibrando com suas fofuras, mas as novidades são poucas. É até mais gostosa a identificação pela diferença que temos por Bayar e Ponijao, por perceber formas de viver alternativas, cujo nosso sanitarismo e senso de perigo jamais seriam permitidos aceitar, mas que não deixamos de concordar com eles ainda assim. A força da cultura, imponência do ambiente e da simplicidade, a rotina nessas comunidades ermas – porque são residências isoladas, com muito pouco de tudo ao redor, exceto a natureza – garante uma liberdade, a construção da independência e a vida com pouco se torna muito mais rica aos nossos olhos romantizados.

Com uma fotografia que equilibra grandes paisagens distintas e seus personagens em planos aproximados, temos os bebês e suas famílias de todas as formas possíveis. Em ângulos fechados, acompanhando suas intimidades com um olhar não invasivo, participando da vida de todos sem necessariamente alterá-las. Tudo isso sempre com aspas, já que a mera presença de uma câmera transforma a percepção que temos da realidade filtrada por ela.

O filme foi feito com muito carinho e isso é sentido em toda a sua construção, confirmado no making of, com as famílias se vendo e vendo as demais na tela do computador. A montagem acompanha os quatro em igual medida, nos dando prazer em assistir, querendo sempre mais. Ao mesmo tempo, mais não é possível. Pensar numa série que os acompanhe seria ótimo se não fosse tão voyeurista e invasivo. No fim, vivemos mais ou menos da mesma forma, especialmente quando somos muito pequenos. O filme me apareceu num momento especial; com tantos bebês de amigos perto de mim, é uma delícia ver seu crescimento entre as viagens para Salvador. Quando chego lá, em média a cada 3 meses, é notável a evolução, como se desenvolvem rápido e como encontro nesses Bebês de Balmès e Chabat os meus sobrinhos. Continuam um mistério para mim e à medida que crescem, as linguagens se desenvolvem e participamos mais da vida um do outro, mas o desvendar, o entendimento através do olhar e o sorriso puro, gostaríamos que ficassem para sempre.

A primeira vez que me impressionei com Sarah Polley foi assistindo Minha Vida sem Mim (Isabel Coixet, 2003). O filme é sobre uma mãe jovem que descobre ter um câncer terminal. Centrado na atriz, mostra na tragédia a sutileza diante do fim iminente. A protagonista entende ter como missão preparar sua família para que viva bem sem ela. Essa ideia dolorida e forte é mostrada no filme com uma delicadeza rara, poucas palavras e sem melodrama. Ano passado assisti Stories we Tell, dirigido por ela (perdi alguns filmes no intervalo, como A Vida Secreta das Palavras, Coixet, 2005 e Away from her, como diretora, em 2006). Stories é incrível, um documentário que consegue despertar interesse mesmo tratando da vida de sua família, sem parecer invasivo, fútil ou narcisista.

Take this Waltz ou ridiculamente em português Entre o Amor e a Paixão é um romance. A ficção dirigida por Sarah Polley em 2011 e lançado este ano, trata da jovem Margot (Michelle Williams) dividida entre o amor pelo marido Lou (Seth Rogen) e a paixão inesperada pelo vizinho Daniel (Luke Kirby). Depois de Stories, resolvi levar a diretora/atriz a sério. Sarah entrou para a direção apostando alto e resultando em ótimos filmes, em ficção e não ficção. Canadense, consegue fugir do padrão americano raso sem absorver a suposta profundidade do cinema europeu; os filmes sustentam um equilíbrio de ter algo a dizer e entreter a larga audiência. O próprio documentário já assegura isso com uma linguagem tranquila, trazendo ‘pessoas comuns’ para frente da câmera, mostrando sua insegurança, estranhamento e posterior familiaridade com o equipamento. É como se nos víssemos no lugar deles ao sermos entrevistados e, como é um filme de família, lembramos a nossa própria, rindo das piadas internas e do carinho íntimo que transparece na tela. Neste novo filme, por outro lado, há mais do que uma comédia romântica, mas um filme de personagens sensíveis, onde todos são complexos e categorizar como mocinho ou bandido fica impossível.

Michelle Williams, somando um filme bom a outro, se tornou referência para ir ao cinema. Seus personagens fortes encerram o perfil de recém-saída da adolescência – a primeira lembrança de sua carreira vem de Dawson’s Creek. Aqui, mais uma nuance dos relacionamentos é abordada: um casamento estável e recente entre dois jovens adultos perde sua base diante do novo. O dilema entre uma forte paixão que pode se tornar amor e um amor tranquilo, consolidado e também firme marcam a personagem. Seth Rogen é Lou, o marido tranquilo, uma ponta da corda. Aqui o ator deixa a comédia de lado e assume um homem comum, mas não menos interessante. Com ele não há mistério, Lou é franco, direto, aberto. É alguém que praticamente faz parte de nossa família. Da mesma forma, Sarah Silverman se destaca como sua irmã alcóolatra em remissão, também retraindo a veia cômica muito bem. Geraldine em sua sobriedade e intuição ajuda a cunhada, indicando que o vazio que ela pretende preencher é impossível, faz parte da vida. É o mesmo vazio que a faz procurar a bebida, como uma espécie de ansiedade e melancolia que nos pega desprevenidos de vez em quando.

A construção de Daniel é clara: ele é o ideal romântico, o desconhecido, interessante, artista, atencioso. É o personagem fácil de se gostar, é o que vem de fora, o que traz o novo. Daniel é a curiosidade. Ao mesmo tempo que ele desperta o interesse imediato de quase qualquer mulher, há outras razões para Margot ter se casado com Lou que não a estabilidade - provavelmente Lou foi esse mesmo mistério que ela busca em Daniel. Não há certo ou errado, em resumo. A montagem faz questão de explicitar as relações fora de casa nas escapadas de Margot e Daniel, aumentando a (nossa) ansiedade à medida que eles passam a se conhecer melhor; e dentro de casa com Lou, numa outra ótima situação doméstica e íntima, causando mais dúvidas e algum sofrimento em nossa complicada heroína.

O filme ainda surpreende quando vemos um Canadá fora do estereótipo. É verão e o clima quente imprime sensualidade na fotografia vibrante, cheia de primeiros planos, cores fortes, água e suor, vieses por janelas de vidro e cozinha. Vemos poucas roupas e até o toque dos personagens é carregado de tensão. É essa fotografia que nos prende, que alimenta o filme de forma que não percebemos, mas nos faz mergulhar na história aliviados por não sermos aqueles personagens e, ao mesmo tempo, querendo fazer parte do que vemos ali.

Uma amiga foi assistir comigo e disse ‘lá vem mais um filme sem final’. Acostumada às comédias românticas francesas e americanas, ela prefere aqueles filmes redondos, onde tudo que há pra ser dito é resolvido ali mesmo, na duração do filme. Mas se este se pretende mais próximo da realidade (à exceção da incomum profissão de Daniel), talvez ele não careça de um finalzinho redondo, mas de reticências, interrogações e alguma deixa para o futuro. Sarah Polley faz isso muito bem, talvez seja uma característica dela e não exclusiva da profissão, nas histórias que ajuda a construir, independente do gênero a que se dedica. A condição de permitir que participemos, que elas tomem nossos pensamentos quando saímos da sala, que nos faça discutir e imaginar ou que, pelo menos, tenhamos vivido umas duas horas de prazer, já valem o ingresso e a espera pelo próximo filme.



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